literatura

o segredo da voz – conto de Vítor Kawakami

o segredo da voz

conto de Vítor Kawakami

o primeiro canto que eu me lembro de ter parado para escutar foi o da cigarra. toco de gente pelada, à beira do poção onde nós meninos virávamos peixes sedentos em meio à algazarra. eu devia ter uns três anos ainda, mas tenho bem presente em meu corpo aquele som riscando os ouvidos: sim, com meu corpo todo que me lembro daquele momento, pois o zunido me atravessava por inteiro, e assim tive minha primeira vibração, minha ressonância inicial. a partir de então, percebi que alguns sons me punham como que em transe. mãe me obrigava a levar o almoço para vovô que trabalhava rio acima. eu ia sempre excitado, pois sabia que ao chegar à lavra, caso desse sorte, podia ouvir a jangada secando água. êxtase ao meio-dia. tom fundamental. Continue reading »

literatura

Os Santinhos da João Afonso – conto de Alice Nin

Os Santinhos da João Afonso

conto de Alice Nin
 
Coloco os pés na luz e os olhos no chão da rua. Assim bem cedo, ou mais tarde, às vezes apressada, ando olhando para baixo, para frente, e para os lados. Antes que acabe essa minha pequena rua de paralelepípedo percebo que o chão está cheio de pequeninos pedaços de papel. Alguns bem pisoteados outros intocados. São santinhos, imagens estáticas me olham e forram não só o chão, como o vidro dos carros e os fundos das caixas de correspondência. Nunca tem dois santinhos diferentes no mesmo dia, quando é dia de nossa senhora, é dia de nossa senhora. Não é aconselhável confundir os santos Continue reading »

Notas sobre a ninguendade – ensaio de Guilherme Maralhas
pensamento

Notas sobre a ninguendade – ensaio de Guilherme Maralhas

Notas sobre a ninguendade

ensaio de Guilherme Maralhas
 
Existe uma questão que antecede todas as outras. Às vezes a sentimos com clareza, nos desafiando; outras vezes só podemos suspeitá-la, abafada pelo alarido de um mundo cada vez mais técnico e informático. É certo que quando falamos em uma questão primeira, que antecede às outras, não é no sentido cronológico; ela não é uma questão que questionamos antes de todas as outras, é a questão que não podemos deixar de questionar em cada questionamento. Continue reading »

tradução

Arte Individual – tradução de manifesto de Edith Södergran por Cecília Schuback

Arte Individual

tradução de manifesto de Edith Södergran por Cecília Schuback
 

O nome Edith Södergran deve soar estranho para ouvidos brasileiros. É desconhecido em todos os seus sentidos: tanto por não se saber quem é essa Edith como também pela fonética estranha, bizarra e até engraçada desse nome sueco. Edith, vindo do inglês Eadgyth, significa « guerreiro orgulhoso », enquanto Södergran diz, em sueco, « pinheiro do sul ». A pessoa Edith Södergran não é uma sueca típica, mas representa bem o seu nome. Em sentido poético, foi uma guerreira orgulhosa da taiga, pertencente aos pinheiros do sul: sempre buscando alcançar novos horizontes com as suas frases, palavras e imagens.
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Conversa nº7 – Lucas Lugarinho
entrevista

Conversa nº7 – Lucas Lugarinho

Conversa nº7 – Lucas Lugarinho

 

vi lucas lugarinho poucas vezes na minha vida, talvez duas ou três. a última delas há aproximadamente cinco anos atrás, no início do processo da USINA impressa. agora, num já longínquo 2019, conversamos à distância, pela internet: ele em algum bairro que não conheço da cidade do méxico e eu em copacabana, na casa do arthur. lugarinho vive no méxico faz uns anos e talvez não seja à toa que nosso contato tenha virtual, como se fizesse mais sentido tratar dessa maneira algo que aparece com frequência em suas meditações: a encruzilhada entre virtual e real, simulação e verdade. Continue reading »

O Homem Correndo na Savana – Guilherme Vaz
instantâneos / música

O Homem Correndo na Savana – Guilherme Vaz

Guilherme Vaz, mineiro de Araguari, foi um artista, pensador e músico experimental brasileiro. Precursor da arte conceitual e sonora no país, foi também responsável pela introdução da música concreta no cinema nacional. Formado pelo projeto original da Universidade de Brasília, do qual sempre foi entusiasta. Também se envolveu com o Grupo de Compositores da Bahia, em Salvador e participou da Unidade Experimental do MAM, no Rio de Janeiro. Continue reading »

É possível ser otimista numa pandemia?
pensamento

É possível ser otimista numa pandemia?

É possível ser otimista numa pandemia?

Ensaio de Arthur Aguillar

 
Vivemos uma crise global, com um potencial de letalidade semelhante às grandes guerras. O impacto da crise, duplo, econômico e sanitário, expõe de maneira clara as contradições e sensibilidades no nosso modo de vida: a vulnerabilidade dos trabalhadores informais e da gig economy; a demanda por um Estado presente num mundo que rejeita o público e aquilo que é comum; o conflito e a sobreposição entre fato e opinião; nossa relação, tão confusa, com a carne, com os nossos e com a alteridade. Continue reading »

O Homem Correndo na Savana / AnhangueraParanaíba
fragmentos / pensamento

O Homem Correndo na Savana / AnhangueraParanaíba

“Não sabemos o que está por trás do som de um paneiro de couro amarrado ao tronco oco de madeira. Sabemos apenas que seu som nos faz estremecer. Portanto não sabemos nada de coisa alguma e a História da música e do Homem ainda não começou. Todos estão à margem da Arte, da história e do conhecimento apesar de falarem muito e de escreverem muito. A música nasce dos instrumentos, da voz dos pressentimentos e dos sonhos, mas o homem insiste em vê-la nascer do papel.” Continue reading »

Conversa nº6 – Gabriela Cordovez
entrevista

Conversa nº6 – Gabriela Cordovez

Conversa nº6 – Gabriela Cordovez

 

encontrei com a gab ali perto do ccbb, em abril de 2018, no mesmo lugar que um tempo antes tinha encontrado o jandir jr. sentamos num banco perto do que um dia foi a pira olímpica e, com calma, conversamos… conheci a gab no início da faculdade, ali no largo de são francisco. ela andava dançando pelos corredores do IFCS. não uma dança óbvia e nem espetacular, muito menos consciente (no seu sentido mais técnico): uma dança que era um andar, um passo atrás do outro – de quem caminha assim mesmo, dançando. Continue reading »

Vida, Capitalismo e Literatura: alguns apontamentos – ensaio de Priscila Alba
pensamento

Vida, Capitalismo e Literatura: alguns apontamentos – ensaio de Priscila Alba

Vida, Capitalismo e Literatura: alguns apontamentos

Ensaio de Priscila Alba

 
Como começar? Como começar um mundo, ou antes, como começar em um mundo que parece se aproximar do fim? Por que começar? Estas não são apenas perguntas que fazem o pensamento girar, são perguntas que estão na ponta dos dedos, e quando elas circulam como sangue pelo corpo, quando elas deixam de ser apenas pensamento para serem perguntas-letras, algo da resposta já se insinuou… Continue reading »

Verdade e ponto de vista – ensaio de Priscila Alba
pensamento

Verdade e ponto de vista – ensaio de Priscila Alba

Verdade e ponto de vista

Ensaio de Priscila Alba

 
Em um mundo de não-senso, ou seja, de sentido desprovido de sentido que, nem por isso, se apresenta como ausência, mas ao contrário, que assume a totalidade do poder ser, ainda que se torne um poder ser que aniquila o próprio sentido, é preciso que, como Platão, saibamos reconhecer as ambiguidades e as falsidades da e na dinâmica histórica. Continue reading »