poesia / USINA impressa

para pamella

o poema estica as mãos pro alto
pra alcançar as frutas no pé
como quando eu tinha dez
e minha irmã oito
nós adiávamos a solução do mistério
da morte dos animais
da evaporação da água
do cozimento da comida

e tremíamos dentro
da luz incontrolável
do segredo

e eu estou
quase tão escura como aquele chão
tingido de amoras
que pisávamos
por diversão

e que depois consumíamos
em geléia
(o intervalo religioso
no meio dos acontecimentos)

eu estou escura de novo
mais uma vez
eu estou de volta
com a minha bruxaria
como quando eu e minha irmã
mastigávamos as folhas roxas
do jardim pela promessa
do poder
nós passávamos as tardes
com o gosto amargo na boca
e entrávamos na casinha de madeira
misturando terra e água
e tínhamos o mundo

Pollyana Quintella, setembro 2020.

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