pensamento

O maracá

Um aprendizado e observações de quem o contempla, e começa a entendê-lo

O maracá é um instrumento simples, mas mágico. São muitos os mistérios da música, e mistérios são apenas coisas que não sabemos, mas podemos intuir que existem, no silêncio. Ele não se manifesta de uma vez para as pessoas, o instrumento. E nisso está de acordo com todas as sabedorias, porque todas elas têm caminhos, e há a fase da ignorância, pela qual todos têm que selar a sua passagem, caso contrário não há conhecimento, e nisso se encontra também a origem mísitica nas noções de custo e forma, e mesmo de beleza. O som se revelou para mim fora das escolas, de todas as escolas especialmente em momentos que nada, nem ninguém estava presente, somente os seus significados e essências se movimentavam. A escola pede a não escola e o leitor aquele que não lê, e o som pede o quintal, o silêncio natural, para ser compreendido. Uma expressão misteriosa, porque todos temos o quintal dentro de nós, um mundo onde se movem as percepções, dos seres e das coisas, a mata. Lá se encontram também seres que não leem e se salvam porque não leem, como na Amazônia, porque há somente e na maioria não livros para ler, em parte isso é verdade… São os mundos dos analfabetos; a minha avó era analfabeta, e eu estudei inglês, mas aprendo com quem não estudou nem a sua própria língua. São Francisco dizia que tudo está aberto para aqueles que pudessem ler a Natureza, como um livro. É verdade. Ele vendia as Bíblias que tinha para ajudar as pessoas necessitadas com o dinheiro. O maracá é um dos mais simples instrumentos, e o seu som é produzido por sementes, esse é o começo de tudo. A semente. Um pequeno bulbo de madeira em forma esférica com sementes dentro. Com os índios ikolens com os quais convivi por muito tempo e que são meus amigos pude ver e entender pelos começos o que é o maracá. Mas ele não está desvendado. Seu som “limpa” o ar e prepara para a música que vai ser cantada e contemplada. Algum tempo depois em que estive com os índios ikolens resolvi adentrar a mata alta noite, às beiras do rio Amazonas, exatamente onde ele começa. Havia uma lagoa no meio da mata, longe de uma caminhada na selva, que eu queria visitar para ver as vitórias-régias à noite resplandecendo. Tomava-se uma canoa pelo rio, e depois de um tempo se atracava nas margens. Em seguida era preciso andar numa trilheira no meio da mata. Alta noite. Desci da canoa com o prático Carlitos, e começamos a andar. Ele é do Amazonas, de pai e mãe, mas começou a ficar perturbado na mata. Não sei por que racionalmente mas tinha levado o meu maracá. Ele contava histórias que eu sentiam que não cabiam ali. Tirei o meu maracá e comecei a tocar andando no meio da mata, tocava e caminhava, como num rito. O Carlitos se acalmou e mesmo a floresta, naquela hora um dossel imenso e verde, que refletia a luz das nossas lanternas, em plena mata. Eram duas horas da manhã no meio da Amazônia. Percebi que o som do maracá “limpava” a energia da floresta também, e nesse momento provei o gosto e a função do instrumento no meio da imensidão amazônica. Esse é o sentido desse simples e belíssimo instrumento. O Daime, que vem da Amazônia, o adotou e o compreendeu. Muito tempo depois no rio, quando conheci o povo do Daime pela primeira vez, pude falar do maracá, e ver que as suas canções precisavam dele, como eu precisei dele, no meio da Floresta Amazônica. Alta noite na floresta. Ali ecoavam os sons das sementes, como no início do mundo.

Guilherme Vaz

 

ΔΔΔ

Email de Guilherme Vaz enviado para Vera Terra em fevereiro de 2009

Publicado em Guilherme Vaz – uma fração do infinito,
curadoria Franz Manata. Pgs 287-288, EXST: Rio de Janeiro, 2016.

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