pensamento

Emmanuel Carneiro Leão – Ócio e Negócio

Como a Liga de Pitágoras e a Academia de Platão, também a universidade foi, até a Idade Moderna, uma comunidade de culto. Culto de quê? Na Antiguidade, o culto era das musas. Na reabertura da Academia pela imperatriz Athenais Eudócia e na Idade Média, o culto era da religião cristã. Todas, porém, eram comunidades que cultivavam o ócio.

Em grego, ócio é scholé, que deu em latim schola, em alemão Schule, em inglês school, em francês école, em português, escola. Assim, a experiência inaugural da universidade não é diretamente de aprendizagem, estudo e pesquisa, no sentido moderno, mas de ócio, no sentido da Antiguidade clássica. E o que deve ter sido a experiência grega e romana do homem para o ócio assumir toda a extensão e profundidade da escola na universidade?

O significado depreciativo de ócio, ocioso e ociosidade é moderno e provém de uma inversão do princípio que, até a Idade Moderna, tinha regido o processo de realização humana. Em que consistiu essa inversão? Em latim, uma maneira de se dizer o contrário e de se negar é antepor, por prefixação, ao substantivo a partícula nec. O não ócio é, pois, nec-otium, o negócio. Ora, negócio dizia para um romano como a-scholia para um grego, o trabalho e esforço de uma ação transitiva que, aplicada a uma coisa, produzia outra.

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles exprime a relação entre ócio e no desempenho ontológico do homem numa forma lapidar: “negociamos para ter ócio” (1177b)! E, na Política, o mesmo Aristóteles dá a fundamentação: “o ócio é o eixo em torno do qual gira realização humana” (1337b). Esta subordinação do negócio ao ócio reinou, como no princípio ético de toda a existência ocidental, até a Idade Moderna.

Com o mundo moderno é que se inverteu o princípio e, então, temos ócio para negociar. A fase final desta inversão encontramos hoje no virtual, na clonagem e no reprocessamento de tudo e de todos. A meta é sempre produzir tudo, inclusive as condições que tornam possível a própria produção. Com e na produção total, o homem moderno vive uma determinação bem precisa do real e dá uma decisão bem definida à história humana. A suposição de seu espírito é de que tudo resulta do trabalho de uma racionalidade instrumental e de que o trabalho da razão é capaz de tudo produzir, o real e o irreal, o bem e o mal, a verdade e a não-verdade, o ser e o nada.

É por isso que, para ser moderna mesmo, a modernidade teve de transformar-se numa avalanche histórica que tudo atropela e tudo opera de acordo com a virtualidade de sua própria fisionomia. Este atropelamento é a forma mais radical de que se veste hoje a subordinação do ócio ao negócio. Para tanto teve-se de alterar a determinação pré-moderna do conhecimento como aceitação do real e transformá-lo na pesquisa de uma ciência de produção do real. São três os processos desta transformação.

O primeiro processo é que todo conhecimento ou produz o real ou não é ciência mas ideologia. Scire est posse: conhecer é poder! Quais as implicações de se reduzir conhecer a produzir? Não há intuição intelectual! Na intuição sensível, quando vemos uma rosa, exercemos, de certo, uma atividade. Mas trata-se de uma atividade de acolher e aceitar a realidade da rosa. Na percepção, nós recebemos o real nas sensações e nos sentimentos de nossa sensibilidade. E somos tocados e tão mobilizados pela rosa que a respeitamos e a deixamos ser rosa, sem intervenção de espécie alguma. Outra, bem outra, é a atitude da ciência ao observar a rosa. A rosa deixa de ser rosa para enquadrar-se numa classe, num gênero, numa espécie, numa família ou para submeter-se a um experimento e transformar-se num perfume, num chá ou num arranjo. Pesquisa é a busca do poder de produção total, interpretação é acolhida do dom do real. Na percepção abrem-se os olhos para se acolher a realidade tal como se oferece, sem nenhuma pretensão de modificá-la ou dela se apossar.

O que acontece no conhecimento da ciência? Quando o conhecimento apreende algo que não é sensível, será que se dá também, como na percepção sensível, uma atividade receptiva e acolhedora do real? Em outras palavras, existe na ciência uma intuição intelectual?

O espírito moderno nega e parte para construir um conhecimento do trabalho, da operação, da produção total. Para Kant, todo conhecimento é exclusivamente “discursivo” e produtivo. Não há conhecimento intelectual que seja intuitivo: “O entendimento não pode intuicionar nada”. Todo conhecimento se realiza, para Kant, nos processos da pesquisa, a saber, observar, comparar, combinar, distinguir, derivar, falsificar, generalizar, etc. Ora, tudo isto são formas e modos de trabalho e produção. O conhecimento resulta da atividade e do esforço de pensar os dados da percepção. Em 1796, num famoso ensaio contra a filosofia da intuição e do pressentimento dos românticos, Jacobi, Schlosser e Stolberg, Kant diz explicitamente que conhecer é trabalhar. Na filosofia vale a “lei da razão de se adquirir qualquer coisa pelo trabalho”. A filosofia romântica não é verdadeira filosofia, justamente por não ser trabalho, à semelhança de Platão, “o pai de toda exaltação e fanatismo (Schwärmerei) com a filosofia”. …”enquanto a filosofia de Aristóteles é trabalho”. Da pretensão de se poder dispensar o trabalho nasceu este “tom nobre, que surgiu recentemente na filosofia”: não é preciso trabalhar, basta escutar a si mesmo, para se ter o oráculo da verdade.

