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O passado é outro país

“E ontem à noite o último capítulo da novela Avenida Brasil parou o país. Às nove da noite, ruas e avenidas vazias em todo o país. O Brasil parou em frente à televisão.”1

Minha lembrança de Avenida Brasil é que foi a última coisa que uniu o país. Ou, melhor dizendo, foi a última vez que lembrei do país unido. Possivelmente a maior novela brasileira, foi exportada para 150 países e traduzida para 19 línguas. No dia do seu último capítulo, o Jornal Nacional fez uma matéria sobre as ruas vazias das capitais brasileiras, com a maioria dos residentes em casa ou reunidos em bares, frente à televisão. A então presidente Dilma cancelou um comício junto a Fernando Haddad, e as companhias elétricas fizeram planos de contenção para um potencial apagão. Era outubro de 2012. 

Avenida Brasil é um perfeito produto de seu tempo. Nos permite vislumbrar, com a refração da ficção, um momento de grande otimismo com o país através de comentários sobre como o Brasil estava crescendo, como o Rio de Janeiro não era mais uma cidade perigosa por causa da implantação das UPPs, e que o futuro era brilhante para os cariocas, que viriam a sediar as Olimpíadas. Olhar para 2012 e seu otimismo é visceral. 

Após junho de 2013, creio que uma Avenida Brasil já não seria mais possível. Aquele, que foi um ponto-chave de cisão do Brasil (e cujos efeitos sentimos de diferentes formas até hoje), foi marcado por, entre diversos fatores, uma popularização da rejeição à Rede Globo. O ano de 2012, portanto, não foi somente o último momento de otimismo do país, antes de uma explosão frente às altas expectativas e frustrações com a realidade, mas também um último momento em que a Globo produzia consenso. Hoje, quem mais boicota a Globo é a extrema-direita, e as novelas de temática bíblica da Record competem com a emissora; o fim do sinal analógico, o aumento do acesso à televisão por assinatura e o advento do Netflix e outros serviços de streaming todos combinados levam a um conjunto de cidadãos que não mais tem a programação da Globo como pauta comum. Longe de querer defender um único canal de entretenimento e vendo grande importância na diversificação do acesso às programações audiovisuais, temos como efeito a novela das nove da Globo deixar de ser uma referência comum dividida por brasileiros de diferentes recortes geográficos, etários e socioeconômicos. Avenida Brasil foi a última obra do tipo que teve essa escala de mobilização, que provavelmente não é mais atingível. Para a Globo, rendeu 1 bilhão de reais de lucro. Para o telespectador, o privilégio de conhecer e assistir a Carminha é, francamente, incalculável.

Na época, Avenida Brasil parecia uma revolução: foi a primeira novela das 21h a ser filmada em alta-definição (HD), e seus planos davam uma sensação cinematográfica. Hoje, com a atual transmissão de “Amor de Mãe” e suas sequências ousadas, isso parece risível. 2012 era um tempo diferente. Dentre as novidades do país que permearam o universo fictício da novela está a “ascensão da classe C”, expressão muito usada até o momento em que a palavra “ascensão” parou de ser usada para descrever qualquer coisa aparentemente positiva no Brasil (com exceção do desempenho recente do Flamengo). 

Entre 2001 e 2012, segundo dados do Governo Federal, cerca de 40 milhões de brasileiros ascenderam à classe C, compondo a batizada “nova classe média”2. De 2014 a 2018, em contraste, calcula-se3 que cerca de 9 milhões foram para as classes D/E. A reorganização social do país em 2012 parecia ter se reorganizado de maneira sólida, e um sentimento otimista sobre o futuro do país estava em voga. Lembrar desse otimismo e entrar em contato com esse sentimento coletivo há muito esquecido é um dos aspectos mais dolorosos de revisitar a novela, que capturou tão bem a atmosfera de seu tempo. 

O centro da narrativa era o fictício bairro do Divino, um bairro de subúrbio da Zona Norte modelado em Madureira, e o segundo núcleo mais importante para a trama era o lixão do Jardim Gramacho, então o maior  da América Latina. À Zona Sul do Rio de Janeiro coube o núcleo cômico, que contava a história de Cadinho (Alexandre Borges) e suas três famílias. Como o Brasil suportou esse trecho da história na época, não sei. Sei que no momento de rever, pulei com muito gosto a maioria das cenas desse núcleo, que agregou pouco às dinâmicas centrais da trama. Sua única salvaguarda, estranhamente, está em ser o pior núcleo, de modo que insinua a Zona Sul da cidade como plenamente dispensável em uma narrativa cativante sobre o Rio de Janeiro.

