pensamento

Devir outro

Capítulo 5: A iniciação

Se não bebermos yãkoana com aplicação e não cantarmos para eles, os xapiri se recusam a vir se instalar junto de nós. Nunca chegam perto das pessoas comuns, que se contentam em viver deitadas em suas redes. Consideram-nas sujas e acham que são incapazes de ouvir suas vozes. Se um iniciando chamar os espíritos à toa, dirão que tem gosto amargo, e irão zombar de sua voz de fantasma. Será chamado de preguiçoso e censurado por não fazê-los dançar. Exasperados, eles acabarão por cuspir nele e cobri-lo de cinzas, antes de fugirem para longe. Quando isso acontece com um jovem aprendiz xamã, ele começa a definhar. Fica magro e feio logo em seguida. Em vez de virar espírito, corre o risco de morrer.

A pessoa que quer se tornar xamã também não deve deixar seus olhos se moverem demais de um lado para outro, observando os habitantes da casa ou mesmo olhando para o chão. Por isso eu me esforçava para manter o olhar sempre voltado para o céu. Sem isso, eu jamais teria podido ver os espíritos descerem. Meus olhos eram os de um fantasma e eu já não via nada à minha volta. Minha visão e meu pensamento estavam concentrados nos xapiri. E assim, com o passar do tempo, eles acabaram se manifestando. Finalmente pude vê-los vindo em minha direção das alturas do céu, numa imensa luminosidade pulsante. Desciam muito devagar e se juntavam, mais e mais numerosos, numa chuva ofuscante de penugem branca. A vibração poderosa de seus cantos ia se aproximando aos poucos: “Arerererere!“. Puseram-se a turbilhonar ali mesmo nos ares, como uma multidão de colibris. Fui aos poucos conseguindo distinguir seus ornamentos resplandecentes: braçadeiras de crista de mutum e peitos de jacamim, faixas de rabo de macaco cuxiú-negro e cabelos recobertos de penugem de gavião e de urubu-rei. Seus dentes imaculados cintilavam e sua pele brilhava de desenhos de urucum vermelho e preto. Giravam em redor de mim, dançando e lançando gritos exaltados. A partir desse instante, meu sono fugiu. Eu estava deitado na praça central de nossa casa e a floresta à minha volta havia desaparecido. Só fazia contemplar a dança dos xapiri.

Eles me fizeram outro para que eu não minta.

Quiseram mesmo me fazer virar espírito.

Fizeram desaparecer a floresta e a substituíram por uma terra coberta de penugem branca. Deitaram minha imagem no peito do céu, no centro de seu espelho. Era apavorante, mas meu medo se dissipou logo, pois tudo o que eu via era magnífico. Apesar da distância, eu distinguia com nitidez os xapiri e seus adornos coloridos e brilhantes. Olhavam todos para mim. A sua tropa descia dos confins do céu, carregada por milhares de trilhas reluzentes que ondulavam nos ares. Eram tão velozes quanto aviões, e produziam uma ventania poderosa. Aquela distância imensa não era nada para eles. Afluíam sem parar, inumeráveis, vindo de todas as direções, como imagens de televisão. Depois iam pouco a pouco se juntando diante de mim, como convidados a uma festa reahu amontoados na porta da casa de seus anfitriões, ansiosos para fazer sua dança de apresentação.

Seus caminhos, até então quase imperceptíveis, iam ficando cada vez mais nítidos e brilhantes. Finos como teias de aranha, flutuavam cintilando nos ares e vinham se prender junto de mim, um após o outro. Assim é. Os xapiri sempre são precedidos pelas imagens de seus caminhos. Eles vão se colando, um por um, na borda do espelho em que o jovem xamã está deitado. Fixam-se ali como as imagens de fotografia dos brancos. Deve-se então ficar esticado bem reto, para que os caminhos não quebrem e os espíritos possam chegar até nós. Depois, usam nossos braços e pernas como caminhos, nos quais nossos cotovelos e joelhos são clareiras, onde param para descansar. Por fim, entram pela boca para dentro do peito, que é a casa na qual farão sua dança de apresentação.

Capítulo 6: Casas de espíritos

Nunca é bom para um xamã descuidar de sua casa de espíritos. Quando fica deteriorada e enegrecida pela fumaça, ou o chão em volta dela fica coberto de cipós de cabaça pora axi, como o local de uma casa abandonada, ele pode ficar muito doente. Alguns de nossos maiores chegaram a morrer por causa desse abandono. Sabemos disso e estamos atentos. A morte sabe se aproximar com prontidão do xamã que deixa a sua casa de espíritos envelhecer sem motivo. Por isso, ele deve se dedicar o tempo todo a cuidar de sua manutenção. Para manter a boa saúde, deve renovar seu teto de folhar e limpar bem sua clareira quando é preciso. Mas isso não é tudo. É também necessário que ele dê de beber yãkoana com frequência aos espíritos que a habitam. Caso contrário, eles fugirão e sua moradia, uma vez abandonada, envelhecerá por si só, vazia e silenciosa. Os xapiri não permanecem na sua casa se seu pai não cuidar bem deles. Não basta chamá-los e deixar que se instalem sem se preocupar com eles. Se são abandonados sem comer, se não puderem dar a ouvir seus cantos ou forem incomodados pelo barulho, pelo cheiro de poder e de fumaça, não demoram a partir, deixando para trás apenas redes vazias. Assim é. Deve-se também cuidar de fazer descer e dançar os xapiri jovens depois dos mais velhos, que no começo, quando de nossa iniciação, foram os primeiros a chegar. Assim o xamã também evita envelhecer depressa demais.

No começo, como outros, eu pensava que os xapiri moravam no peito dos xamãs. Mas estava errado, não é verdade. Suas casas não podem se situar tão perto da terra, ao alcance de nossa fumaça e de nossos fedores! Ficam noutro lugar, penduradas bem alto no peito do céu. Por isso os xapiri podem contemplar a floresta toda, por maior que seja. Das alturas em que estão, nada escapa a seus olhos, nem nos confins da terra e do céu. Na verdade, são as imagens dele, e as de seus espelhos, que moram no peito dos xamãs. Assim é. Uma casa de espíritos nada se assemelha a uma casa comum. Seus esteios imitam o interior do peito do xamã, o pai dos xapiri. As clavículas de seu torso são as vigas que sustentam o círculo do teto. Seus quadris são a base dos postes que a assentam no chão. Sua boca e garganta são a porta principal. Seus braços e pernas são os caminhos que conduzem até ela. Seus joelhos e cotovelos são clareiras-espelhos, onde os espíritos fazem uma parada antes de entrar.

 

Davi Kopenawa em “A Queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami”
Com notas e organização de Bruce Albert. Companhia das Letras, São Paulo. 2015

 

 

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