Vivência (1973) é o álbum de estreia do grupo Banda de Pau e Corda, criado em 1972 no Recife, por iniciativa do compositor e estudioso da cultura popular Roberto Andrade e com grande influência do Quinteto Violado, outro grupo recifense que nascera dois anos antes, ambos com a proposta de divulgar e valorizar o folclore e a sonoridade do nordeste, principalmente pernambucana.
Composta originalmente pelos irmãos Roberto, Waltinho e Sérgio Andrade, a Banda construiu desde o início uma sonoridade própria, repleta de uma poética densa e reflexiva que retrata a realidade do agreste. Em Vivência, além da união entre música e poesia, destaca-se especialmente o diálogo entre a flauta e a viola, elemento central dos arranjos e um grande diferencial do grupo recém formado. Ao longo do disco, as melodias se entrelaçam aos ritmos da cultura popular, criando uma atmosfera que alterna contemplação e celebração, como nas faixas Recado e Lampião.
Produzido pela RCA Victor em São Paulo, o álbum apresenta 10 composições autorais dos irmãos Andrade e termina com a regravação da tradicional Voltei Recife, de Luiz Bandeira. O projeto contou com direção musical de José Milton e arranjos da própria Banda. A capa estampa a pintura Bumba-meu-boi, de Lula Cardoso Ayres, enquanto a contracapa contém uma apresentação do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre e uma montagem fotográfica ao fundo, em que os integrantes do grupo aparecem reunidos sobre a água, como uma canoa.

O disco teve boa repercussão e rendeu uma série de shows no mesmo ano, passando por todas as capitais do Nordeste. Com um repertório apurado e uma atuação consistente no cenário cultural, o grupo se firmou ao longo das décadas seguintes com uma dezena de álbuns lançados, passando por diferentes formações sem perder a coerência.
Após um hiato de quase 30 anos, a Banda retornou aos estúdios apenas com Sergio Andrade remanescente da formação original, mas com a mesma força estética e poética de sempre. Em parceria com a gravadora Biscoito Fino, lançaram Missão de Cantador (2021), com capa de Elifas Andreato, e Entre a Flor e a Cruz (2023), em celebração aos 50 anos da fundação do grupo e seu compromisso duradouro e genuíno de valorizar a música regional com uma abordagem criativa e autêntica.
- Vivência (Roberto Andrade/Waltinho)
- Pai De Barro (Paulo Fernando/Roberto Andrade)
- Recado (Waltinho/Sérgio Andrade)
- Lampião (Roberto Andrade/Waltinho)
- Alegoria (Roberto Andrade/Waltinho)
- Banco de Feira (Waltinho/Roberto Andrade)
- Vida de Vaqueiro (Waltinho/Roberto Andrade)
- Só De Brincadeira (Waltinho)
- A Seca Chegou (Waltinho/Sérgio Andrade)
- Ciranda Do Mar (Waltinho/Roberto Andrade)
- Voltei Recife (Luiz Bandeira)
A poesia escrita no Brasil nasceu no Nordeste: em Pernambuco. Foi isto no século XVI. O poeta, Bento Teixeira. Talvez tocasse viola, como os jovens que morreram em Alcacer-Kibir.
Mas mesmo antes da escrita, deve ter aqui madrugado a poesia cantada. As que primeiro cantou no Brasil o azul de umas águas, o verde de umas matas, o moreno de umas mulheres diferentes das européias.
De modo que o novo e admirável grupo de jovens do Recife que cantam sua poesia acompanhada de músicas – os jovens da “Banda de Pau e Corda” – cantam pelo Nordeste de sempre. É novo e é de sempre.
De Waltinho, quase um menino, são quase todas as músicas aqui reunidas. Outro quase menino é o Paulino, contra-baixo. Roberto Andrade é o letrista de quase todas as músicas do disco. Sergio Andrade é também letrista e ritmista. José Matias, flautista e Paulo Fernando, violeiro.
Todo um conjunto marcado pelo amor às águas e às mulheres do Nordeste, sem que sejam esquecidos Vitalinos e Caruarus tão das terras menos úmidas, mas também tão nordestinas, desta parte do Brasil. Um Brasil, este – o Nordeste – de onde tem brotado tanta música junto com tanta poesia.
Gilberto Freyre