literatura

o segredo da voz – conto de Vítor Kawakami

o primeiro canto que eu me lembro de ter parado para escutar foi o da cigarra. toco de gente pelada, à beira do poção onde nós meninos virávamos peixes sedentos em meio à algazarra. eu devia ter uns três anos ainda, mas tenho bem presente em meu corpo aquele som riscando os ouvidos: sim, com meu corpo todo que me lembro daquele momento, pois o zunido me atravessava por inteiro, e assim tive minha primeira vibração, minha ressonância inicial. a partir de então, percebi que alguns sons me punham como que em transe. mãe me obrigava a levar o almoço para vovô que trabalhava rio acima. eu ia sempre excitado, pois sabia que ao chegar à lavra, caso desse sorte, podia ouvir a jangada secando água. êxtase ao meio-dia. tom fundamental. outras vezes, o bando de pássaros pretos invadia as copas das árvores em sua audição escandalosa, e aquilo era pra mim o fim do mundo. se eu pudesse me juntar a eles… outras e eu em cima do carro de bois, e aquela zoeira, e aquela frequência infernal, aquele canto infinito me deixando maluco, com vontade de abrir a boca e me soltar aos quatro ventos. engraçado, e o sol sempre lá, calor fritando meus sentimentos, torrando minha pele escura, a luz estourando as lembranças em flashes mnemônicos, a sede. e eu então ainda desse tamaninho, quase sem fazer sombra pra ver as horas, sem ainda saber que o tempo, quando passado, deixa a vida do tamanho de nossas lembranças. e minhas lembranças são, em realidade, sensações. os sentimentos mais puros me ligavam aos bichinhos do mato, à terra seca, à escuridão da noite. no fundo, acho que eu quem era um bichinho, calado, arisco, ingênuo, feliz, solto correndo pelos cantos. e se eu comia e bebia, não sei, sinto que sim. meu alimento acho que foi o murmúrio do rio, o assovio do bambuzal, o estrondo da cachoeira. minha fome era de ruídos, barulhos, melodias da natureza. a vida me cabia no bolsinho furado da calça suja. eu sei que era rico pois tinha tudo o que precisava ao meu redor. e tudo era grande, maior. tudo era demais pra mim, me sobrando. por isso eu tenho certeza de que era rico. por exemplo: quando, aos pés do pequizeiro, olhava seus frutos redondos e enormes, seus galhos serpenteando o céu azul, retorcendo meus olhos, tinha a sensação de que ao subir naquela árvore me transportava a outro mundo, onde a fartura me esperaria e o cheiro do pequi saciaria meus desejos. ou quando, me esquentando à beira do tacho borbulhando o melado, sabia que o doce da rapadura em breve me embriagaria e me faria criança. ou então, quando voltava do bananal, montado no burrinho puxado por vovô, com os balaios repletos de caturras e pratas, verdes e maduras, prontas para o ensopado ou pra derreter em nossas bocas. ou quando, ou ainda, ou então, ou, ou. o que sei é que o que me faltava eu ainda não sabia, mas logo iria saber. por enquanto, basta sentir que a vida me era grande, que eu e meu povo éramos ainda maiores, que a mata nos criava, protegia, ausentes e distantes do mundo por que vivíamos no interior do mundo.

