poesia

Alguns poemas

a fome pariu a navalha.

a fome e a sede. a fome mais que a sede. ainda que a sede mais que a fome. quantos os nomes da fome. um homem sentado na beira da calçada. a cara. a cara feia da fome. cara feia pra mim é fome. as crianças chupam pirulitos rosas. a avó olha a criança: cara feia pra mim é fome. a avó sabe da fome seca de minas gerais, não soubesse não dizia. os donos da fome à mandam pra outras barrigas. longe. cada vez mais longe. a fome é uma batata quente. uma batata que não nasce do chão. a fome é dona de uma boca que range e balbucia e rumina. saliva a boca do homem na calçada quente de niterói. no limite da sede e da fome. grãos de arroz e os dedos. a fome é dentro e fora um corte bruto. quanta a fome. sabe? sempre foi a fome. a sede. o limite. bruto. da faca. sempre foi a fome. a sede.

***

nunca estve certa disso


fome manca maneja estômago
gritante a madrugada
estremece peito sempre a mesma
história 
peço certeza
me dão um peqno grão
e apenas
um miúdo grão
sinto saudades
não lembro mais de quem 

***

sem internet na cidade capital do sol. com chuva. há dias. organizar os pensamentos questão de v1d4 ou morte. sob risco. apalpar as urgências, mesmo criá-las novas e de novo. a cabeça debaixo d`água numa piscina azul que reluta aceitar a condição de bacia e transborda. as bordas. mais de 1 minuto debaixo dágua tentativa e erro. submersão abrutalhada respiração feita do parto escute – o som é iletrável – puxe o ar com força e susto-agora. impressão de nascer de novo sob o contorno de outras águas. e parir a mãe. parida do peito de angústia. parir a mãe. de si – entregar o coração – não negar que de resto apenas as pernas cambaleiam. para cima e para baixo. cartas desinteressadas. no peito abismo em ser mulher e não saber pra quem. olhar carinho. sem que fira. embaralho letras e imagens e sequências. digestão. recordo o ultimo esquecimento de semana passada. os olhos fracos. os dedos tremem. não me chamaram pelo nome. quis acertar de primeira – errei. aspirava fins dignos. sussurrei : merecemos  

***

2018 foi um ano nebuloso
nebuloso
o carro na estrada enquanto \\\chove//// os olhos 
arregalados 
gotas na parede
respiração quente
as curvas ///  sono
eu sonho no caminho
separo as partes
planejo o que deve ser feito
m-e-c-a-n-icamente 
tento 
estruturar o corpo
a areia desfaz o castelo
arames mostram os ossos
esqueleto
que estrutura a maresia
não corrói 
?
nem o tempo
só o tempo
estamos a beira do acaso
confiantes
eu não diria
ainda estamos
esqueleticamente
expostos ao sal/ 
sem pele
o sol não queima
mormaço 
sem reflexo não existe um 
e outro 
abismo é cair no outro
 
eu tentei permanentemente costurar os vazios
o arame já está ferrugem 
erguendo-se sobre a praia
encarando a água de frente
: permanece
desapego também é ficar 
sabendo que vai 
o corpo envelhece ainda que os pés
fincados 
ou
boiamos com uma corda presa aos mesmos pés
não ir tão longe 
nem toda coragem 
nem todo medo 
o que segura o desejo de ficar
a partida // anuncio da presença
o resto do gesto
rastreei a partida olhei as grandes estruturas 
o escombro é bonito a sombra 
pode ser o fim pode ser o inicio construção 
os limites são nebulosos.


***

es to u vi va a
es t to t u vi v a v a
e es t tou r u o vi va a v i v v v a
es to oo u o vi va v iv va
e s t o u o vi v v a civi va v vi va
viv a

Gabriela Perigo, junho 2019

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