O espírito pré-moderno, tanto na episteme e pragmateia grega, como na scientia e doctrina medieval, construía o mundo e a vida humana numa outra suposição. O homem não dispõe de intuição apenas no nível da percepção sensível, mas também e sobretudo no nível de seu desempenho espiritual. Em toda criação humana vive e opera um elemento de pura receptividade intelectual, onde se escuta a essência do real, como nos diz o fragmento 112 de Heráclito de Éfeso: “Pensar, a maior articulação, e a sabedoria, acolher as manifestações do real e realizar as escutas pela essência”. A Escolástica medieval distinguiu sempre no conhecimento humano entre ratio intellectus. ratio é o poder da discursividade do raciocínio que busca e investiga, que abstrai e argumenta, que define e conceitua. O intellectus é o simplex intuitus, a força do acolhimento que recebe o real em sua realidade. O conhecimento humano é a integração de ambos, tanto da ratio, como do intellectus. Numa das Quaestiones disputatae de Veritate, Sto. Tomás lembra que o conhecimento humano, embora, em sentido próprio, se dê e aconteça no modo da ratio, participa do intellectus, o conhecimento moderno chegou a radicalizar, até o absurdo, o princípio da ação e atividade num totalitarismo absoluto: “toda ação tem sentido, até o crime, enquanto toda passividade é sem sentido, mesmo a virtude.”

O segundo processo na transformação do conhecimento de aceitação numa ciência de produção do real é a consagração do esforço e da dificuldade como parâmetro de avaliação e o critério de valor da conduta humana. Para Kant, o conhecimento da ciência é um trabalho de Hércules “herkulische Arbeit”. Não se trata de mera constatação de um fato. Tal qualificação proclama um princípio de legitimidade. É o trabalho e o esforço que legitimam o conhecimento. O conhecimento se faz conhecimento à medida que se torna trabalho de Hércules. Está no esforço a garantia da verdade, assim como o dever moral exclui os impulsos e as tendências dos instintos que facilitam a virtude. O bem moral, o valor ético exigem o sacrifício de dominar e vencer a si mesmo. O que é fácil não tem valor. É a lição do rigorismo moderno, cujas repercussões e desdobramentos no sistema econômico Max Weber analisou.

Para o cristão pré-moderno, porém, a grandeza de amar o inimigo não está na dificuldade de sua realização, mas na profundidade da aceitação do outro, tanto do outro de si mesmo, como do outro dos outros. A transformação do amor nas famosas palavras do Apóstolo:

“O amor é paciente, o amor é benigno, não tem inveja. O amor não sente orgulho nem soberba. Não é descortês nem interesseiro. Não se irrita nem guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas sente prazer na verdade. O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera. O amor nunca acabará.” (1.Cor. 13. 4-8)

Do mesmo modo que o bem moral e o valor ético, o próprio do conhecimento, a sua verdade, não está no trabalho e esforço empregado para alcançá-lo, mas na descoberta e aceitação da realidade de todo real.

O terceiro processo na constituição do ideal de saber moderno, que subordina o ócio ao negócio, é a utilidade. O conhecimento da ciência, para ser produtivo, tem que ser funcional. Nenhum conhecimento científico pode ser autônomo, no sentido de se bastar a si mesmo. O bem comum se reduz à utilidade comum. Tudo é função de bens e serviços e todos são funcionários da produção e do consumo. Já não se admite nenhuma dimensão livre de criação e independência que não esteja assujeitada a uma utilidade funcional.

Com a subordinação do ócio ao negócio, o homem moderno se fez primeiro sujeito e o real  se tornou primeiro objeto, depois o sujeito virou funcionário e o objeto se transformou em dispositivo. Já vai longe o dia em que John Henry Newman ainda sentia na Idea of University a necessidade do valor e primado do ócio para a libertação do homem moderno. São dele as palavras “sei muito bem que o conhecimento pode ser útil para a prática, mas pode também voltar para o espírito, donde nasceu, e tornar-se filosofia. No primeiro caso, o conhecimento é útil, no segundo, é livre.”

Recuperar o primado do ócio no meio de tanto negócio, para poder retornar à liberdade radical da criação humana do homem, é o grande desafio para a Universidade nestes tempos de expectação do terceiro milênio.

 

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