nessa época ele ainda não tinha nome. na verdade, durante sua presença naquele infinito, mar inalcançável, vivia anonimamente. criança na roça não precisa de nome, geralmente é filho de cicrano ou de beltrano, mas como ele não tinha pai e a mãe era muda, ficava assim mesmo, sem nome. isso, por outro lado, também lhe permitia a graça do silêncio, e se ali ele viveu seus primeiros sete anos, eles foram vividos nas profundezas da quietude misteriosa, poderosa. além de tudo, quem iria prestar atenção à criatura tão escondida dentro de si mesma? passava batido diante de negros velhos ou mesmo novos, diante de garimpeiros, faiscadores e capangas, diante, principalmente, do senhor. porém, como muitos sabem, o perigo se esconde debaixo do nariz. e este pequenino anônimo, que mais tarde viria a ser conhecido por seus mil cantos, no último dia desta infância tornou-se o olho do furacão, ou melhor, o silêncio que antecede a tormenta. antes disso, no entanto, outros ocorridos foram prenunciando o que se revelaria adiante. e o maior responsável, sem dúvida, foi o avô, ou mais propriamente, a sua morte. e foi quando o menino levava no embornal a boia do preto velho, chegando à lavra, encontrando-o flutuando no caldeirão cheio de gorgulho e de água barrenta, e as costas cheias de rasgos e cortes vermelhos de vergalho. foi a primeira vez que ele gritou. e no tumulto da confusão, atônito, nem teve como ficar sabendo que o motivo daquela morte fora a suspeita do senhor de que o velho vinha escondendo diamante cheio. e foi o peito do menino que doeu de amargura. e foi a dor que lhe trouxe o amadurecimento. e o gosto amargo daquela madurez temporã que lhe trouxe o trabalho. aos sete anos passou a carregar labancas, enxadas, carumbés e bateias. o menino seguia assim a tradição dos que não têm escolha, obrigando-o a servir àquele que lhe provocara tanta tristeza. e foi dessa forma que ele começou a faiscar, a aprender o serviço da cata do grão, a encontrar os vestígios do diamante, suas formações. mas primeiro teve que carregar paiol, areia e pedras leves, teve que encher carumbés, transportar pra lá e pra cá, na beira do rio, o seu peso da sobrevivência. e se de dia ele suava o calor das horas pesadas, à noite se esforçava para manter-se acordado, pelo menos um pouquinho, para conseguir ouvir o silêncio da escuridão, ou apreciar o lume do céu, ou ainda ouvir as histórias dos mais velhos, que sempre que podiam se reuniam em torno de foguinhos discretos pra tomar cachaça e mergulhar nas lembranças. a vida quilombola lhe abria um novo capítulo, agora áspero, duro, seco, distanciando-o a cada dia da alegria da inconsciência, do prazer da ingenuidade. e o menino que antes era capaz de largar tudo o que estava fazendo para admirar o compasso do nhambu, teve medo de si mesmo, ao perceber que o prazer e o gosto pelas coisas da vida não lhe vinham mais com os olhos abertos, e que apenas sonhando era possível encontrar a paz de outrora, embalado pelos grilos da madrugada.

tenho bem nítida a imagem daquele pássaro preto engaiolado na frente de uma das casas à beira do caminho da lavra. também está bem claro como mudou a altura do som da jangada secando água. de repente, tudo deu um rodopio e se reorganizou ao meu redor, e o que era antes passou a não ser mais. o que eu descobri foi que meu grito transformava a existência. e que um grito de dor era capaz de tumultuar, num lapso da vida, homens amargos e secos. aprendi que o som que vibrava comigo era fonte inesgotável de modificação. e se num primeiro momento duvidei, logo me agarrei a isso como motivo para seguir em pé. e o rio nunca cessou de correr arrastando lamentos. e a chuva com trovões sempre rodeando antes de desabar. e dentro de casa, o cheiro da terra batida, da cal nas paredes, do capim no telhado. cheiro de fumaça, de picumã, de café amargo. e aquele silêncio… o olhar sofrido de mãe, o chiado da lenha verde, a bilha fresquinha. e a tempestade desabando um mar dos céus, inundando regatos, rasgando a terra, empoçando os caminhos. a água lavando tanta sujeira e ambição, garimpando os homens, extração humana. e o brilho do primeiro diamante, croa que aparece por cima, que reluz. eu com os olhos fechados para ouvir melhor o que nos dizem os céus. tremor ecoando pelo vale. tremor pela umidade fria que invade a casa. a janela aberta para o passado, me lembrando de mim, do que sempre fui, tratando de me recordar de minha condição eterna de som encarnado, matéria etérea. como um filhote caindo do ninho em seu primeiro voo, corre o canto lamentoso janela afora, a dor rasgando a terra, a chuva no céu da boca, o vento soprando a melodia virginal. o rio aumentando seu volume, tanta lágrima carregando o sofrimento, tanto sangue carregando a injustiça, e a violência da correnteza rolando pedras e cascalhos, arrastando troncos e árvores inteiras, nosso pranto implorando o milagre da libertação verdadeira, da dignidade, levando ao mar a vontade de sonhar, sonhar que somos peixes e que o passado está também no presente.

os negros gostavam de trabalhar para patrão que permitisse os cantos, os vissungos. cantavam o dia inteiro de serviço: o tempo, o sofrimento, a fome, tudo passava. áfrica mãe de mãos dadas com brasil padrasto. o pequenino assim conviveu com a força original de seu sangue, de seu corpo. não tardou para, na calada da noitinha, ensaiar as cantigas de multa, de licença, de morte. e diariamente procurava deixar-se levar pelo êxtase, entoar seus infortúnios, fazer jus às vozes dos antepassados. foi quando outro ocorrido veio aproximá-lo de seu futuro. já há algumas semanas que vinha percebendo que o ambiente da lavra tornava-se cada vez mais tenso. com a desculpa de que a cata do diamante não estava rendendo como devia, o senhor patrão resolveu fechar temporariamente o moinho d’água, impossibilitando dessa maneira a produção de fubá como forma de pressioná-los a trabalhar mais. sem fubá e sem angu o negro no sertão não vive, e o menino passou a conviver ainda mais com os sons de sua barriga vazia. o volume da indignação crescia até os limites do insuportável, até que a morte de três ou quatro parentes resolveram as coisas, e mais uma página vermelha passou a ser escrita. muita discordância começou também a existir entre os próprios faiscadores e garimpeiros, entre famílias e compadres. mortes por traição através de raízes e ervas na cachaça tornaram-se frequentes, e a desconfiança pairava sobre o reino dos miseráveis. a dor e o medo ecoam mais rápido do que a razão pode compreender. a mata tornou-se escura, a noite, de um negrume assustador. e em meio a tanta obscuridade, os olhinhos úmidos da criança teimavam em reluzir o brilho da estrela longínqua e solitária. foi ficando, aos poucos, calado novamente, adentrando mais uma vez o silêncio maternal, sem nada entender, sem nada desejar e até mesmo sem conseguir sonhar com algo regozijador, que lhe confortasse a alma, que lhe trouxesse o canto dos serafins, a paz. o menino caiu da janela, tombou sobre o terreiro, e dali foi levado direto para o jirau tremer a febre dos aflitos.

sonhei com o mar invadindo as montanhas e a barca dos homens partindo em navegação, a chuva cobria as vistas com seu manto de água, e vi que o mundo já era outro, todo inundado, e que os seres agonizavam em choro afogado, restando aos homens a companhia das aves, flutuando e custando a acreditar que tudo o que era, submergiu. e a vida os tornou peixes. e os homens mergulharam um a um. desceram às profundezas, e lá foram encontrando seus lugares, retomando aos poucos as suas ocupações e tarefas. o mundo continuava mundo, agora líquido. e o canto, a calma e o coração se tornaram profundos. sem pressa. e descobriram que a felicidade estava ainda mais profunda. assim continuaram descendo. fundo, fundo. cada vez mais felizes, e o interior do planeta a eles foi se abrindo. tudo parecia tão nosso. eis a nossa vida! aqui se vive! daqui nunca saímos, agora sempre fomos! o tempo! o tempo! o tempo! e a plenitude humana alcançou seu equilíbrio. nós homens, sementes da existência maior. a humanidade fecunda. sonho germinal.

