cinema

CAMINHOS PARA OUTRO CINEMA nº 6


Entrevista com Ben Rusell

Luciana Dumitru: Michel de Certeau escreve, em Tupi, sobre a experiência de um escritor viajante francês, Jean de Léry, usando o termo “restante” para aquilo que não podia ser traduzido (em palavras). No caso de Léry, os impressionantes prazeres visuais e de escuta (subjetiva), em torno de uma língua que ele não podia entender, com seus sons estranhos, ou mesmo a experiência visceral de estar cercado por corpos nus. De Certeau afirma que “proximidade é presença sem possessão”. Na sua experiência de viver na comunidade dos animistas Saramacanos, você poderia falar sobre os “restantes” que desejava encontrar? Como o cinema te ajudou nisso? E, principalmente, quais são as “reminiscências” desse filme – River Rites (que são diferentes da experiência vivida)?

Ben Rusell: Os anos em que vivi no Suriname foram muito menos românticos do que a viagem de Léry parece – aquele lugar era bastante estranho e complicado mas de alguma forma sempre muito familiar, especialmente quando eu estava lá. Por causa disso, eu nunca pensei no cinema como uma ferramenta de tradução mas sim como um meio de invocação, para revelar o invisível oculto nas sombras e transformar o tempo em um corpo que todos nós pudéssemos entender.

Luciana Dumitru: River Rites parece ser bem sucedido em transcender o dualismo cartesiano entre mente e matéria, ao encontrar uma perspectiva fluída em relação a alteridade. É um filme etnográfico experimental. Como você define o sintagma “etnografia psicodélica” que você atribui a seus filmes?

Ben Rusell: Etnografia psicodélica é uma metodologia, é um meio para um fim. Reúne a carga subjetiva visceral da psicodelia com o desejo etnográfico de um entendimento objetivo do eu. O resultado é uma dialética que é ao mesmo tempo corporificada e crítica onde os terrores e prazeres de estar perdido são equilibrados pela necessidade de saber onde, quem e o que nós somos, particularmente em relação com aqueles que não são nós.

Luciana Dumitru: Você também chamou River Rites de filme caseiro, o que, pelo que eu entendo, vem do fato de você ter vivido por dois anos no Suriname, em uma comunidade rural no alto rio Suriname. Eu particularmente gosto dessa ideia de casa que inclui a alteridade. Nesse sentido, eu diria que o seu filme parece com a intenção “não falar sobre, apenas próximo” (ligado inclusive ao fazer o invisível visível) que Trinh T. Minh-ha declara no início de “Remontagem”. Você pode comentar o que “filme caseiro” significa nesse contexto, que é ao mesmo tempo o de uma cultura diferente?

Ben Rusell: Meu cinema não é sobre explicação ou descrição, não é dedicado a avançar nenhum regime particular do conhecimento. A noção de “falar próximo” de Minh-ha tem a ver com a proximidade de Certeau – o lar é uma função de familiaridade, irrestrito pela cultura. É visível na troca de olhares, sentido através da distância entre câmera e sujeito. Resumindo, lar é onde você encontra abrigo – e River Rites acaba mostrando a casa que eu construí, no primeiro e último plano.

Luciana Dumitru: Sua abordagem procura tirar menos proveito ao permitir a agência dos sujeitos humanos que você filma. Isso significa que ao permitir agência, eles não são tratados como objetos. Eu acredito que você emprega um “olhar transcendental”, uma forma de olhar que está para além da pretensão de objetivismo, menos aproveitadora. Nesse caso, trata-se de um olhar que reúne dois mundos separados que compartilham uma energia comum. “Permitir agência” significa aqui uma certa participação/colaboração ativa de quem você filma (através da improvisação, ficcionalizando suas ações) ao mesmo tempo que se está atento a câmera ou como você traduz isso?

Ben Rusell: O cinema é necessariamente aproveitador – não há como fugir disso. No entanto, o poder não é unidirecional, e é importante reconhecer que todos os sujeitos tem agência desde que saibam que estão sendo filmados. Eu sempre pago os meus participantes por seu tempo e energia, e durante o processo eu tento estar o mais visível possível. Eu incentivo a colaboração, mas como meus filmes nunca são simplesmente o evento filmado, eu me permito orquestrar o momento para se tornar o que eu quero.

Luciana Dumitru: No início do filme as coisas são observadas na medida em que se desenvolvem naturalmente. Alguém ouve os idiomas desconhecidos, as vozes e sons do rio. Mas então, há uma mudança de atmosfera. Uma música intensa pertencente a outro espaço invade a imagem. Eu acredito que essa é uma maneira de mostrar uma distância irredutível e, ao mesmo tempo, uma forma de entender a experiência espiritual deles utilizando sua própria experiência.

Ben Rusell: Isso está na linha do que eu estava tentando realizar – o colapso de dois espaços em um, amarrados por experiências paralelas acontecendo em partes totalmente diferentes do planeta.

Luciana Dumitru: O tempo não cabe no seu filme, poderíamos falar em “desfazendo a temporalidade”. Isso desestabiliza qualquer olhar estrutural que tenta dar sentido ao que realmente está acontecendo. Ao invés disso, a atenção se move em direção aos corpos, movimentos (de trás pra frente) e ritmos. Dá pra ver como isso se conecta com a ideia de rituais no cotidiano. Estou curiosa com a sua intenção de usar esse tipo de temporalidade.

Ben Rusell: Tempo é um sujeito, é o corpo que nos anima. Não sei o que mais posso acrescentar.

Luciana Dumitru: Seus filmes não estão interessados em representação (da realidade). Contudo, você teve alguma estratégia/preocupação inicial relacionada a como corpos negros são representados aqui?

Ben Rusell: Claro, minha formação aconteceu nos espasmos da teoria pós-colonial, e demorei anos e anos para conseguir fazer filmes sobre qualquer corpo, negro ou não. Eu me refugiava em histórias passadas e futuras, conscientemente evitando fazer um cinema do presente, até que o presente se afirmou como o principal tempo a se exprimir.

Luciana Dumitru: Eu presumo que você acredita na especificidade de cada mídia. Você pode falar sobre sua preferência pela (materialidade e fisicalidade da) película no caso de River Rites?

Ben Rusell: Eu acredito em especificidade, em todos os sentidos. Eu acho a natureza a-histórica, alquímica e física da película razão o suficiente para usá-la até que eu não possa mais – é a linguagem do mito, a imagem da história, uma lição perpétua de economia e fé. As duas últimas são especialmente úteis para mim – as limitações da película (custos, duração por rolo de filme) me forçam a tomar decisões melhores, me colocam em uma relação mais produtiva e de aceitação com o mundo.

Luciana Dumitru: Eu vejo no seu filme uma preferência pela imagem sensorial, visões materializadas, também um senso de comunidade e o sagrado no profano. Certamente tem uma certa magia. Como você espera que o filme afete o espectador?

Ben Rusell: Eu espero por todas essas coisas serem invocadas – sensualidade, materialização, espírito coletivo – mas como autor do texto, eu tenho certeza de que eu nunca saberei se esse é o caso. O cinema tem múltiplas vidas…

Luciana Dumitru: Alguns teóricos (e historiadores) do cinema alegam que o filme etnográfico no início do cinema, antes dele se tornar intencionalmente experimental (e.g., Jean Rouch, Robert Gardner), já experimentava com técnicas e estratégias de representação de um corpo etnográfico. Você tem algum filme favorito desse período? Que outros cineastas experimentais (etnográficos) você gosta e são para você uma fonte de inspiração? E por quê?

Ben Rusell: Filmes “documentários” foram os primeiros que tive contato na universidade, e talvez por seu quadro peculiar eu sempre presumi que os filmes dos Lumière, junto com filmes como “Electrocuting an Elephant”, de Thomas Edison e “Nanook of the North”, de Robert Flaherty, eram apenas metade do caminho. A ficção da mise-en-scene era emocionante, e eu entrei praticamente em êxtase quando vi pela primeira vez “Terra sem Pão” de Buñel e reparei que aquelas direções eram realizadas de forma completa.

Quanto ao resto, eu achei maravilhoso “Enjoy Poverty” de Renzo Marten, “Divine Horsemen” (sem som), de Maya Deren; “Forest of Bliss”, de Robert Gardner; “Children’s Magical Death”, de Napoleon Changnon; “Vampires of Poverty”, de Luis Ospina; “Horendi”, de Jean Rouch; “I Touched Her Legs”, de Eva Rodbro; “Crossroads”, de Conner; e “Act of Seeing With One’s Own Eyes”, de Stan Brakhage. Todos esses são etnográficos, certo? Tem muito mais! Eu acho que todos eles têm uma ligação tênue com a verdade, se garantem na incerteza e no prazer.

Luciana Dumitru: O ritual e o êxtase aparecem em muitos de seus filmes. Você pode dizer um pouco mais sobre o conceito de jornada em relação à isso? – essa pergunta pode ser repetitiva depois da explicação do que é “etnografia psicodélica”. Mas não necessariamente, porque aqui você pode dizer como isso se “aplica” a diferentes filmes que você fez.

Ben Rusell: Eu acho que só posso responder isso com uma história. Depois que tomei alucinógenos pela primeira vez, eu lembro de ficar chocado como a duração da viagem parecia longa – como se eu estivesse acampando no mato por semanas. A intensidade e absoluta quantidade de experiência não pareciam poder ter acontecido nas poucas horas que passaram. Eu percebi mais tarde que essa também era a minha experiência de cinema – um meio cujo personagem é o próprio tempo. Cinema como uma jornada que nos carrega com ela.

Luciana Dumitru: Você tem uma formação teórica em filme/vídeo/novas mídias (além de artes e semiótica), você foi professor de artes e é curador. Como a teoria te configura como artista?

Ben Rusell: Totalmente – embora me sinta feliz de ter sido apresentado a isso em um momento cedo o suficiente para ser capaz de escolher o que eu queria levar comigo ou deixar pra trás. Compreender que forma e conteúdo são o mesmo foi uma verdadeira revelação para mim.

Luciana Dumitru: Leslie Thornton foi seu “orientador”, em dado momento. Você também trabalhou com Ben Rivers. Quais são os principais aprendizados que você teve com eles?

Ben Rusell: Leslie foi a pessoa que me ensinou a fazer filmes, embora ela talvez tenha apenas aberto a porta e apontado. Ela pacientemente afirmou a importância da intuição como uma força criativa condutora, reforçando a importância de permanecer faminto. Demorei cinco anos para compreender isso, no entanto. Quanto ao Ben, ele é um grande amigo e um verdadeiro visionário, mas nós ainda estamos muito próximos para eu saber o que aprendi.

Luciana Dumitru: O que mais te interessa no momento?

Ben Rusell: Encontrar um lugar para fazer música com batida analógica, usando sintetizadores e sequenciadores, mas sem depender de samples. Estou pronto pra começar uma nova banda.

Entrevista publicada originalmente em: https://bieff.wordpress.com/2013/12/12/river-rites-interview-with-ben-russell/


Baixar:

Luis Buñuel – Terra sem Pão (1933)
Maya Deren – Filmes (1943-58)
Robert Gardner – Forest of Bliss (1986)
Stan Brekhage – The Act of Seeing With One’s Own Eyes (1971)

 

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