Na trama de João Emanuel Carneiro, Rita é filha de Genésio, que é casado com Carmem Lúcia (Adriana Esteves). Quando Rita descobre que Carminha planeja dar um golpe no seu pai e usar seu dinheiro para fugir com o amante Max (Marcelo Novaes), conta tudo a Genésio. Ele confronta Carminha, que o empurra escada abaixo e, desorientado pela queda, vai cambaleando para o meio da Avenida Brasil, onde é atingido pelo carro do jogador de futebol Jorge Tufão (Murilo Benício) e morre. Depois da morte de Genésio, Carminha abandona Rita no lixão (Jardim Gramacho) aos cuidados do catador de lixo Nilo (José de Abreu). Rita foge para a casa da catadora de lixo Lucinda (Vera Holtz) com a ajuda de Batata, por quem se apaixona. Enquanto isso, Carminha seduz e chantageia Tufão, que foi atrás da esposa de Genésio por culpa. Rita jura vingança contra a ex-madrasta, e Lucinda providencia sua adoção por uma família argentina.

Onze anos depois, Rita retorna ao Rio de Janeiro como Nina (Débora Falabella), e vai trabalhar como cozinheira na casa de Carminha e Tufão para se vingar da ex-madrasta e expô-la à sua nova família. As coisas se complicam quando descobre que Jorginho (Cauã Reymond), filho adotado de Carminha e Tufão, é seu amor de infância Batata. 

Manuela Dias, autora da atual novela das 21h “Amor de Mãe”, diz que a vilã em sua novela “é a vida”, e que todos os personagens são bons e ruins4. Em Avenida Brasil, os vilões eram claros: o repulsivo Nilo com sua risadinha maléfica, caracterizado com requinte de repugnância ao ter como seu prato preferido feijão frio; o asqueroso Max, que a espectadora, como a personagem Nina faz, às vezes sentia vontade de lavar os olhos e os ouvidos depois de assistir; e a maravilhosa Carminha, cuja maldade e desejo por sobrevivência arranca gargalhadas. A mocinha, entretanto, era menos nítida. Contando uma história de vingança de uma parte boa contra uma parte má, a narrativa deixava claro que para exercer a vingança a parte boa precisava abraçar uma parte negativa de si, e exercitar calculismo e amoralidade para alcançar seus resultados. A mocinha, Nina, é retratada como uma psicopata que renuncia a tudo em nome de uma suposta justiça moral, um retrato encarnado da noção de que os fins justificam os meios. Quando chega em sua vingança, Nina ultrapassa diversas barreiras, e embaça os limites que fazem dela uma mocinha e não uma vilã. Tem diversas oportunidades de expor Carminha à família, mas escolhe prolongar a vingança, por gozo perverso, o quanto possível. Poderoso exercício de acinzentamento em uma história que parecia ser preto-e-branca.

Seria também possível dedicar esse texto inteiro a argumentar que o verdadeiro herói da história é Tufão. Ex-craque do Flamengo, de olhar baixo e temperamento doce, Tufão se destaca como uma pessoa paciente, sensível, bom filho, bom pai, bom marido, e como figura querida da comunidade do Divino, seu bairro de origem para onde voltou no fim de carreira (ouvir: “Filho da Simplicidade”, Revelação). Frequentemente, Carminha e Max faziam pouco da decisão do milionário de se contentar com uma vida no subúrbio, ecoando sentimentos populares da época em relação às decisões de Adriano (Imperador), uma das inspirações para o papel. Por um lado, ele é o mesmo personagem que atropelou um homem, saiu correndo sem esperar a polícia, e depois, por culpa, traiu sua noiva com a viúva do homem que matou. Por outro lado, ele deu de presente para a cozinheira Nina — por quem desenvolve afeto romântico ao longo da história — uma horta orgânica no jardim da mansão. Em 2012. Uma horta orgânica! !!!!!!!!!. É generoso com todos, descobre uma paixão por leitura que é explorada no correr da trama, enfim, é uma pessoa de coração puro, um personagem apaixonante de acompanhar. Certamente poderia discorrer algumas milhares de palavras apenas declarando meu amor por Tufão (ouvir: “Minha Razão”, Péricles com participação especial de Chitãozinho & Xororó), mas há pouco contraste entre ele em 2012 e atualmente: era maravilhoso então, e segue o sendo. 

Em outubro de 2019, Avenida Brasil entrou no Vale a Pena Ver de Novo, programação da tarde da Globo que re-apresenta, diariamente, novelas antigas. Em menos de 1 mês, assistimos5 no GloboPlay os 179 episódios da trama, experiência intensa que provocou reflexões que queremos aqui compartilhar. A menos importante é de que a novela conta com um dos infames roles aleatórios de Ronaldinho Gaúcho, em uma aparição na abertura de uma loja de cupcakes. A mais importante, e esse é um argumento que aqui tentaremos desenvolver, é que Avenida Brasil estava contando o futuro do país, abrindo a mão da nação para que pudéssemos enxergar suas linhas e prever o que estava por vir. O que João Emanuel Carneiro expôs tão bem era o que ele estava ouvindo, e inseriu as tendências da realidade no seu universo fictício. Nós ouvimos, mas não escutamos. Como dizem os ingleses, “hindsight is 20/20” (algo como “tudo é mais claro quando olhamos para o passado”). Em Avenida Brasil, não eram os protestos de 2013 tampouco a acirrada eleição de 2014 que estavam sendo apontados, mas a eleição do Bolsonaro e a ascensão da extrema direita. 

Poucos episódios adentro, a sensação de que praticamente todos os personagens teriam votado em Bolsonaro é uma preocupação distinta de 2019, em que todas as pessoas, fictícias ou não, suscitam a suspeita: em quem você votou em 2018 para presidente? Se a novela fosse feita hoje, talvez a Globo fosse acusada de tentar transformar o bolsonarismo em vilanismo na figura da Carminha, ainda que os princípios que associamos ao então candidato do PSL claramente estivessem difusos na trama pelos mais diversos personagens.

Esse texto irá abordar, em variados graus de detalhe, pontos-chave que saltam aos olhos do telespectador de 2019/2020: a presença do germe do bolsonarismo, o machismo exacerbado, o destino do Jardim Gramacho, e alguns aspectos ligados à dinâmicas de classe.

Proto-bolsonarismo e a moralização do Divino

“Eu queria dizer a vocês que to muito feliz de receber vocês aqui no meu jardim. Meus vizinhos, pessoas do bem, famílias como a minha (…) Nós temos que aproveitar um momento como esse, olha que momento iluminado! Esse momento é pra gente se unir e pra gente se proteger dessa pouca vergonha mascarada de modernidade que tá invadindo nossos lares que, tá tomando conta do nosso país. Sim, sim! Deles que eu to falando, sim. Dos libertinos, dos depravados, dos amorais, dos transviados, que a cada dia tão conseguindo ter mais espaço na política, na mídia, meu deus!, na sociedade em geral. Nós podemos deixar que isso aconteça? Não! Nós podemos deixar que eles corroam nossos valores? De jeito nenhum! Abaixo a imoralidade! E viva a família!” 6

Carminha, melhor e maior vilã da ficção brasileira recente (a terceira na genealogia Odete Roitman-Nazaré Tedesco7), tem uma plataforma política idêntica à do bolsonarismo. Cristã, prega a família e os bons costumes, o fim da imoralidade disfarçada de modernidade, e tem aspirações em ser vereadora, que aponta como sendo uma ótima fonte de renda. Está em um conluio com seu Padre Solano, junto do qual desvia recursos de uma obra social voltada para crianças carentes. A perfeita encarnação estereotípica associada a esse discurso, ela fere tudo o que prega. Isso também é perfeito na desconfiança que sente dos outros: desconfia de Nina ferozmente e a acusa de fazer tudo o que ela mesma faz. Chega a declarar, em algum momento, que sabe que Nina está mentindo para ela pois “conhece alma de mentiroso”, suscitando a suspeita de seu marido, que retruca: “Como?”. Carminha é perfeita: maquiavélica e malvadinha, cara de pau e hilária. Vê-la em ação ao mesmo tempo aperta o coração, faz você gritar com a TV e cobrir a boca em choque, e também te faz rolar de rir, especialmente quando ela rosna (rrrrrrr), fala que “a culpa é da rrrrrrita”, grita “traste”, e expressa seu desgosto pelos “cafonas” da família Tufão.  

No Twitter, sob a hashtag #OiOiOi e o número do capítulo, foi possível acompanhar internautas chegando à mesma conclusão dos paralelos entre Carminha e a plataforma bolsonarista.

Em 2012, ainda no primeiro mandato da Dilma, imagino que poucos da esquerda temiam uma retomada conservadora nos moldes atuais. Segundo o Ibope, a popularidade de Dilma em abril de 2012 atingia o recorde de 77%8. Desde então, nenhum governante esteve em posição tão confortável. A virada após 2013 foi tão rápida que pode ser fácil esquecer o quão sólida parecia a posição do PT até 2012. Não havia motivo de preocupação em vista.  Avenida Brasil foi ao ar, justamente, ao longo dessa que foi considerada popularmente a melhor fase do governo Dilma. Entretanto, o discurso de Carminha e de todos os que a apoiavam, enquadrando uma visão progressista dos costumes como algo elitista e sintomático de amoralidade abre os olhos para como as demandas atuais estavam sendo colocadas e já escancaradas desde então; como Cassandra, a deidade grega que fazia previsões mas só era ouvida quando estas já se realizavam. A novela indicava vontades que demoraram muitos anos para serem atendidas, possivelmente apontando para a retomada conservadora não como movimento reacionário pós 2013, mas como desejo coletivo que fermentou por anos até conseguir tomar a liderança, indicando, portanto, que trata-se de uma cauda longa que irá demorar para ser combatida por setores progressistas da política e da sociedade. Me pergunto se os roteiristas tinham essa intenção ou se, como o público, estavam acompanhando um retrato ficcionalizado sem considerar seus elementos de realidade e as possíveis implicações disso no futuro do país. 

Em 2012, a plataforma de Carminha parecia distante, começando a ser capitaneada por figuras como o então recém-eleito pastor Marco Feliciano. Naquele momento, Bolsonaro estava cunhando o termo “kit gay” e obstruindo o encaminhamento da Comissão da Verdade no Rio de Janeiro. Uma busca nos arquivos da Folha de São Paulo mostra 8 menções ao atual presidente no período que a novela foi ao ar, quase todas ligados ao kit gay, uma sobre o episódio racista em que Bolsonaro afirmou que seria promiscuidade um filho seu casar-se com uma mulher negra, e uma sobre militares que saltaram de paraquedas em comemoração ao golpe de ‘64, com direito à citação “sou macho, mas estou arrepiado”.  Seria a partir de 2013, com a eleição de Feliciano à Comissão de Direitos Humanos, que a extrema-direita sairia de vez das franjas e tornaria-se um entrave concreto. Ainda assim, em 2013 Alexandre Frota — hoje deputado federal, eleito pelo PSL e convertido ao PSDB — fazia piada com ter sido namorado de Feliciano, ridicularizando a homofobia do pastor. 

Hoje, os discursos políticos da vilã da novela soam como uma premonição do que estava por vir.

Violência do oprimido: Me serve, vadia!

Talvez o momento mais icônico de Av Br seja a cena de Nina sentada à cabeceira da mesa de jantar da Mansão do Divino gritando com sua ex-madrasta, arqui-inimiga e patroa: Me serve, vadia!

Essa cena rendeu muita repercussão no Twitter daquela que é considerada a primeira novela dos memes. O primeiro momento em que a vingança se encarna, é uma encenação de violência do oprimido. A lista inicial de exigências de Nina inclui aumento salarial dela e suas colegas, maiores benefícios de trabalho, que Carminha tome banho e durma nas dependências de empregada nas condições de suas serviçais e, que ela jante toda noite o único prato que permite que suas empregadas consumam: macarrão com salsicha.

A sequência foi ao ar meses antes da elaboração da PEC das empregadas (PEC 66/2012). Revendo em 2019, é surpreendente que naquele momento domésticas de todo o Brasil não tenham pegado em armas e começado uma revolução.

O subúrbio no centro

O deslocamento do eixo central da novela das 21h da Zona Sul “de novela” para um bairro de subúrbio inventado, em que o núcleo rico é a família de um ex-jogador (craque) do Flamengo que começou e terminou a carreira no time de seu bairro, eternamente na segunda divisão, Divino, também é uma certa tacada de mestre — no sentido de retratar um time fictício, de modo a não interferir com clubismos da vida real, e um bairro fictício, sobre o qual todo subúrbio carioca poderia se espelhar. O encerramento da história se dá com o Divino Futebol Clube finalmente sendo classificado para a primeira divisão, novamente aqui uma espécie de ilustração da ascensão da classe C, do otimismo com o futuro que reinava na percepção coletiva. Quem há de discordar que a classificação do Divino foi mais emocionante do que o desempenho da seleção brasileira na Copa de 2014?

O bairro do Divino se estrutura socialmente ao redor de algumas instituições: a sede do Divino Futebol Clube, o bar do Silas, o salão da Monalisa (especializado em escova progressiva), a loja do Diógenes, o Baile Charme e a pelada do bairro. Sua trilha sonora é “Meu lugar”, com direito à Arlindo Cruz adaptando o refrão — O meu lugar/ É sorriso é paz e prazer/ O seu nome é doce dizer/ É Divino, lá, laiá.

Retratado com afeto comparável ao Leblon de Manoel Carlos, João Emanuel Carneiro transformou um bairro suburbano em objeto de desejo Brasil afora. Quem não sonhava em tomar café da manhã na Mansão do Divino, deliciando-se com a culinária da Nina e a confusão familiar ao redor da mesa? Na mansão morava a família toda: a mãe Muricy (Eliane Giardini), o pai Leleco (Marcos Caruso), os filhos Tufão e Ivana (Letícia Isnard) — e sua memorável, ainda que horripilante “voz de bebê” –, seus respectivos Carminha e Max, e os netos Ágatha (Ana Karolina Lannes) e Jorginho. Além deles, três empregadas: a icônica Zezé (Cacau Protásio) — eu quero ver/ tu me chamar de amendoim –, Janaína (Cláudia Missura) — que tinha uma empregada em casa que tratava mal em igual medida ao tratamento que recebia de Carminha — e Nina, apelidada “Maria Antonieta” por sua sofisticação em declarado contraste com a família suburbana. 

Outra dinâmica característica de Av Br eram as refeições na Mansão do Divino, em que a família Tufão gritava, um falando por cima do outro a todo momento, conferindo grande realismo às cenas. Em entrevistas, os atores comentam que o método dessa dinâmica é que, ao invés de os atores de apoio terem que esperar sua deixa para falar, precisam estar a todo tempo ativos em cena, atuando, encarnando o personagem, enquanto a direção — assinada por Amora Mautner — dava conta de focar nas conversas mais relevantes para a trama. 

Em geral, os protagonistas do Divino são a elite do bairro: o jogador de futebol aposentado,  a empresária dona do salão, o dono da loja, o dono do bar. Na geração dos filhos, Jorginho se muda para a Zona Sul e depois é seguido por Iran, que representa um desejo de uma suposta ascensão geográfica, desprezando a escolha de sua mãe rica em continuar na Zona Norte. Quando Monalisa, em resposta ao desejo do filho, experimenta se mudar para a Zona Sul, é mal-recebida e se sente deslocada a todo momento. Finalmente, retorna feliz ao Divino, enquanto seu filho se concilia com ambos os universos, casando-se com Débora, patricinha da Zona Sul que só se interessa por homens da Zona Norte e que tem grande apreço pela cultura e sociabilidade suburbana. 

A todo momento personagens da Zona Sul e da Zona Norte teciam comentários de diferenciação, explicitando a tensão entre os dois universos e exacerbando estereótipos: a Zona Sul como um lugar refinado, de gente rica e metida que gosta de silêncio e uma estética “clean”; o subúrbio como lugar “autêntico”, em que as pessoas são simples e sinceras, sem afetações exageradas.

“A gente fala alto, come de boca cheia, mas a gente se diverte”, diz Carminha. Já Verônica (Débora Bloch) é responsável por encarnar e escancarar o preconceito estereotípico de uma perua do Leblon, com tiradas do tipo “O que eu vou vestir para uma festa no subúrbio, bermuda e chinelo?”, “Nesse pessoal do subúrbio a gente não pode confiar!”, “Começou a invasão suburbana. É o consulado do Divino abrindo as portas no Leblon (…) isso aqui vai virar um churrascão na laje” e “Nossa filha vai casar com um garoto que mora no ex-bairro do nosso motorista”9. Em retrospecto, ela representava o tipo-ideal de um sentimento antipetista por ressentimento do enriquecimento da população, mais recentemente evocado pelo atual Ministro da Economia Paulo Guedes ao falar que “até empregada doméstica estava indo para a Disney”. Há uma espécie de vingança do destino quando ela precisa mudar para o bairro do Divino após seu marido perder todo o dinheiro. A única família que entra em falência é a da Zona Sul, em representação irônica da perda de protagonismo da classe A/B diante da ascensão social massiva que o país vivia.  

Enquanto isso, quando Monalisa passa uma temporada morando na Zona Sul, ridiculariza a região com falas como “não tem empada lá, só quiche, que é uma empada metida”. 

“Assim você mata o papai”: tonalidades de machismo

– Você acha que eu vou deixar mulher minha mostrando o corpinho?

– Ai, como você é careta!

– Sou, sou careta, sou suburbano, sou machista, que mais que eu sou?10

Chama atenção a abundância do machismo, em suas variadas formas, através dos diferentes personagens. Comentários homofóbicos corriqueiros, objetificação e humilhação de mulheres, e diferentes graus de violência exercidos por homens e mulheres estão imbricados na trama.

Adauto, que é encarado como um homem adorável, prende seu objeto de afeto Muricy em cárcere privado até que ela aceite ficar com ele. Posteriormente, diante do término, sobe em uma árvore e faz greve de fome, ameaçando suicídio, até que Muricy o aceite de volta. Embora suas ações tenham caráter abusivo, na novela, comportamentos machistas abusivos são retratados de modo que não afetam o caráter do personagem: Adauto continua sendo “maluquinho inofensivo” depois de prender Muricy, assim como Silas — que finge uma doença terminal para convencer sua namorada de uma década Monalisa a se casar com ele — continua sendo um “cara legal”que só erra por amor, sendo defendido por todos os outros personagens. O que Silas espera de Monalisa é que a empresária seja sua mãe, limpando a casa, fazendo comida para ele, e lhe dando autoridade absoluta sobre o controle remoto. Quando Monalisa, empresária independente que criou seu filho sozinha, resiste ao que vê como uma relação que tolhe sua liberdade, é tachada como mulher difícil que precisa aprender a ceder. Carminha, que se sente ameaçada por Monalisa (que é ex de Tufão), consistentemente a caracteriza como uma mulher amoral, mãe solteira, concubina, “messalina”, que ameaça a integridade da comunidade do Divino. “

O galã Jorginho, par romântico de Nina, passa praticamente nenhum tempo solteiro, dividido entre o amor da sua vida (Nina/Rita) e sua então namorada Débora, que é apaixonada por ele embora claramente o sentimento não seja recíproco. Em cena perturbadora, ele a pede em noivado depois de dizer que “mulher dele não fica falando com outro homem”, segurando seu braço com força. A postura de Jorginho, que frequentemente fala “sou cafona mesmo”, pinta um estereótipo repetido diversas vezes no roteiro: a ideia de que o homem da Zona Norte é que é “macho”, das antigas, conservador. Enquanto isso, em suposto contraste, o homem da Zona Sul, Cadinho, prende Alexia (Carolina Ferraz) — uma mulher que está grávida com seu filho — na parede com a força do seu corpo e diz “quero ver me expulsar agora”, em cena que se desenrola como se a dinâmica de violência fosse “sexy”, à medida em que os dois transam logo em seguida.

A história de Leleco (Marcos Caruso) é de outro machismo exacerbado: troca sua esposa de mais de 30 anos por uma mulher mais nova, Tessália (Débora Nascimento), que é louca por ele. Doente de ciúmes, desconfia até mesmo do irmão de sua parceira. Incapaz de confiar que uma mulher tão mais bonita e jovem do que ele poderia estar genuinamente apaixonada, contrata Darkson (José Loreto), um homem jovem e bonito para segui-la e depois seduzi-la, provando-o certo na ideia fixa de que está sendo traído. Enquanto isso, trai Tessália com sua ex-mulher, Muricy. 

Chama atenção também que, na trama, há um ex-namorado abusivo e violento de Tessália, que a ameaça com arma, e é denunciado para a polícia. Ele é visto pelos demais personagens como criminoso. Quando os outros homens da novela se comportam de maneira agressiva ou controladora, entretanto, não têm seu caráter manchado de forma alguma.

Essa é a novela que apresentou ao Brasil a periguete Suelen, inesquecível com sua gesticulação, seu “meu amor” de sotaque carioca carregado, sua cordinha de ouro em volta da barriga e seus infames vestidos tomara-que-caia com um zíper no meio, em interpretação brilhante de Ísis Valverde. O tratamento de Suelen, chamada por todos os outros personagens de “ariranha” (para grande efeito cômico, que funciona, tanto por ser uma versão branda de “piranha” quanto porque talvez a Ísis Valverde como Suelen de fato se pareça com uma ariranha), talvez seja o machismo mais escancarado, culminando na personagem ser desnudada em público por um grupo de homens — todos os quais já foram apaixonados por/ficaram com/usaram ela —  que queriam humilhá-la por vingança. No caso de Suelen, não são apenas os homens, mas também as mulheres que a tratam com desprezo.

Com olhos atuais, chama atenção o quanto esses comportamentos não pareciam problemáticos na época, sendo tratados geralmente de maneira humorosa ou, simplesmente, passando batido.

Saindo da ficção e olhando para suas ramificações na realidade, na época foi relatado que o jogador de futebol Adriano (Imperador) socava a parede quando via o personagem ser traído por Carminha. A preocupação do Imperador era com a propagação da imagem do jogador de futebol como “corno”. Na época, Tufão era um personagem recebido pelo público com carinho, mas também com certo desprezo por “ser corno” (Ouvir: “O dia do corno”, Reginaldo Rossi). Como seu intérprete Murilo Benício disse em entrevista, é curioso que ele fosse mais lembrado por uma coisa que faziam a ele, e não que ele fazia. Em pleno 2019, as reações no Twitter são semelhantes, com piadas sobre o status de “corno” traído do Tufão. Em uma novela repleta de homens machistas, mentirosos e desinteressados, chama atenção que o personagem mais carinhoso, delicado, que irradia confiança e responsabilidade, capaz de conversar abertamente com seu filho sobre emoções, de respeitar aqueles ao seu redor, e de diante de uma paixonite por sua cozinheira presenteá-la com sementes orgânicas e posteriormente, com um buquê de manjericão (!!!!), choca saber que sua pecha persiste sendo a do ente traído. Em uma troca emocionante, Nina conversa com Tufão após ele ter lido Dom Casmurro, livro que ela lhe emprestou — ao longo da trama, Nina recomenda e empresta livros que servem como meta-comentários da novela e também que tentam servir de indiretas para que Tufão abra seus olhos para a situação ao seu redor. “Esse tal de Bentinho é um cara meio doido, hein (…) Acho que o Dom Casmurro era uma espécie de seu Leleco. Sempre achando que a mulher dele tá traindo ele. Acho que isso é ruim pro casamento, desconfiança. Marido tem que confiar na mulher e seja o que deus quiser”. 

O lixão

O maior lixão da América Latina, Jardim Gramacho foi ativo por mais de três décadas,  chegou a receber cerca de 10 mil toneladas de lixo por dia e a abrigar uma população de 20 mil pessoas, das quais metade sobreviviam da reciclagem. Na trama, somos apresentados a uma versão ficcionalizada do local com uma ambientação pós-apocalíptica, em que adultos e crianças de corpos e rostos inteiramente cobertos catam lixo nas montanhas de dejetos, envoltos em uma fumaça densa de cheiro insuportável. Lá vivem os personagens Nilo e Lucinda. Carminha e Max têm o lixão como um lugar de origem, e Jorginho e Nina como um local da infância. O lixão, representação da pobreza, é uma ameaça concreta para Carminha e Max, para onde não desejam retornar: a extrema miséria. Em cena icônica, sofrendo com a vingança de Nina, a vilã pega carona em um caminhão e afirma: Meu lugar é no lixo. Toca pro inferno, motorista.

Enquanto para Jorginho e Nina o lixão é um lugar afetivo de acolhimento, para Carminha e Max é a representação do fracasso de onde vieram, e de onde, a todo custo, querem se distanciar. Para ambas as duplas, entretanto, trata-se de um lugar onde forjaram suas alianças de vida toda. Um lugar de traumas, inspirado em um local real da cidade onde a miséria reina, a ousadia de representar um lixão como um núcleo de grande importância, com complexidade e nuance, foi uma aposta tão grande quanto centralizar o subúrbio. 

O impacto do lixão nos personagens é diferente, e para além do trauma, vale chamar atenção para a construção da relação entre Max e dinheiro. Seu maior desejo é ir morar em Miami com Carminha, e acha absurdo a família Tufão não morar na Zona Sul, de frente para o mar. Toma péssimas decisões, só consegue pensar em dinheiro a curto prazo, e tem dificuldades de planejamento de futuro. Quando recebe meio milhão de reais imediatamente investe tudo na compra de uma lancha luxuosa, gasta o que consegue tirar da esposa em artigos de luxo, e não consegue juntar recursos. 

Parece, nesse sentido, encarnar de maneira mais realista o tipo de processo de pensamento mais possível quando se é criado na miséria absoluta. Pesquisas11 apontam uma relação entre pobreza, confiança e tomada de decisões. Para crianças mais pobres, a vida cotidiana oferece menos garantias: pode ser que hoje se tenha acesso à comida, mas talvez não se tenha amanhã. Em um contexto de incerteza, a noção de espera é acompanhada por uma noção de risco. Quando se aprende que não há garantias para o “depois”, a conclusão é que é necessário aproveitar o “agora”. Essa formulação é uma possível maneira de explicar como a pobreza pode incentivar as pessoas a tomarem decisões de curto prazo.  A experiência da pobreza ensina que é preciso aproveitar o que se tem hoje, pois não se sabe quando se terá acesso àquilo novamente. A construção da relação do Max com dinheiro é marcadamente diferente da de Carminha, que passou a primeira infância em uma casa de classe média. 

Nilo, seu pai — uma espécie de homem do saco do lixão — lida com dinheiro de maneira semelhante. Apostaria que, se tivessem ficado vivos até o fim de 2012, seriam indenizados e com esse dinheiro comprariam motos que não sabiam dirigir e morreriam em acidentes, como o que veio a acontecer com muitos dos verdadeiros habitantes da região na ocasião do fechamento do aterro.

Talvez a parte que tenha se comprovado mais inverossímil da novela seja a sua previsão de futuro no último capítulo. Ainda em 2012 o Jardim Gramacho foi desativado. Cerca de 1.600 catadores receberam uma indenização de cerca de 14 mil reais da prefeitura, sem acompanhamento social. Um alto número — não temos referência pois trata-se de informação anedótica transmitida por alguém que trabalhou em um instituto de estudos sociais para a prefeitura para desenvolver um trabalho de acompanhamento, que nunca foi executado — desses catadores morreu em acidentes de moto. Sem carteira de motorista, sem instrução, sem estrutura para receber uma bolada de dinheiro em uma tacada só, compraram motos — símbolo de status e mobilidade em uma cidade em que transporte público funciona mal e o acesso a bens e serviços tem estratificação geográfica. A projeção da novela de vários anos no futuro, em que Carminha e mãe Lucinda continuam trabalhando no lixão de maneira relativamente próspera — na casa Pinterest-de-sucata da mãe Lucinda, forte contraste com as casas de papelão dos atuais residentes do lixão — foi mais otimista que a realidade. Hoje, há cerca de 4 mil pessoas no lixão desativado, em situação de mais precariedade do que antes dele ser desativado.12

Oi, oi, oi

Você gatinha, você gatona, você senhorita, você minha senhora, princesinhas e popozudas, você que tem a pele da cor da jabuticaba ou você do cabelo dourado feito mel, tu vai ficar ainda mais show depois de passar aqui.13

O Divino e seus habitantes entraram para o imaginário coletivo brasileiro, e reencontrar a todos proporcionou prazer genuíno, como revisitar pessoas por quem se tem grande carinho. Oito anos depois de sua exibição, rever a novela foi também uma oportunidade de entrar em contato com um momento histórico recente do qual sobrava pouca memória — mas no olho do furacão, lembrar-se da calmaria tem um efeito violento. Olhar para 2012 pode ajudar na compreensão do presente, e a enxergar com nova clareza elementos hoje consolidados que ali começavam a brotar.

Avenida Brasil era um espelho. Na ficção não devemos buscar reflexos literais da realidade, mas há sinais que transbordam do real para o fictício que, posteriormente, servem de referência para recompor o espírito de uma época.14

Lista de leitura do Tufão:

  • O idiota, Dostoiévski 
  • A metamorfose, Kafka
  • Madame Bovary, Flaubert
  • A interpretação dos sonhos, Freud
  • Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
  • Grande sertão veredas, Guimarães Rosa
  • O primo Basílio, Eça de Queiroz
  • I Ching, o Livro das Mutações
  • Dom Casmurro, Machado de Assis
  • O Banquete, Platão
  • O amor nos tempos do cólera, García Márquez

Leituras extras:

  • Apostila escolar de história 
  • Fala sério, amiga, Thalita Rebouças
  • O livro de sonetos, Vinícius de Moraes


Alice Noujaim Teixeira*, março 2020

*Alice é mestre em antropologia de museu pela Columbia University. Seus interesses de pesquisa incluem materialidade digital, arte contemporânea, museus e dinâmicas sociais em espaços expositivos. Contato: [email protected]

Notas

  1. Jornal Nacional, 19 de outubro de 2012. https://www.youtube.com/watch?v=RA3-uWEgkYA
  2. Pesquisa Data Federal, da Secretária de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (ver https://economia.culturamix.com/governo/a-ascensao-da-classe-c-no-brasil)
  3.  Cálculo de Marcelo Neri, o economista que cunhou o termo “a  nova classe média” (ver https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/noticia/2020/02/uma-decada-depois-de-melhorar-de-vida-como-esta-a-classe-c-hoje-ck768rz840mwa01qdkwca2d8k.html)
  4. https://maxima.uol.com.br/noticias/famosos/autora-de-amor-de-mae-manuela-dias-revela-detalhe-inedito-sobre-a-novela-ela-nao-tem-vilao.phtml. Apesar da afirmação, existem personagens com contornos claros de vilania que se sobressaem como, efetivamente, os vilões da novela.
  5.  Eu e Madalena Pessanha, que contribuiu extensivamente para a escrita e elaboração desse texto.
  6. Discurso de Carminha no capítulo 22 da novela.
  7. Odete Roitman (Beatriz Segall), vilã de Vale Tudo (1989) era uma empresária milionária, mais lembrada por cômicas frases preconceituosas sobre o Brasil e sua população. Em 2004 ainda era considerada a  maior vilã de novelas (ver https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,enquete-elege-odete-roitman-a-maior-vila-da-teve,20041018p6775). Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), a vilã de Senhora do Destino (2004), mais lembrada por empurrar todos os seus inimigos da escada de sua casa. Sanguinária, também tinha forte veia cômica. É digno de nota que Renata Sorrah interpretou Heleninha Roitman, filha de Odete, e que Adriana Esteves interpretou uma jovem Nazaré, estabelecendo uma genealogia mais que conceitual entre as três maiores vilãs das novelas brasileiras.
  8. http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/04/aprovacao-pessoal-de-dilma-sobe-e-atinge-77-aponta-ibope.html
  9.  Verônica era mãe de Débora, que foi noiva de Jorginho em diferentes momentos da novela.
  10.  Diálogo entre Jorginho e sua namorada Débora (Nathalia Dill)
  11. https://www.theatlantic.com/family/archive/2018/06/marshmallow-test/561779/
  12.  De acordo com pesquisa da TETO, o nível de pobreza do local antes da desativação do aterro era de 49,3%. Com o fim do lixão, subiu para 86,7%. https://diariodorio.com/jardim-gramacho-a-bangladesh-que-se-esconde-no-rio-de-janeiro/
  13.  Fala de Darkson no microfone, fazendo propaganda para a loja do Diógenes, no capítulo 8.
  14. https://open.spotify.com/playlist/1RX18VZ2UH6ueK5evsfMfQ

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