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Haroldo de Campos

Poética Sincrônica

“Todas as idades são contemporâneas. (. . .) O futuro começa a se agitar no espírito de alguns poucos. Isto é especialmente verdadeiro no caso da literatura, onde o tempo real independe do aparente, e onde muitos mortos são contemporâneos de nossos netos, enquanto que muitos de nossos contemporâneos parece que já se reuniram no seio de Abraão ou nalgum receptáculo mais adequado. (…) Necessitamos de uma ciência da literatura que pese Teócrito e Yeats numa mesma balança, e que julgue os mortos enfadonhos tão inexoravelmente como os enfadonhos escritores de hoje, e que, com equidade, louve a beleza sem referência a almanaques.”

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O Sequestro do Barroco

“Poderemos imaginar assim, alternativamente, uma história literária menos como formação do que como transformação. Menos como processo conclusivo, do que como processo aberto. Uma história onde relevem os momentos de ruptura e transgressão e que entenda a tradição não de um modo “essencialista” (“a formação da continuidade literária, – espécie de transmissão de tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo”, como ela é concebida na Formação por Antônio Candido), mas como uma “dialética da pergunta e da resposta”, um constante e renovado questionar da diacronia pela sincronia.”

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Virada Sincrônica e Vanguarda

O descobrimento, ou, por assim dizer, a ‘invenção’ de precursores é um dos corolários mais significativos da visada poética sincrônica. John Cage (Silence) cita a resposta do pintor De Kooning aos que lhe perguntavam que artistas do passado o haviam influenciado: ‘The past does not influence me; I influence it‘. E Jorge Luis Borges: ‘No vocabulário crítico, a palavra precursor é indispensável, mas teríamos de purificá-la de toda conotação polêmica ou de rivalidade. A verdade é que cada escritor cria os seus precursores. A sua obra modifica a nossa concepção do passado como há de modificar a do futuro’ (Kafka y sus Precursores).”

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Texto e História

“Enquanto o scholarship acadêmico se perde por exemplo em discutir se Gregório foi plagiário de Gôngora e Quevedo (plagiário, um poeta do qual não se conhecem manuscritos autógrafos, por ter traduzido para o português o intrincado labirinto gongorino, quando um dos brasões de glória de Ungaretti é ter feito coisa semelhante para o italiano?) Um poeta que compreendeu tão bem a matriz aberta do barroco, que soube recombinar ludicamente em nossa língua, num soneto autônomo – verdadeiro vértice de um sutil “diálogo textual” – versos-membros de diferentes sonetos do poeta cordovês? Um poeta que, com o ousado senso de hibridismo que também se encontra em nosso barroco plástico, miscigenou seu instrumento com elementos de caldeamento tropical (tupinismos, africanismos), levando a discórdia concors barroquista à textura mesma de sua linguagem?”