literatura

Os Santinhos da João Afonso – conto de Alice Nin

Os Santinhos da João Afonso

conto de Alice Nin
 
Coloco os pés na luz e os olhos no chão da rua. Assim bem cedo, ou mais tarde, às vezes apressada, ando olhando para baixo, para frente, e para os lados. Antes que acabe essa minha pequena rua de paralelepípedo percebo que o chão está cheio de pequeninos pedaços de papel. Alguns bem pisoteados outros intocados. São santinhos, imagens estáticas me olham e forram não só o chão, como o vidro dos carros e os fundos das caixas de correspondência. Nunca tem dois santinhos diferentes no mesmo dia, quando é dia de nossa senhora, é dia de nossa senhora. Não é aconselhável confundir os santos Continue reading »

Notas sobre a ninguendade – ensaio de Guilherme Maralhas
pensamento

Notas sobre a ninguendade – ensaio de Guilherme Maralhas

Notas sobre a ninguendade

ensaio de Guilherme Maralhas
 
Existe uma questão que antecede todas as outras. Às vezes a sentimos com clareza, nos desafiando; outras vezes só podemos suspeitá-la, abafada pelo alarido de um mundo cada vez mais técnico e informático. É certo que quando falamos em uma questão primeira, que antecede às outras, não é no sentido cronológico; ela não é uma questão que questionamos antes de todas as outras, é a questão que não podemos deixar de questionar em cada questionamento. Continue reading »

tradução

Arte Individual – tradução de manifesto de Edith Södergran por Cecília Schuback

Arte Individual

tradução de manifesto de Edith Södergran por Cecília Schuback
 

O nome Edith Södergran deve soar estranho para ouvidos brasileiros. É desconhecido em todos os seus sentidos: tanto por não se saber quem é essa Edith como também pela fonética estranha, bizarra e até engraçada desse nome sueco. Edith, vindo do inglês Eadgyth, significa « guerreiro orgulhoso », enquanto Södergran diz, em sueco, « pinheiro do sul ». A pessoa Edith Södergran não é uma sueca típica, mas representa bem o seu nome. Em sentido poético, foi uma guerreira orgulhosa da taiga, pertencente aos pinheiros do sul: sempre buscando alcançar novos horizontes com as suas frases, palavras e imagens.
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poesia

Árvore

Árvore

por Manoel de Barros

 

Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhe ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul.
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poesia

Poema

Poema

por Orides Fontela

 

Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
‒ habitar sua estrela
impiedosa.

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

‒ e profaná-lo, dissolvê-lo
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀em palavras. Continue reading »

poesia

Cidade prevista

Cidade Prevista

por Carlos Drummond de Andrade

 

Guardei-me para a epopéia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto do Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na vila oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos. Continue reading »

Conversa nº7 – Lucas Lugarinho
entrevista

Conversa nº7 – Lucas Lugarinho

Conversa nº7 – Lucas Lugarinho

 

vi lucas lugarinho poucas vezes na minha vida, talvez duas ou três. a última delas há aproximadamente cinco anos atrás, no início do processo da USINA impressa. agora, num já longínquo 2019, conversamos à distância, pela internet: ele em algum bairro que não conheço da cidade do méxico e eu em copacabana, na casa do arthur. lugarinho vive no méxico faz uns anos e talvez não seja à toa que nosso contato tenha virtual, como se fizesse mais sentido tratar dessa maneira algo que aparece com frequência em suas meditações: a encruzilhada entre virtual e real, simulação e verdade. Continue reading »

poesia

Os acontecimentos e os dizeres

Os acontecimentos e os dizeres

por Adélia Prado

 

Quem está vivo diz:
hoje às três horas padre Libério
dá a bênção na Vila Vicentina.
Ou assim: coisa boa é um banho.
Ou ainda: casamento é coisa muito fina.
Eu achei tanta graça quando aprendi a dar nós,
fiquei cheia de poder.
Entendi depois o que queria dizer:
“Toda convicção é apostólica”,
fiquei cheia de espanto.

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O Homem Correndo na Savana – Guilherme Vaz
instantâneos / música

O Homem Correndo na Savana – Guilherme Vaz

Guilherme Vaz, mineiro de Araguari, foi um artista, pensador e músico experimental brasileiro. Precursor da arte conceitual e sonora no país, foi também responsável pela introdução da música concreta no cinema nacional. Formado pelo projeto original da Universidade de Brasília, do qual sempre foi entusiasta. Também se envolveu com o Grupo de Compositores da Bahia, em Salvador e participou da Unidade Experimental do MAM, no Rio de Janeiro. Continue reading »