pensamento

Guilherme Vaz

30742374_1771197476270287_4096748997601918976_n

***

“Estamos dizendo e afirmando que existem sinais de escrita entre os animais e que os seres denominados “árvores” detêm um tipo de conhecimento desconhecido para o homem. Estamos dizendo em todos os sentidos que todos os seres vivos possuem linguagem e mesmo os minerais a possuem. O que isso significa para a arte? Por que é importante essa posição para a arte praticada pelo homem atual e anterior? Em primeiro lugar, e mais importante, ela combate o antropocentrismo letal presente na cultura e na arte ocidental, onde cegos conduzem cegos por ruas de tráfego. Existem sinais claros de arte em todos os seres vivos, inclusive nos translúcidos. Em segundo, e não menos importante, ela irmana o homem com todo o universo engrandecendo-o pela humilhação de sua arrogância homogênica. Estamos propondo o deslitígio do universo. Estamos propondo a convivência de todas as civilizações do universo, conhecidas ou não.”

***

“II. Não sabemos o que somos até hoje porque isso não tem a menor importância, o que nada em mares de esplendor como o Mar Vermelho sabe disso. A arte quando brilha como a pele das grávidas e arfa o ar verde não quer saber quem é. ‘Não pense enquanto você puxa a corda do arco’ – diz o mestre arqueiro. Só pense quando com a flecha no alvo você estiver passeando como os seus amigos sob as alamedas de romãs. Como os brasileiros pensam.”

***

“O céu do Império era muito mais luminoso que o céu da República. O Império era do campo e ainda não havia cidades para obliterar o esplendor das galáxias. Nesses arraiais o amanhecer era como a repetição do gênesis da criação. O oxigênio provindo das florestas azulava o ar, arco-íris de refração irrompiam nos ares e toda a criação sussurrava. O homem também sentia seu corpo nascendo e todas as suas faculdades sendo preenchidas vagarosamente como olhos d’água. A plenitude da atmosfera e da criação se esgueirava até o dia. Podemos ouvir claramente as memórias de Gomes, esse estremecimento inexplicável do amanhecer, surdo e arrepiante, nas florestas da América, na ‘alvorada’ totalmente sinfônica e instrumental de O escravo, um dos momentos em que ele toca o cerne da natureza da música. “

***

“O som se revelou para mim fora das escolas, de todas as escolas especialmente em momentos que nada, nem ninguém estava presente, somente os seus significados e essências se movimentavam. A escola pede a não escola e o leitor aquele que não lê, e o som pede o quintal, o silêncio natural, para ser compreendido. Uma expressão misteriosa, porque todos temos o quintal dentro de nós, um mundo onde se movem as percepções, dos seres e das coisas, a mata. O maracá é um dos mais simples instrumentos, e o seu som é produzido por sementes, esse é o começo de tudo. A semente. “

***

“Não sabemos o que está por trás do som de um paneiro de couro amarrado ao tronco oco de madeira. Sabemos apenas que seu som nos faz estremecer. Portanto não sabemos nada de coisa alguma e a História da música e do Homem ainda não começou. Todos estão à margem da Arte, da história e do conhecimento apesar de falarem muito e de escreverem muito. A música nasce dos instrumentos, da voz dos pressentimentos e dos sonhos, mas o homem insiste em vê-la nascer do papel.”

***

Três ventos, dois vácuos e uma espada

“Entre dois ventos existe um vácuo. É por ele que desliza o olhar da espada. Esse é o movimento que funda os quipos do cinema, antes dos gênesis das coisas. Dizemos que o cinema existe antes de tudo porque sempre houve um vento entre dois vácuos ou um vácuo entre duas coisas e uma filosofia arcaica generalizada. Entre dois volumes ou dois ventos está o território primordial do olhar, e a noção da tempestade cinematográfica, da mente que vê.”