quando melhorou, ele voltou ao garimpo. e dessa vez, presenciou um acontecimento maravilhoso: um mestre cantador, furioso com seu rival nas cantigas de mineração, acusando-o de traição, estirou-se ao chão seco e com a boca na terra entoou cantos mágicos. o que o menino viu e ouviu foi que, de uma hora para outra, o grupo do rival perdeu a voz, e assim perdeu o desafio. o feitiço, poderoso, impossibilitou inclusive a esses negros trabalharem, insultados. a força do canto mostrou ali, diante da sua perplexidade e alegria, o que ele já sabia. e tudo passou a ter um motivo. e o pequeno acreditou que algo estava-lhe faltando. e como numa orquestra regida pelo sol, ouviu todos os sons, ouviu a cigarra, a jangada do garimpo, os pássaros pretos, o carro de bois, o rio, o bambuzal, a cachoeira, o nhambu, os trovões, os vissungos, e ao notar que era, sobretudo, possível ouvir o silêncio, mas o silêncio absoluto, aí o menino descobriu que o que lhe faltava estava dentro de si mesmo.

juntei meus cacos no embornal e o escondi. trouxinha de peças miúdas. me recordo do friozinho na barriga que aos poucos foi virando cólica que aos poucos me levou pra aliviar no mato. era dia de domingo e não sei por que a manhã estava tão clara. à tarde peguei a olhar nos fundos dos olhos de mãe, e ela já sabia. não chorou. não chorei. como posso ter lembrança disso tudo? fui dar uma espiada no poção e acabei mergulhando. nunca a água me tinha parecido tão cristalina. despedidas. já quando ameaçava voltar para casa, vi uma casquinha seca de cigarra agarrada no tronco da árvore.

aconteceu como tinha de acontecer. pegou sua trouxa e saiu de casa pulando pela janela. tomou o rumo da lavra, e um pouco antes de lá chegar, tratou de encontrar o carumbé deixado na beira do rio. fez tudo com cautela e precisão. afastou-se do faro do vigia noturno e, subindo ainda mais o rio, chegou próximo ao local. tirou um toco de vela do bolso, acendeu-o, colocou-o dentro do carumbé, e com esse castiçal improvisado flutuando na água, foi por dentro do rio iluminando os barrancos, quase sem tempo para temer as sombras contorcidas que se formavam pelas grupiaras.

aconteceu como tinha de acontecer. pegou sua trouxa e saiu de casa pulando pela janela. tomou o rumo da lavra, e um pouco antes de lá chegar, tratou de encontrar o carumbé deixado na beira do rio. fez tudo com cautela e precisão. afastou-se do faro do vigia noturno e, subindo ainda mais o rio, chegou próximo ao local. tirou um toco de vela do bolso, acendeu-o, colocou-o dentro do carumbé, e com esse castiçal improvisado flutuando na água, foi por dentro do rio iluminando os barrancos, quase sem tempo para temer as sombras contorcidas que se formavam pelas grupiaras.

dizem os antigos que debaixo do nosso chão, lá nas profundezas da terra, existe um grande cabedal, formado por muito ouro e diamantes, e que bem no centro dessa riqueza está a maior de todas as pedras, um diamante gigantesco, mineral magnético emanando infinita pureza e incalculável ambição entre nós, brilhantes miseráveis.

o que se soube mais tarde foi que o menino levou o maior de todos os diamantes já encontrados naquela lavra, e que antes o escondera entre os cascalhos na beira do rio, e que de nada adiantou a fúria do patrão, que teve de amargar a dor de tal prejuízo em meio às nuvens negras de sua tormenta.

o vento que me foi soprando, me empurrando ao desconhecido, sussurrando aos meus ouvidos que aquele era o meu nascimento.

e o menino cresceu com seus mil tons, cantando as belezas da vida, e transformou-se na voz mais pura que já se ouviu por entre os homens.

vou me encontrar longe do meu lugar. eu, caçador de mim…

e esse foi o começo da história.

minha sede de peixe.

o segredo da voz.

Vítor Kawakami, maio 2020.

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