entrevista

Conversa nº8 – Vidi Descaves

encontrei vidi em 2019, tempo em que aglomerações eram possíveis e prováveis, mas muitas vezes não tão felizes. no ano anterior tinha feito uma entrevista com ele que, infelizmente, foi deletada por um erro de comunicação. não tem problema, dessa vez deu certo: o dia era 25 de abril, dois dias depois de São Jorge e no aniversário da revolução dos cravos, grândola vila morena essas coisas. cheguei à casa onde o vidi morava à tarde, na costa barros subindo pra santa teresa. era um dia de sol, o céu azul bem azul – agora não lembro se abril costuma ser assim – e fazia muito calor. conversamos bastante: sobre disciplina e linguagem, viver e morrer, o curioso percurso de vidi até morar no Brasil. sempre tive dificuldade com a imagem, em pensar visualmente o visual, algo que parece tão natural e corriqueiro pro vidi. tudo fruto de puro esforço? talvez alguma parte, com uma grande porção de mistério ali. um dom? “repetir, repetir, até ficar diferente”, nas palavras de manoel de barros, “repetir é um dom do estilo.” aos poucos, o fundo-sem-fundo das cores foi sendo revelado, numa outra postura de reparar o mundo, de persistência e esperança: a necessidade de coisas bonitas e criativas, que nos dão a força e a paciência para enfrentarmos esses momentos tão duros – a distância não-distância da pandemia, o horror iminente da miséria, a imbecilidade doentia do fascismo. vidi é um desses seguindo o invisível, com os ombros suportando o mundo. um artista. é que “nome não dá: nome recebe”, lembrando o bruxo de Cordisburgo.

a presente entrevista foi editada ao som de:

Yamandu Costa – Mafuá (2008)
Berliner Philharmoniker- Pierre Boulez conducts Anton Webern (1995) 
Tristan Murail – Désintégrations (1982-83)
Mercedes Sosa – “Canciones con fundamento” (1965)
Natalia Lafourcade – Musas (2017)

Gabriel Gorini: De primeira seria massa se você falasse um pouco da tua vinda pro Brasil  e um pouco da sua formação. Uma vez você falou que começou a desenhar tarde, mas  talvez você tenha começado a se dedicar  tarde,  antes não tinha  pretensão com o desenho.

Vidi Descaves: Eu vim com treze anos, meus pais decidiram que eu precisava aprender português pra poder fazer uma  universidade aqui no Brasil. A gente chegou e eu queria voltar pra Índia, mas não rolou. Eles também não me avisaram. Se tivessem, teria reclamado antes. Mas é isso. A vinda foi bem difícil pra mim. Não sabia falar português, fui direto pra a 8ª série. Tenho dificuldade de falar sobre o que fiz antes porque, às vezes, parece que desvaloriza meu sentimento que tenho hoje de pertencer ao Brasil, sabe? 

Eu nasci no Japão em 1991. Minha mãe é japonesa e meu pai é brasileiro. Com cinco, seis anos fui pra escola na Índia, lá já desenhava um pouquinho. Mas desenhava muito zueira, muito zueira. Não consigo lembrar de como pensava naquela época. Eram desenhos bem de criança, bem quadrinho, cartum,  olhos grandes.

Ah,  era um internato, né. Os pais mandavam a gente pra lá, depois de uns nove meses a gente voltava pra casa, nossos países. Eu voltava pro Japão. Era sempre Índia nove meses e Japão três meses. De vez em quando nove meses na Índia e  três meses no Brasil. Na segunda, terceira vez, falaram que a gente ia ficar. Acho também que era meio caro ficar mandando a gente pra Índia.  Aí comecei a gostar da cultura do Rio. Não. Mentira. Não gostava muito. Sempre me senti por fora, até a época da faculdade, até levar o desenho a sério. Foi quando comecei a fazer tastequiet. Eu já gostava de desenhar, e conseguia desenhar de alguma forma que me agradava. Mas  nunca levava a sério, sempre desenhava  coisas bem aleatórias. Então com 21 anos  decidi fazer o tastequiet. e a gostar mais do Rio.

G: Mas antes você já tinha desenhado uma revistinha em quadrinho no colégio… 

Vidi: Mas acho que muita gente faz isso, Gorini, é por isso que nem vale mencionar. Mas realmente  fiz um quadrinho na escola, mas eram umas páginas bobas, zoando um amigo… Já é alguma coisa?

G: Não… Faz parte do processo de desenvolvimento. Eu entendo você porque publiquei um livro antes de Marimbondo, mas tinha 19 anos e foram uns poemas que escrevi dos 16 aos 18, e tem coisas que são boas, não desmereço… Mas acho que o primeiro de fato foi o Marimbondo, talvez seja a sua relação com tastequiet. Comecei a  me dedicar num nível mais sério, acho.

Vidi:  Quando você fez Marimbondo?

G: Não, com uns 20, 21 anos, e esses poemas do Marimbondo  escrevi dos 20 aos 24, entendeu? Não sei se você tava falando  nesse sentido.

Vidi: Acho que é exatamente nesse sentido, de levar a sério.

G: Mas como foi esse salto?

Vidi: De fazer o tastequiet?

G: E de levar a sério,  o que diferencia pra você essa ruptura?

Vidi: Cara, sabe que também não sei… Eu via como um exercício tranquilo de fazer. Um desenho por dia. Já desenhava muito e, se você ver os primeiros desenhos, não tinham nenhuma regra, tudo valia.  Comecei a levar a sério bem devagar, fui fazendo todo dia, todo dia, e a pensar “qual será o dia de hoje?”.  Não vai ser qualquer desenho, vamos ver de onde  vou tirar, se vou pensar um pouco mais sobre, pegar um assunto político, emocional, sabe? Comecei a escolher as coisas e pensar, desenvolver as ideias. Sei lá, foi aí que comecei  a levar a sério. Quando comecei a criar as regras,  a desenvolver uma pesquisa de uma linguagem.

Primeira tirinha da série tastequiet, feita no dia 1 de outubro de 2012

G: Você viu um caminho e foi.

Vidi: Eu sou muito motivado por desafios, se você me desafiar eu provavelmente vou tentar fazer. Sempre fui assim, acho que vem de morar na Índia. A gente sempre se desafiava, sei lá, pular de uma árvore, a gente vivia no mato, então tinha essa parada. Tipo, “vai lá, você consegue pular esse buraco?”. Sem pais, né, só a gente inventando regras, vendo quem é mais corajoso, quem consegue fazer coisas mais bizarras. Essas coisas. 

G: Regra é um limite, e essa coisa do limite ser bom pro artista…

Vidi: Cara, acho que funciono assim. 

G: Fico imaginando essa investigação da linguagem, é um processo longo que não termina nunca. E fico pensando que talvez seja mais o reconhecimento desse limite do que, por exemplo… 

Vidi: Não sei se demora,  não acho que seja necessariamente demorado. Pode ser que alguém aprenda rápido. Tem umas pessoas jovens, muito fodas, que conseguiram desenvolver uma linguagem rápido, enquanto eu acho que demoro até bastante. Sei lá… É muito trabalho. É a quantidade de trabalho que você investe que faz ir mais rápido ou devagar. Desculpa, te cortei. É porque isso do tempo, a galera fala, “você desenha, você tem talento,  você nasceu pra isso”. Esse papo é muito louco, né?

G: É porque é um engano você falar depois como se fosse o antes. Como se tivesse uma projeção já desde o início… Mas tu acha que tem?

Vidi: Sempre achei que não. Mas e esse negócio do Sued?¹ Eu não conhecia o cara e ele foi tão influente pra mim. Como é que foi influente só por essa parada, essa semente que passa de geração em geração, de sangue. Esse papo aí eu ainda não entendo muito bem, tem coisas que não posso nem…

Sem título, 1988, obra do artista visual Eduardo Sued

G: E esse papo de outras vidas? Caô?

Vidi: Eu tentei desenhar uma vez no tastequiet mas não consegui. O que acontece quando você morre, ou minha imagem disso. Não consegui.

G: E o que acontece quando você morre?

Vidi: É um desenho assim, seria… Cara, se achar esse desenho eu posso te mostrar.

G: Desenha aí agora, um rascunho.

Vidi: Pode demorar. 

G: Tudo bem.. Posso filmar? Mas eu tenho que parar a gravação. Pode ser? Daqui a pouco a gente volta?

Vidi: As suas partículas, a sua alma, se desintegram e passam a fazer parte de qualquer coisa: da madeira, de tudo, não só na próxima vida, mas de tudo. As plantas… Não tem essa coisa “eu continuo durante as vidas”, não, você se dissipa. 

G: A personalidade é uma mentira?

Vidi: Não se a gente quiser, escolhe fazer. Mas é bobo pensar que vou conseguir  melhorar coisas do universo, ser zen ou ter paz e felicidade no céu como se  continuasse, sabe? Acho que a vida é um momento que poucas partículas podem ter, é uma junção específica e aí elas se desintegram e continuam a fazer parte do todo. Só que as partículas se organizam.

Imagem do segundo tastequiet feito por Vidi.

G: Falando da coisa do Sued também, tem um poema do Drummond que fala assim “porque de tudo fica um pouco, fica um pouco do teu queixo no queixo da tua filha”.

Vidi: É isso mesmo.

G: É uma continuidade que é muito anterior não só no sentido temporal, mas estrutural… Hoje em dia me olho no espelho e falo assim, sou igual a meu pai quando ele era jovem, igual.

Vidi: É louco, tenho pensado nisso também.

G: Mas não, também não… Claro, existe uma continuidade imposta mesmo e a gente começar a se reconhecer é uma parte da maturidade também. 

VidI: Eu acho que a dificuldade de você reconhecer seu pai, sua imagem… Muito difícil, mas realmente, quando você consegue, você matura. 

G: Mas vamos falar do tastequiet especificamente agora.

Vidi: Quer pegar o livro? Tá ali ó.

G: Pode ser. Então, tem essa coisa de você não colocar referências culturais. Mas  ainda  é  uma investigação de figura, sabe? 

Vidi: Figura?

G: É, e também não é uma forma sem enredo.

Vidi: Acho que entendi. Porque pra mim quadrinho é uma coisa palatável. Na verdade, acho que a única coisa contínua entre os trabalhos que fazia quando era pequeno e agora é de fazer uma coisa palatável. Hoje tô começando a sair disso, começando a pensar que precisa ser o suficiente pra transmitir uma mensagem.

G: Tem que ser ela por ela mesma, né. Tava pensando nisso outro dia, um poema pronto, quanto mais forte ele é, mais concentrado, chamo de concentrado…

Última tirinha feita antes da publicação dessa entrevista, da terceira vez do tastequiet.

Vidi: Simples?

G: É simples, mas é a simplicidade do concentrado. Independente de mim, sacou? E esse mim desaparece, porque ele já se torna uma possibilidade aberta. Mas ao mesmo tempo, quando você vê uma coisa criativa, o que você sente como espectador, é também a sua própria criatividade sendo feita naquilo.

Vidi: Legal. Concordo totalmente. Quando você olha pra essa imagem, sua mente cria e começa a imaginar como será que foi feito, imagina essa cena, de onde essa cena… Por isso que é muito bom se cercar por coisas criativas, e é uma tristeza quando você vai pra um lugar e a pessoa fica o dia inteiro sem nada criativo no seu entorno. Você olha pra isso aqui e fica “como que o cara desenhou isso, ele tava olhando pra ela? Como será que elas eram?”  Eu gosto muito do tastequiet porque pra mim tem uma abertura, é totalmente vazio, é uma estrutura feita pra pessoa que vai olhar se colocar lá, se vestir. É um esqueleto. É um esqueleto esperando ser preenchido por uma vivência, por uma vida.

Essa imagem estava colada na parede do Vidi. Retrata Isadora Duncan dançando. Disponível aqui.

G: Uma experiência, uma personalidade. Não sei se personalidade é um nome certo.

Vidi: Por uma pessoa.

G: Mas e como é que foi a disciplina? De você todo dia desenhar um quadrinho. 

Vidi: De onde que veio? Vi um documentário sobre scratch², eles pegavam vinis e faziam competições. Acho que nos anos 80. Um cara que não conseguiu passar, tinha ido bem mal, ficou boladão: “vou me trancar na minha casa e vou ficar fazendo isso todo dia durante um ano.” E ele fez isso durante um ano.  Nesse documentário aparece a mãe falando que foi um saco, que o cara não saía do quarto. Muito engraçado. Depois ele competiu, competiu, ganhou tudo. Se tornou o melhor.  Vi esse vídeo e achei engraçada a ideia de fazer todo dia e nessa época eu tava entediado, me achando preguiçoso, não tava levando a vida a sério. Aí decidi, vou fazer um desenho por dia durante um ano, da mesma forma que aquele cara fez. Me desafiei, entendeu? Foi isso. 

Cartaz do filme Scratch (2001), dirigido por Douglas Pray

G: E como era? Você desenhava muitas vezes durante o dia?

