tradução

O processo criador – tradução de Cecília Schuback para texto de Asger Jorn

Sem nome, 1940

Apresentação

Confinados, não paramos para pensar em parar de pensar no confinamento. Confinados, nossa circunvolução é a neurose narcísica do mundo. Mas lembremos que o con-finamento nunca deixa de ter um com-um, uma com-unidade. Todos têm a mesma neurose em comum: confinamento e isolamento de cada um, individualmente. Cada um está na mesma situação igual e com todos os outros. Mesmo se o mundo parece ter parado, nosso girar em torno de nós, a neurose do mundo continua pertencendo ao mundo. É a pausa, o romper, que o mundano está vivendo para ser o mais mundano que poderia ser – monótono, chato, repetitivo, devagar. Tudo em um, no retardo.

O pandêmico é uma abertura para a revolução silenciosa, a revolução desse mesmo retardar e acalmar do mundo. O encontro de uma revolução para quebrar com as formas virtuais que nos deram um mundo formalista – de imagens, aparências, superficialidade tão fingida e falsa, tão formalmente formal. Progresso pela demora, pelo retardo, parece um impasse. É possível quebrar com a formalidade organizacional e des-institucional de “empregos” amparada por empresas? Tantos perdendo o seu pão porque uma liberdade econômica radical e extrema que se diz ser nova, mas é de fato a mais conservadora, não consegue se manter quando uma neurose como essa finalmente contamina tudo e todos, mais do que o vírus em si.

É uma neurose da classe alta, dos que não conseguiram lidar com o fato de que eles também carregam doenças, que eles são a prova de uma transmissão destruidora e que fazem mal aos outros. Uma classe alta que provavelmente poderia, sem problema, lidar com o fato de ativamente assassinar com a mão, mas nunca de passivamente contaminar outra pessoa. Este vírus mostra claramente a superfluidez luxuosa e consumidora do crédito que infecta tudo. É a infecção do enfado que está colocando em dia uma infecção viral. O que mudou de fato? Não mantemos o contato, todos nós? O que importa- o mundo está uniforme. O mundo vestido no uniforme de uma coro(n)a somente para sentar e ficar no seu próprio tédio, passando o tempo até alguma coisa acontecer.

Pare antes de apertar o botão de pausa, depois demore.
É o nosso progresso de quebrar barreiras de nós próprios.
Somos os muros que nos protegem de nós mesmos. Não é um despautério?

Sem nome, 1940

Chama criação, precisamos de criação. Não o novo, mas o que poderia ser criado deveria ser valorizado. Valorize a força de criação latente, o ainda não acontecido, mas sempre acontecendo o tempo inteiro em todo lugar. É a nossa criatividade des-ativa que se energiza para conseguirmos esboçar a linha das montanhas caindo e da boca devorante do mar. É a linha esboçante que coloca os nossos pés na terra até os eléctrons explodirem e quebrarem.

Asger Jorn, o artista informal da Dinamarca que trabalhou com o movimento Cobra e com os situacionistas, escreveu em 1939 esse pequeno texto chamado Processo criador para o catálogo da exposição Linien (A linha), realizada por uma associação de alunos. Se trata da questão de criar uma imagem que é um processo para o desconhecido, para o sem-direção, ao sem-sentido. Coisas acontecem nas nossas profundezas mais profundas sem o sabermos, e nos surpreende como o já abalado só para abalar outra vez. A cicatrização – o processo de inteirar o que está inato e essencialmente abalado – é só o ponto de ruptura contínuo, uma vez e outra e outra e outra…

O processo criador / Skabelseprocessen

Criar uma imagem é um processo de rumo e resultado desconhecidos. Para mim é sempre um mistério alegre como fiz um dos meus desenhos. Olhar para o resultado final me deixa cheio de assombro.

At skabe et billede er en proces med ukendt forløb og resultat. Det er mig altid en glade, hvordan jag har lavet et af mine billeder. At se paa det endelige resultat fylder mig med undren.

Sem nome, 1940

Existem valores que se recebem sem que se dê conta daqueles que penetram nas profundezas da mente, as quais, como cacos de um espelho mágico, quer alguém queira ou não, abrem caminho para o coração de alguém. Negar esses valores é violentar a si mesmo, é construir muros e inibições contra o crescimento da mente, mas aceitá-los e torná-los conscientes é trabalho e luta, é a afirmação da vida e a riqueza de poder e querer receber.

Der findes værdier man modtager uden at være sig det bevidst, som trænger ind i det dybeste af ens sind, der som splinter af troldspejlet, om man vil eller ej, arbejder sig langt ind i hjertet paa en. At fornægte sig disse værdier er at gøre vold paa sig selv, er at bygge mure og hæmninger om sindets vækst, men at acceptere dem og gøre sig dem bevidst er arbejde og kamp, det er livsbekræftelsen og rigdommen ved at kunne og turde modtage.

Sem nome, 1942

Olhe para a minha imagem e adicione os novos valores, assim como adiciono novos valores cada vez que olho para ela. Crie uma nova imagem totalmente sua. Somos todos mais ou menos inibidos, mas o verdadeiro escravo é quem se liga e se acorrenta.

Se paa mit billede og tillføj det nye værdier, ligesom jag føjer nye værdier till det, hver gang jeg ser paa det. Byg et nyt billede op, der helt og holdent er dit eget. Vi er alle mere eller mindre hæmmede, men den virkelige slave er ham, der selv tager lænker paa.

[Da página do catálogo à exposição Linien (A Linha) na Associação dos alunos, 1 dezembro 1939]
Asger Jorn (assinado Asger Jørgensen)

Sem nome, 1940

Apresentação e tradução de Cecília Schuback, abril de 2020

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *