literatura

Os Santinhos da João Afonso – conto de Alice Nin

Coloco os pés na luz e os olhos no chão da rua. Assim bem cedo, ou mais tarde, às vezes apressada, ando olhando para baixo, para frente, e para os lados. Antes que acabe essa minha pequena rua de paralelepípedo percebo que o chão está cheio de pequeninos pedaços de papel. Alguns bem pisoteados outros intocados. São santinhos, imagens estáticas me olham e forram não só o chão, como o vidro dos carros e os fundos das caixas de correspondência. Nunca tem dois santinhos diferentes no mesmo dia, quando é dia de nossa senhora, é dia de nossa senhora. Não é aconselhável confundir os santos. No começo não dava muita bola, achava um tanto apelativo todo esse exagero abarrotado, barroco. Fui saindo: um. dois. três meses em meio as marés de santinhos e santinhas que invadiam a rua, até que os decorei. Segundas são de coração de jesus, sexta é dia de nossa senhora. Em seguida o dia que mais esperava: quartas feiras da rainha da paz. Foi ela que me chamou a atenção pela primeira vez ao ritmo dos santinhos. Com interesse e simpatia olhei pra essa jovem pálida, um tanto menina um tanto senhora, que carregava consigo a maravilhosa sentença de Rainha da paz. Eu ri, achei uma graça gostosa, brincante, pensava com meus botões: quem é essa santa curiosa e prepotente que se auto intitula Rainha da Paz? Trabalho grande esse que escolheu. Nunca tinha visto uma santa ser tão ousada na missão. No fim das contas achei bonito, recheado de poesia. Comecei a catar as Rainhas, sempre às quartas. Escolho uma bem pisadinha, depois outra bem novinha. As cores da santa no pequeno papel retangular me encantam, um azul celeste rodeia todo seu rosto tímido, e não me restam dúvidas: não vale nada essa santa sacana. Um dia me pus a ler o que tinha atrás da tal figura, descobri que minha Rainha da Paz no fim das contas era nada mais nada menos que Maria, mãe de deus. Não sei nada dela, sou terrível com histórias bíblicas (não por falta de interesse, mas por confusão. Cruzo as histórias bíblicas em todos os seus nomes e temporalidades, misturo com algumas histórias egípcias, judaicas, e termino contando fragmentos da Odisseia de Homero jurando que são fatos do Antigo Testamento. Uma gigante sopa turva, porém deliciosa: sempre rende boas risadas). Mas Maria.. mariamãededeus. Sempre gostei de mastigar essas palavras juntas, gosto dos seus ritmos, dos seus sons. Que delícia, a Rainha da Paz é mariamãededeus. Eu a coleciono e a penduro na parede como se fosse minha. Gosto de encontrá-la perdida em meio às páginas dos mais diversos livros. Não me sinto devota, somos parceiras.

 Nunca vi quem espalha os santinhos pela rua. Acho que é meu maior sonho de bairro. Imagino alguém salpicando a rua de plastiquinhos infinitos como quem dá comida aos pombos. Uma imagem recheada, abundante, enjoada. Tão abundante que é até obscena, desperdiçada. Uma segunda imagem surge contendo todo o surrealismo da primeira, e um pouco mais: num dia branco e abafado, suam-se todos os viventes. Camisas, calças, calcinhas, cuecas, bolsas mochilas, todas, tudo ensopado de suor. Uma enorme luz solar difusa e atrasada banha a todos durante o dia: anoitece. Anoitece e chove, como se fossem inseparáveis. Chove muito, torrencialmente, cascatas de água surgem das janelas dos prédios, escoam pelas portas, quebram-se as escadas e os postes: os vidros foram os primeiros. Soltam-se os paralelepípedos, escorregam todos os fios do que quer que seja, luz, internet, outros. A força da água que chove enfrenta a força da água regurgitada dos interiores das casas e quartos. O maior fuzuê líquido. Eis que percebo: a água não escoa. A rua enche como uma ridícula banheira, entregue aos escombros, restos e pedaços. Todos nadam, esperando a água baixar, não se dão conta. A água já estava pela metade da rua, alcançando quase que o terceiro andar dos prédios. Pronto, minha rua virou uma enorme piscina olímpica, decadente, turva, meio lamacenta em cima. No fundo de toda essa bacia que só crescia estava o motivo de todo esse entupimento: dos ralos da rua, no total 23 grandes ralos de ferro responsáveis por escoar aquela liquidez toda, nenhum podia cumprir seu papel, precisamente por estarem cheios de papel. E não era qualquer tipo de papel, mas sim pequenos papeizinhos, um tanto plastificados, em formato retangular. Todos os santinhos que já habitaram nossos paralelepípedos estavam lá. Das quartas, segundas e sextas-feiras: estavam todos a entupir os ralos, danados.

Alice Nin, maio de 2020

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