pensamento

Emmanuel Carneiro Leão – O que significa pensar

Blondine Threw Her Arms Around Him, Virginia Sterrett

a Blondine Threw Her Arms Around Him, Virginia Sterrett

A questão, o que significa pensar, articula numa unidade dialética duas perguntas: o que é pensar e o que nos faz pensar. Trata-se de uma questão tão essencial que opera no fundo de toda pergunta que se faça, de toda resposta que se dê. Ora, só é possível saber, sentir o sabor do que significa pensar, pensando. Não há outra possibilidade. Por isso, numa anotação para o Zaratustra do outono de 1883, Nietzsche nos diz que toda experiência de pensamento se embrenha pelas raízes da própria possibilidade de pensar.

Que possibilidade é essa?

É mistério desconhecido e não sabido, mas inesgotável da realidade, acontecendo na realização de todo real, de tudo que é e está sendo. Escreve Nietzsche com grande apuro de estilo e de pensamento:

“Ich ging den Urspruengen nach…” “Fui atrás das origens, o que me afastou de todas as venerações. Tudo ao redor se tornou solitário e estranho para mim. Mas, por fim do seio do próprio real rebentou de novo o mistério da realidade e eis que me nasceu a árvore do futuro.  Agora vivo sentado em sua sombra.”

As presentes reflexões sobre o que significa pensar se põem sob a égide e na direção desta experiência originária de recíproca proveniência entre futuro e passado no presente de todo pensamento.hoje

Vivemos os primeiro decênios de um novo milênio. Nossa presença neste início é de princípio. Exige rasgar horizontes de questionamento e abrir dimensões de interrogação. A tarefa de pensar está toda aqui. Pois o pensamento é a presença incômoda e desconcertante do desconhecido no desempenho de qualquer realização. E como se trata de realidade, requer muita concentração e pouca impaciência. É a lição que nos deixou o maior discípulo de Platão na conhecida distinção, o que é primeiro em si nos aparece por último. Hegel, o pensador que pensou a dinâmica da história durante toda sua vida, nos lembra: “A ave de minerva só levanta voo ao entardecer, quando os fatos já foram feitos.” Todo milênio e todo século, todo ano e todo dia, qualquer instante da vida histórica dos homens é sempre a cada passo da sua passagem, matutino e vespertino, ao mesmo tempo. Hoje em dia, nesse momento de transformações radicais, vivemos mais do que as façanhas matutinas, as sanhas vespertinas do segundo milênio. A história da humanidade se tem movido em ciclos de 25 séculos. A cada dois milênios e meio, fecha-se um ciclo, atinge-se um clímax e instala-se um fim, mas fim no tríplice sentido de término, plenitude e transformação. É o instante propício para outra realização do real na história, quando poderemos vir a ser mais livremente tanto o que já fomos como o que ainda somos, na abertura de outro horizonte, no horizonte do que seremos. Tudo, então, se torna fluido e nada se fixa. Os velhos padrões se esboroaram e os novos ideais ainda não se instalaram. Aparecem os limites das pretensões e se fazem mais sensíveis as perdas das conquistas. O mundo todo entra em transe, sente o convite e vive o apelo para passar. Não foi por acaso que há 2.500 anos atrás surgiram Buda na Índia, Lao Tsu na China, Zaratustra na Pérsia e os pensadores originários na Grécia, chamados de pressocráticos.

Hoje, nos primórdios desse terceiro milênio, estamos de novo, apesar de todas as diferenças nos interstícios da história, de passagem para outro dia histórico. Novamente, todos os parâmetros desvaneceram, todos os valores se gastaram, os princípios de ordem perderam força. Vivemos em estado fluido e maleável. O antigo já não tem a importância que tinha, o passado enfraqueceu seu poder e o futuro, se de certa forma já veio, ainda não se instalou de todo. Estamos num hiato de história. É tempo de desinstalação. É dia de criação. É instante de transformação. Pois, para se reformar, é preciso transformar para não deformar. Na crise, não apenas de todos os fundamentos, mas do fundamento como fundamento, medram as primeiras experiências de desprendimento da prepotência humana. Na convocação de Nietzsche começa a descida de Zaratustra para anunciar ao “último homem” o super-homem. O que nos traz de escatológico, isto é, de radicalmente novo este super de super-homem? Não será o desprendimento de toda pretensão, desta hybris da história moderna, de o homem ser mestre e senhor da natureza? Para se poder decolar na direção de realizações mais humanas e menos onipotentes? É o que nos convida a pensar, contudo que não sabemos, mas somos, que não temos, mas sentimos, o Prólogo do primeiro livro de Zaratustra, “um livro para todos e para ninguém”! E o faz com palavras de morte e ressurreição dirigidas a todos nós pelo mistério de ser e não ser do sol, que desde Platão, vem iluminando nossas vidas! Fala Zaratustra:

“Queria presentear e distribuir até que os sábios entre os homens se tenham alegrado do mistério de seu não saber e os pobres entre os homens se tenham contentado com a riqueza de sua pobreza. Para tanto, tenho de descer ao fundo, como tu fazes ao fim do dia quando afundas no mar e levas luz para o mundo debaixo, tu astro acima de qualquer riqueza e/ou pobreza.”

É neste sentido que estamos hoje em transição, sentindo a passagem para outro dia histórico, após o longo ocaso sole occidente, do Ocidente. O movente essencial desta passagem é a pergunta se é possível uma passagem histórica realmente transitiva sem se saber qual é o verbo da história, será ser e pensar, ou será calcular e produzir? Qual será mesmo o verbo que a história conjuga? A história conjuga todos os verbos numa unidade de pensamento que assegura uma dinâmica de expansão.

Assim, desde o nascimento da humanidade no Ocidente, “na Aurora dos dedos de rosa” de que fala Homero, a história vem conjugando os verbos ser e pensar. No primeiro canto da Ilíada, nos versos 67/70, Homero nos fala do jogo desta unidade primordial. É crítica a situação dos Aqueus diante de Troia. Há nove dias grassa no acampamento grego a peste enviada por Apolo. Na assembleia dos chefes, Aquiles exorta calcas, o pensador da expedição, a pensar a cólera do Deus que impossibilita levar a bom termo toda empresa. Antes de dar a palavra a Calcas, Homero diz o que significa pensar para a experiência histórica dos gregos: “levantou-se-lhes, porém Calcas, filho de Testor, o mais vigoroso dos intérpretes, que sempre já viu o que é, o que será e o que foi antes…”

Pensar é, pois, interpretar, ser e não ser nas peripécias do viver ao longo da história de presente, passado e futuro da vida humana. Intérprete é aquele que sempre já viu. Ede é o mais que perfeito de oiden, perfeito de horaw, ver. Interpretação do pensamento é sempre uma visão que vê por já ter visto. Somente na medida que já viu é que o homem pensa e assim se faz vidente. Pensador só é vidente por ver no presente o futuro a partir do perfeito. É por já ter visto, que o intérprete prevê. Para ser vidente, o intérprete se torna previdente do vigor histórico, que, dando vigências ao vigente, confere visibilidade à visão. Por isso, o ser visto é o que vige na liberdade de um vigor. Mas, vigente é tanto o presente, o que é e está sendo, como o ausente, o que será e o que já foi. No pensamento, passado e futuro são também modos de ser, pois agem na ausência. