#28 Edição/poesia

Faca

Com um pedaço de faca
é possível talhar
uma casa é possível talhar
uma porta um poço um poema
eu você dois espelhos
refletindo
o espaço vazio da sala
o gato dormindo
sobre a estante
eu você sorrindo
sempre
e o mofo nos consumindo
os dentes
naquela tarde úmida
em que você me dizia
o teto irá desabar
e nos levará com ele
mas era o tempo nos observando a vida
e nossos amigos adoravam aquela infiltração.

Com um pedaço de faca é possível talhar
uma banheira uma janela um porta-retrato
eu você sorrindo em alguma parte do bairro
onde encontramos aquele gato
ensopado
de chuva
e como ele adorava aquela infiltração

eu você o sofá a mesa de centro
o jarro de flores
a cozinha
os talheres
um pedaço de faca
é possível talhar
um banco na frente de casa
um tapete um olho mágico
você regando as flores
escolhendo as cores
do jarro
e onde comprar
neste bairro
chuvoso
eu você o gato
sob a colcha de retalhos
observando aquela infiltração.

Com um pedaço de faca é possível talhar
um vaso um ralo o centro metálico
da pia
toda a fiação da casa
girando em torno do gato
girando em torno do ralo
girando em torno daquela infiltração.

Com um pedaço de faca
é um possível talhar uma linha
na superfície do tempo
eu você o gato e a gravidade
atuando
na cor desbotada das árvores
na cor desbotada das
vidas que correm agora
pela casa
sob a velha
infiltração.

Com um pedaço de faca
é possível talhar
uma casa é possível talhar
um furo no teto
eu você um espelho no porta-retrato
enquanto
a infiltração
nos penetra o corpo
e nos
desmancha
o rosto
nos
levando
gradualmente
para
algum
lugar
da
casa
onde
nunca
foi
preciso
um
pedaço
de faca.

Felipe Andrade, junho 2016.

 

…………………….

Um pensamento sobre “Faca

  1. Oração

    Primeiro veio o silêncio
    Depois uns ruídos de igreja
    E alguém disse amém
    Para outro alguém

    Bem depois chegaram
    As subordinadas e as
    Insubordinadas
    Atadas em um nó
    Dentro da cabeça
    De alguém

    Adiante vieram
    As coordenadas, finas
    E dançamos até se
    Cansar em nós mesmos
    E o sujeito soltou o verbo
    Estava triste e interrogativo

    Parados em frente ao futuro
    Mãos em forma de oração
    Rezavam para não chover
    Suas frases eram passivas
    Mas riam de tudo
    Como meninos que riem
    Por nada.

    Milton Oliveira
    Novembro/2016

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