Vidi: Seria bom te mostrar os cadernos, mas tô sem. Eu desenhava muito. Qualquer ideia era anotada. Imagina a quantidade de ideias, imagina se seu trabalho é esse: ter ideias.

Você olha pro mundo procurando ideias, e só anotando, anotando. A coisa da inspiração, onde tem inspiração pra fazer todo dia, você tem que se cercar por coisas criativas, ler muito, ver muito, e com esse olhar de procurar coisas que te inspiram. Não só coisas que te agradam, e te deixam “ah, que bonitinho”, mas procurar as coisas que realmente te instigam a pensar. E aí fazer todo dia.

Página de um caderno de rascunho do tastequiet

G: Mas esse negócio de inspiração, Vidi, você sente às vezes que tem uns desenhos que são mais fortes porque foram movidos por alguma coisa, sei lá, de alguma maneira transcendente que vem, que atravessa você ou todos os desenhos são fortes igualmente e frutos de trabalho árduo?

Vidi: Trabalho árduo nunca vou dizer, porque meu trabalho não é árduo, comparado a um trabalho braçal. Mas com certeza. Teve uma época que eu tava completamente sem inspiração, esgotado. Tinha muitas ideias no caderno mas nenhuma me agradava. Foi uma semana lançando desenhos que não gostava. Falei pra minha amiga que  tava sem inspiração. Ela falou “por que você não só pega um monte de papel e fica desenhando qualquer coisa que vier na cabeça? Só bota tudo pra fora.” Comecei a fazer isso, e percebi que não fazia há muito tempo. Cara, desenhei muito! Comecei a chorar, a sentir muito forte tudo, aí veio uma ideia que acho uma das melhores do segundo livro. Essa ideia foi tipo quando seca a cola na abertura da garrafa e você fica apertando aí um dia, pow, sai. Mas precisa ficar apertando, tem que tentar muito! Não pode ficar desacreditado porque tentou uma, duas vezes e não saiu um desenho legal.

G: Esse é concentrado.

Vidi: Muito complexo de desenhar essa ideia.

G: Foi o seu processo. Foi exatamente o que você tava comentando, de ter muita coisa no fundo concentrada e de repente… É maneiro que vem de dentro, não de fora. Mas como é essa diferença do primeiro tastequiet pro segundo?

Vidi: Tem três anos entre um e outro, né? Não sei, é bem diferente, tava em outro lugar.

G: Mas quando você terminou o primeiro você pensou que ia fazer o segundo em algum momento?

Vidi: Não, acho que não.

G: Você começou a viajar em retrato de aquarela…

Vidi: Eu tava tão cansado de desenhar quadrinho que queria desenhar o que tava vendo, parar de pegar ideias da cabeça. Não sei, experimentar outras formas, uma forma de desenhar totalmente oposta.

G: É, ia perguntar isso também como você desenhava. 

Vidi: Qualquer desenho eu fazia o lápis primeiro. 

G: Mas aquarela não é assim…

Vidi: A aquarela foi uma coisa que eu queria buscar, queria alguma coisa diferente do que tava fazendo. Comecei pela cor, ver as cores das coisas. Em vez de ver você como pessoa, ver você como cor, ver você como formas, ver você como outra coisa, e tentar não ver do jeito tastequiet, que é tipo, você é uma pessoa em cima de uma cadeira. Ver como tudo é só cor.  Não sei porque tanto retrato, mas é uma coisa que me…

G: Rosto, né, muito rosto.

Vidi: É, é. Uma pessoa. Tem muita informação emocional, eu gostava disso, não queria desenhar uma cadeira porque não tinha aquela carga. É por isso que faço retrato, gosto da carga entre duas pessoas quando eles se sentam um na frente do outro. Mas é isso, comecei a pintar aquarela desse outro jeito, que é não tentar dividir com uma linha, sabe? É isso que você falou mesmo, da linha.

G: Mas só voltando àquela parada, ainda é uma imagem muito figurativa, entende o que tô falando? Não é abstrato. 

Vidi: No tastequiet?

G: Em tudo, no tastequiet, e aquarela também, tudo é cor, mas não é a cor chapada, mas não são… É o rosto de uma pessoa, sacou? 

Vidi: Não é abstrato. Acho que a minha dificuldade é porque, como te falei, tentava fazer uma coisa palatável, e é uma coisa a qual ainda me sinto preso. Sinto que se eu for pro abstrato talvez perca isso. Tenho feito colagens, que acho ainda mais abstrato. Mas tipo, aquilo é abstrato? Quase… Não é. Porque não consigo largar a parada ainda. 

G: De não ser entendido? De não comunicar?

Vidi: Não, de não ser atraente, de não ter… Não é nem comunicar, é da galera não querer. Porque comunicar sempre vai comunicar, se eu colocar um esqueleto sangrando sangue em cima de sei lá o quê, vai comunicar, mas não vai ser atraente. Pra alguém com certeza vai ser… E eu também quero passar uma vibe boa, fazer coisas que só podem ser interpretadas de uma forma boa pra qualquer pessoa do universo, que passem um questionamento. Eu tinha muita preocupação com isso. 

G: Agora você foi da aquarela pra colagem, cansou da aquarela também? Chegou na saturação? 

Vidi: Minha pesquisa não é mais na aquarela, mas continuo fazendo. Acabei de fazer agora, fui pra uma praia em Paraty. Ponta negra, fiz retratos das crianças de lá.

G: E como foi essa experiência?

Vidi: Muito boa, cara. 

G: O retrato tem muito apelo, né?

Vidi: Palatável.

G: E é o apelo de você ter um objeto pra dar pra pessoa e ter ela ali.

Vidi: É isso, por mais que minha pesquisa não seja mais na aquarela, eu amo fazer por causa dessa carga. 

Sem título, 2018

G: Mas você diz que sua pesquisa não é mais nesse sentido porque esgotou?

Vidi: Nunca vou conseguir chegar no final de nenhuma pesquisa, então por que não mudar logo? Eu tenho que escolher. Se for retratar: aquarela ou colagem? 

G: E a onda da colagem, de fazer rápido e ressaltando mais a cor.  Bem de leve dá pra ver um rosto, só que se você observar parecem ser coisas meio aleatórias.

Vidi: Abstratas, né? Porque cada pedaço de papel não tem nada a ver com a forma final. Tipo aquarela. Quando você pinta, se você olha pra forma em si, não vai parecer um olho, mas se você olha de longe, aquela coisinha que tá ali, junto com aquele negócio que tá ao lado, vira um olho. Com colagem é ainda mais isso. Se você usa esse pedaço aqui pro seu rosto, isso aqui em si é nada, é só um pedaço de papel. Agora, quando você coloca num contexto fica outra coisa. Tenho um interesse grande na composição também, talvez deva ser um dos maiores interesses que tenho, acima da cor. É composição. Quando você pensa em composição, você esquece que é uma pessoa, você esquece que é uma situação, você só vê, só pensa visualmente a relação entre os elementos visuais.

G: Sempre me atraí muito pela palavra compositor. Pra tudo, pra música, pra escrever, porque o compositor é alguém que está pegando coisas do ambiente. Você tá participando, não é afastado da criação.

Vidi: Compositor é a palavra perfeita, como nunca pensei nisso? Acho que sou um compositor. Gostei muito disso.

Sem título, 2018

G: O Egberto Gismonti fala que ele não é um compositor, ele é um apontador, porque escreve o que escuta, algo nesse sentido. Ele fala da coisa da gratuidade, você chegar num nível que seja só passagem… Talvez, é a minha interpretação…

Vidi: Cara, queria poder muito só me dedicar à minha pesquisa, imagina se você pudesse? A gente ia muito longe.

G: Mas acho que estamos procurando isso.

Vidi: Não acho que tenho tempo hoje em dia pra pesquisar isso… Eu trabalho em várias coisas. 

G: Mas é isso, tem que fazer, Nelson Rodrigues falava que escrevia as melhores peças depois de doze horas na redação. Mas tem esse lugar também, de se dedicar à sua realização.

Vidi: Eu sinto que tô em pausa. Entre… Não sei, tô fazendo muita coisa. Tô fazendo dança também, mas muito picotado, várias coisinhas separadas que me alimentam, mas nenhuma é minha pesquisa pessoal.

G: É sua pesquisa de viver.

Vidi: Que é maravilhosa, eu agradeço muito por viver no Rio.

SEM CAVERNA, espetáculo do grupo Anbaca Duiu Jojuvi, 2019

G: Por quê?

Vidi: Porque acho que você vive, me sinto vivo pra caralho, por mais que seja um absurdo, bizarro, perigoso. Com certeza tenho esse privilégio. Mas todas as tensões, todas as coisas… A situação intensa. A vivência no Rio é rica. Talvez não seja rica financeiramente, mas é muito em convivências e experiências… E viver desse jeito, com essas merdas acontecendo, e tendo esse objetivo de “vamos melhorar as coisas”. As pessoas se tornam mais legais uns com os outros, né? Se fortalecem.

