Linguagem e computadores inteligentes: entrevista com Clarisse Sieckenius de Souza

Linguagem e computadores inteligentes

entrevista com Clarisse Sieckenius de Souza

 

Os computadores, ao contrário das pessoas, não têm a capacidade de imaginar (ou de “antecipar”) coisas, mas apenas de “prevê-las”. A diferença entre previsão e antecipação aparece quando vemos que previsões são feitas com base em modelos estatísticos ou causais, por exemplo, enquanto que o que imaginamos ou “antecipamos”, vem, em sua maior parte, das nossas emoções (desejos e medos), intuições e ponto de observação da realidade, enriquecidos (embora não necessariamente) por probabilidades e causalidades que conhecemos. Ou seja, a nossa linguagem humana nos permite ‘inventar realidades’ e estabelecer, com a própria linguagem, regras e convenções para interpretá-las, reagir a elas, e usá-las. Computacionalmente, esta capacidade é, na melhor das hipóteses, muitíssimo limitada.
 
Como as linguagens computacionais têm vocabulário, gramática e regras de interpretação sempre estipuladas e conhecidas, a tradução entre elas é possível. Em alguns casos até muito fácil fazer isto, inclusive mecanicamente. Pela mesma razão também é relativamente fácil traduzir um texto em linguagem de computador para uma linguagem humana. O que não é fácil (e, até onde se sabe, nem possível) é a tradução de uma língua humana para uma linguagem computacional. Continue reading »

Leia Mais

Poemas para o nosso tempo II

Eu-Mulher

por Conceição Evaristo

 

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo

Continue reading »

Linguagem e computadores inteligentes: entrevista com Clarisse Sieckenius de Souza

Linguagem e computadores inteligentes

entrevista com Clarisse Sieckenius de Souza

 

Os computadores, ao contrário das pessoas, não têm a capacidade de imaginar (ou de “antecipar”) coisas, mas apenas de “prevê-las”. A diferença entre previsão e antecipação aparece quando vemos que previsões são feitas com base em modelos estatísticos ou causais, por exemplo, enquanto que o que imaginamos ou “antecipamos”, vem, em sua maior parte, das nossas emoções (desejos e medos), intuições e ponto de observação da realidade, enriquecidos (embora não necessariamente) por probabilidades e causalidades que conhecemos. Ou seja, a nossa linguagem humana nos permite ‘inventar realidades’ e estabelecer, com a própria linguagem, regras e convenções para interpretá-las, reagir a elas, e usá-las. Computacionalmente, esta capacidade é, na melhor das hipóteses, muitíssimo limitada.
 
Como as linguagens computacionais têm vocabulário, gramática e regras de interpretação sempre estipuladas e conhecidas, a tradução entre elas é possível. Em alguns casos até muito fácil fazer isto, inclusive mecanicamente. Pela mesma razão também é relativamente fácil traduzir um texto em linguagem de computador para uma linguagem humana. O que não é fácil (e, até onde se sabe, nem possível) é a tradução de uma língua humana para uma linguagem computacional. Continue reading »

Leia Mais

Poemas para o nosso tempo II

Eu-Mulher

por Conceição Evaristo

 

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo

Continue reading »

Fragmentos

Poéticas Sincrônicas

Haroldo de Campos

 
Todas as idades são contemporâneas. O futuro começa a se agitar no espírito de alguns poucos. Isto é especialmente verdadeiro no caso da literatura, onde o tempo real independe do aparente, e onde muitos mortos são contemporâneos de nossos netos, enquanto que muitos de nossos contemporâneos parece que já se reuniram no seio de Abraão ou nalgum receptáculo mais adequado. Necessitamos de uma ciência da literatura que pese Teócrito e Yeats numa mesma balança, e que julgue os mortos enfadonhos tão inexoravelmente como os enfadonhos escritores de hoje, e que, com equidade, louve a beleza sem referência a almanaques.

Fragmentos

A cultura neste país evoluiria portanto por aliança, devoração e contágio, e não por linear filiação, o que contraria certas interpretações psicanalíticas que ao tomarem o modelo de subjetivação europeu, a-criticamente, como padrão, insistem na ideia de que nos faltaria uma sólida filiação, um pai fundador decente. O mapa destas alianças e contágios é um rizoma infinito que muda de natureza e rumo ao sabor das mestiçarias que se fazem na grande usina de nossa antropofagia cultural. Assumir e reafirmar a ética antropofágica como legado da tradição brasileira, é descartar qualquer ideia de identidade nacional

Fragmentos

O instante de invenção da obra não apenas não se repete, como nunca se aprende. Todo instante se improvisa num risco e se arrisca numa improvisação. O instante de risco e improvisação se propõe nas experiências, nas tensões, nos impulsos de um traço, de um movimento, de um som, de uma presença, com todas as inseguranças, hesitações e ansiedades, mas também com toda a ousadia, aventura e o fascínio da criação de uma obra.

Fragmentos

O universo não teve um instante único de criação, e sim, teve uma fase anterior colapsante (o universo colapsou), até atingir um raio mínimo, e aí, depois, começou a fase atual de expansão. Quer dizer, o universo se estenderia até o passado infinito, sem nenhum ponto singular que você pudesse identificar como sendo a origem, mas seria um raio mínimo de volume, de totalidade do que a gente chama de espaço e que não se identificaria com um ponto, quer dizer, um ente geométrico.

Fragmentos

Espaços híbridos são espaços constituídos por olhares híbridos, olhares onde o dentro já é fora, uma projeção de um eu sobre o outro, e olhares onde o fora já está dentro, introjeção do outro sobre um eu. É uma mistura entrecortada pela impossibilidade da mistura; um hibridismo entrecortado tanto pela dor como pela alegria da não integração. Essa mistura que não pega, esse hibridismo que não integra é como um vidro, o material mais concreto de uma integração que separa, de uma contiguidade que corta.

Fragmentos

“Eu não tenho velhos livros como eles, nos quais estão desenhadas as histórias dos meus antepassados. As palavras dos xapiri estão gravadas no meu pensamento, no mais fundo de mim. São as palavras de Omama. São muito antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Desde sempre, elas vêm protegendo a floresta e seus habitantes. Agora é minha vez de possuí-las. Mais tarde, elas entrarão na mente de meus filhos e genros, e depois, na dos filhos e genros deles. Então será a vez deles de fazê-las novas. Isso vai continuar pelos tempos afora, para sempre.”

Fragmentos

“Estamos dizendo e afirmando que existem sinais de escrita entre os animais e que os seres denominados “árvores” detêm um tipo de conhecimento desconhecido para o homem. Estamos dizendo em todos os sentidos que todos os seres vivos possuem linguagem e mesmo os minerais a possuem. Em primeiro lugar, e mais importante, ela combate o antropocentrismo letal presente na cultura e na arte ocidental, onde cegos conduzem cegos por ruas de tráfego. Existem sinais claros de arte em todos os seres vivos, inclusive nos translúcidos. Estamos propondo o deslitígio do universo. Estamos propondo a convivência de todas as civilizações do universo, conhecidas ou não.

WEC thumbnail

Whole Earth Catalog

O mais importante documento da contracultura norteamericana, publicado entre 1968 e 1974. O Catálogo funcionou como um fórum para milhares de comunidades autônomas que surgiam pelos Estados Unidos. Ele articulou conhecimentos tradicionais indígenas, religiões e práticas orientais, substâncias alucinógenas junto com agricultura orgânica, teorias da cibernética e computadores. O WEC apostou nas tecnologias enquanto ferramentas pessoais potencialmente libertárias para novos modos de existência. Seu impacto se deu tanto movimento ambientalista, ao subverter as tecnologias da Guerra Fria e divulgar pela primeira vez na história uma fotografia da Terra; quanto no desenvolvimento de computadores pessoais e da Internet.

Rizoma thumbnail

Rizoma

“Agora está acionada a máquina de conceitos do Rizoma”: Afrofuturismo, recombinação, desbunde, panamérica, mutação, art&fato, câmera-olho, conspirologia, e-spaço, esquizofonia, gibi, intervenção, hierografia, lisergia, neuropolítica, ocultura, potlatch e anarquitextura são as seções as quais o Rizoma.net se dedicou entre 2002 e 2009. Projeto editorial coordenado por Ricardo Rosas, importante figura na contracultura digital brasileira, o Rizoma.net publicou ensaios, entrevistas, poemas e outros textos traduzidos, coletados e transcritos sem as normas rígidas dos direitos autorais. Rosas faleceu em 2007, deixando no site uma grande biblioteca digital organizada postumamente em 19 edições.

Navilouca thumbnail

NAVILOUCA

no brasil país sem memória mataborrão das diluições muito se passou/ depois da fenomenal década de 50 na 60: nada foi absorvido

Assim lembra Helio Oiticica em um fragmento de Experimentar o Experimental, uma de suas notáveis participações na NAVILOUCA. Também podemos dizer hoje em dia que muito do que foi feito nas décadas de 1960 e 1970 por artistas como Augusto de Campos, Caetano Veloso, Torquato Neto, Waly Salomão, Décio Pignatari, Helena Ignez, Lygia Clark e Haroldo de Campos, ainda não foi absorvido. A navalha continua afiada.

