literatura

a quarta estação

eram ferozes, feras ferozes, que vinham sentiam o piscar dos olhos, as pálpebras dobrando, arrefecendo. nisso que saíram, aos poucos, casais de muitos tipos, os dentes sobrando pra fora, a boca mordida pra dentro, lábios carnudos. vultos ou sombras, aquilo que se espiava, o mudo o mudo barulho que se ouvia. reflexo? o tempo. feras ferozes, aos montes agora, milhões milhares, ao longe. corriam chegavam , isso que sim isso que não. pudera: era noite, noite pouca – início. os casais adormeciam, uns perto outros mais perto ainda. os olhos pequenos deformados. as feras, ferozes feras. pediam comida água carinho. foi-se a noite e o dia se fez firme, um dos sóis ensolarado era quente o dia quente. saíram como chegaram, sem um pio. prontos pra guerra pro ódio? isso que sim isso que não – quem sabe? os dentes sobressalentes, os indícios da carne. a sombra oculta, o vulto seco – armazenado. prestas a tanto, a muito – explodir. eram feras, ferozes feras, umas mais altas, outras mais feias, as narinas retorcendo o ar – puxando mais do que deve soltando além do que pode. em grupos agora, em bandos, o dia já chegando nele mesmo. trombetas que soaram fortes, rasteiras que chegaram perto. surpresa não devia ser. esperavam. feras ferozes agora sim – a permissão. os dentes fortes armados as bocas grandes abertas, soltaram levaram, urros murros e furos, que furaram também. chegavam mais e não aguentaram, logo a retirada. na noite seguinte sobravam mansas, felizes, as estrelas meio que repousavam. tinham notícia? não tinham. a febre o ponto exato – e amanhã? isso que sim isso que não – eram feras ferozes feras, voltaram às duplas, fizeram as pazes: a festa. o dia o frio dia o dia o amargo dia. o próximo rastro da colheita, o último aviso da partida.

Irene Baltazar, março de 2019

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