G: Parece que a gente tá vivendo uma coisa importante?

Vidi: Muito mais do que na Europa com certeza. 

G: Mas você diz no sentido da criatividade, de te inspirar mais?

Vidi: Não tô falando nem de arte. De vida mesmo. Mas realmente, isso é a coisa mais inspiradora possível, viver aqui. Se a gente decidir ir amanhã pra algum lugar mais calmo, só o tempo que a gente viveu aqui vai ser muito material pra gente desenvolver lá. 

G: Mas então vamos voltar a essa coisa de viver mas nesse sentido mais estrito, e na discussão sobre profissionalização do artista. Quer dizer, mesmo que você não trabalhe com a pesquisa que mais quer, você faz sempre coisas relacionadas a esse ofício. Sei lá, vender os seus desenhos, vender os cadernos, fazer livros. 

Vidi: É que eu faço bem, né.

G: Mas essa técnica te dá também umas condições pra realizar um outro nível. Talvez se você só pesquisasse, desenhasse, você não teria condições de saber fazer esse livro aqui (tastequiet) em casa, encadernar e fazer uma boneca bonita pra saber como vai ficar. Essa liberdade que a técnica, no bom sentido, te proporciona. A galera sabe fazer as músicas mais experimentais mas não sabe fazer uma canção que as pessoas cantem junto, ou as pessoas querem escrever os poemas mais doidos mas não sabem fazer dois versos que sejam simples e sei lá, essa coisa palatável, no bom sentido também. Acho que a técnica, entendendo as limitações só da técnica também, mas acho que esse estudo de adquirir disciplina, de desenhar todo dia, é também adquirir a liberdade fazer exatamente aquilo que… Ou quando você vai escrever, fazer música, você fazer exatamente aquilo que tá escutando, que tá vendo. Não no sentido de ser idêntico, mas de só deixar passar, e só deixar… E, na arte, a técnica talvez tenha uma parte importante nisso, mesmo muito negligenciada hoje em dia. É você ter essa liberdade mesmo, da sua própria linguagem, da sua própria vida. 

Vidi: Sim, de saber fazer. Ter um domínio sobre alguma coisa faz com que você possa trabalhar com essa coisa.

G: E agora tem os objetos mais esculturais.

Vidi: É, ainda não chamo de escultura.

G: E foi natural a partir da colagem?

Vidi: Muito natural. De aquarela pra colagem também. 

Colagem/escultura que Vidi fez no dia da entrevista.

G: Você tava observando alguma coisa?

Vidi: Quando fiz? A mesma coisa, retrato. É uma onda com essa carga. Consigo ver uma linha sua e relacioná-la a um certo aspecto da sua personalidade, entendeu? 

G: É quase um poder mágico…

Vidi: Então se eu ver uma linha no seu rosto e desenhar, tô marcando aquela linha que tem a ver com aquela coisa. Mas não é só uma linha. Linha é mais simples. Cores que vejo no seu rosto, amarelo, verde, qual tipo de verde, qual tipo de azul? Como que eu faria seu bigode, barba? Tudo tem a ver com um aspecto, com uma interpretação possível, posterior. Então são só formas no final das contas, não são linhas, não tem nada definido, nada é muito claro, na real. São formas que se sobrepõem e criam seu rosto. É só perspectiva, formas em cima de outras, que criam sombras também.

G: Você disse que tava fazendo quadrinho… 

Vidi: Você viu? Eu te mostrei? 

G: Não.

Vidi: Cara, só pra você ter uma noção da quantidade de trabalho que fiz, é bizarro. Não consigo entender porque não continuo esse negócio.  

G: E a história é sobre o quê?

Vidi: Sobre um escritor que quer escrever sobre o diabo, mas não sabe como. Um amigo dele fala “se você quer escrever sobre o diabo você tem que procurá-lo”. Então ele vai… É isso. Eu preciso de bastante tempo pra terminar.


¹ Vidi tinha acabado de descobrir que o artista visual Eduardo Sued era seu avô.
² Scratch é uma técnica musical utilizada para produzir sons ao “arranhar” o disco de vinil para frente e para trás repetidas vezes para produzir sons percussivos ou rítmicos. (Wikipedia)

USINA, fevereiro de 2021

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