Confira também

Confira também

pequena história mental nº42

meu segredo é não reclamar de nada é seguir a vida como a vida é os outros que me perdoem, as mulas que me abençoem são nossas as nossas dores eu que não sei dizer se aquilo que vi se aquilo que sei não sei mais o que dizer se aquilo que não vi nem … Continue reading »

Leia Mais

Breve história da cri-(a)-ção do Mundo – por Priscila Alba

  Nada-menino, uma vez era. Nada, na medida em que passava e engrandecia, sentiu-se sozinho, quis conversar. Quis conversar, mas percebeu que ele, Nada, sozinho estava. Indagou: – Por quê esta solidão? Nada pensou e, ao pensar, concluiu: – Se me chamo Nada e me sinto sozinho, procuro alguém e não acho… Creio que, outro … Continue reading »

Leia Mais

Variações sobre o Matriarcado

Quero, com as linhas seguintes, atar num tecido só, uma série de retalhos. Descrições, que são tão óbvias, mas nunca alinhadas para que mostrem, enfim, a figura que parecem indicar. Esse eco de forma, que eu escuto, na tonalidade de cada fragmento – sempre incompleto – esse ressoar oculto, a que me falta saber dar … Continue reading »

Leia Mais

Sonho de uma flauta – Hermann Hesse

– Toma – disse meu pai, e entregou-me uma pequena flauta de osso – leva isso e não esqueças teu velho pai, quando alegrares com tua música as pessoas nas terras distantes. Já é tempo de agora veres o mundo e aprenderes alguma coisa. Mandei fazer a flauta para ti, porque não sabes nenhum outro … Continue reading »

Leia Mais

Rizoma: Teste do Estilhaço

Pode-se dizer que samplear, fazer loops, re-montar tanto materiais encontrados quanto sons site-specific selecionados, por precisão ou relevância, para as implicações de mensagem de uma peça de música, ou uma exploração transmídia, é um fenômeno TodAlquímico, mesmo Mágiko1. Não importando quão curto, ou aparentemente irreconhecível, um sampler deve estar na percepção linear do TEMPO, ele … Continue reading »

Leia Mais

Aconteceu ontem mesmo – conto de Irene Baltazar

uns uns, os que vieram, e trouxeram roupa comida agasalho. e diziam e comemoravam e andavam às custas dos outros, os que vieram, e depois disseram que não vinham mais. não se soube mais disso ou daquilo disso ou daquilo, foi-se, como se foram os mancos, os outros e os que vieram depois. de início todos quiseram participar, chegaram … Continue reading »

Leia Mais

Burroughs – Os Limites do Controle

I Existe um crescente interesse por novas técnicas de controle da mente. Dizem que Sirhan Sirhan foi objeto de absorção pós-hipnótica; ele se senta tremendo violentamente na mesa de vapor da cozinha do Hotel Ambassador, em Los Angeles, enquanto a mulher ainda não identificada segurava-o e sussurrava em seu ouvido. Alega-se que as técnicas de … Continue reading »

Leia Mais

Fuck off Google – Comitê Invisível

1. NÃO HÁ “REVOLUÇÕES FACEBOOK”, MAS UMA NOVA CIÊNCIA DE GOVERNO, A CIBERNÉTICA Poucos conhecem a genealogia e, no entanto, vale a pena conhecê-la: o Twitter provém de um programa denominado TXTMob, inventado por ativistas norte-americanos para, através do celular, se organizarem durante as manifestações contra a convenção nacional do Partido Republicano de 2004. Esse … Continue reading »

Leia Mais

Por uma mídia menor – Félix Guattari

Seria importante tentar ampliar a noção habitual de mídia. A noção de mídia, enquanto exposição de produtos, como numa espécie de supermercado, é algo que determina não só as formas de consumo da literatura, da arte, etc., mas também modeliza as formas de produção artística e literária. Consideremos Kafka, por exemplo. É muito claro que … Continue reading »

Leia Mais

Editoras Independentes e Trabalho Artístico

Mercado e economia editorial A análise das configurações das editoras independentes relacionam-se às transformações promovidas pelas tecnologias da informação e da comunicação, assim como são parte de um contexto mais amplo que informa o movimento de legitimação, proeminência e conveniência da cultura e do entretenimento dentro da cadeia produtiva recente, enquanto importante esfera econômica e … Continue reading »

Leia Mais