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O logos de exu e a criação poética

No processo de transcriação de procedimentos da antropologia para a literatura, não pretendemos nos restringir a uma tipologia de poetas, mas analisar o modus operandi que lhes permite desenvolver diferentes modos de relacionamento com o acervo textual de Exu. É evidente que essa proposta hermenêutica nos induz a pensar no poeta a partir de uma categoria ou, como se convencionou em certas fases da história da literatura, a partir de uma escola. Isso também demonstra que, ao analisarmos como alguém faz o quê, ainda que não o queiramos, nos veremos enredados pela armadilha de classificar quem faz o quê. Por isso, na tentativa de suplantar, dentro do possível, os ardis da tipologia de autores, chamamos a atenção para a possibilidade de lidarmos com os diferentes modos, que decorrem das diferentes perspectivas de interpretação de um mesmo fenômeno cultural. Diante disso, a força dialética inerente ao próprio Exu pode ser considerada como um princípio que anima os vários modos de reapropriação de suas representações. Por conta disso, nada impede que encontremos entre os poetas modos similares no trato com o acervo textual de Exu ou que, simultaneamente, anotemos num mesmo poeta modos conflitantes na lida com este acervo. Sugerimos, então, dois conceitos operacionais, que chamaremos respectivamente de Orfe(x)u e Exunouveau e que, uma vez apresentados, nos fornecerão instrumentos para revisitar criticamente os desdobramentos de Exu nas poéticas de autores como René Depestre, Abdias do Nascimento, Jorge de Lima, Nancy Morejón, Ricardo Aleixo e Salgado Maranhão, dentre outros. Em seu livro O Atlântico em movimento, a poeta e tradutora Prisca Agustoni analisa a permanência e a reinterpretação de signos culturais africanos nas poéticas de autores afrodescendentes contemporâneos, que escrevem em língua portuguesa. Ao comparar os modos como alguns desses autores se apropriaram da simbologia de Exu, Prisca Agustoni observou que determinados poetas estabeleceram uma “recriação pessoal e original do mito”, embora tenha se mantido a possibilidade de encontrarmos em seus poemas “marcas explícitas do universo mítico iorubá e referências mais ou menos diretas à sua constituição” (AGUSTONI, 2013: 113). Tal aspecto corresponde ao conceito que chamamos de Orfe(x)u. Por outro lado, Agustoni considerou os procedimentos poéticos que rasuram o mito, gerando um tipo de poema que “não representa uma outra maneira de recontar o mito iorubá” e que, em nossa concepção, corresponde ao conceito Exunouveau. Nesse caso, afirma a autora, torna-se realmente um desafio realizar o mapeamento da origem que teria motivado a escrita do poema: sabemos que o ponto de partida é o mesmo, isto é, o mito de Exu, mas, uma vez que o poeta assume totalmente o seu papel de transformador da palavra e do signo, o texto que decorre dessa transformação se mostra radicalmente afastado do contexto que o originou. (AGUSTONI, 2013: 113) A análise de Prisca Agustoni sugere que do jogo entre as duas perspectivas de abordagem do mito de Exu, mais do que uma polarização, chama nossa atenção a constituição de um lugar discursivo de passagem — nem Orfe(x)u nem Exunouveau, nem reiteração da tradição, nem inovação moderna. Esse lugar discursivo, tal como o próprio Exu, abarca as possibilidades, o vir-a-ser do discurso, do sujeito e do mundo. Essa proposição nos desafia a desenvolvermos processos específicos de compreensão dos fatos sociais, culturais e estéticos, caso tenhamos interesse em vivenciar a práxis do mensageiro entre o ilê e o orun, que consiste na geração de significados derivados das relações dicotômicas Orfe(x)u versus Exunouveau e, também, das relações dialéticas implicadas em combinações dinâmicas, passíveis de serem representadas pelas configurações Orfe(x)u-Exunouveau / Orfe(x)u-Exunouveau, etc. Em termos poéticos, é importante considerar de que maneira essas proposições resultam numa fatura textual concreta, em outros termos, o que se coloca é: que modalidades de poemas decorrem desse viés epistemológico afrodiaspórico? Mais apropriado do que explicitar uma resposta direta a essa indagação, parece-nos pertinente, à maneira dos procedimentos de Exu, vislumbrarmos uma cartografia provisória, que nos permita trafegar por essa tendência poética.

Trecho extraído do livro: Entre Orfe(x) e Exunoveau, de Edimilson de Almeida Pereira e editado em 2019 pela Oca

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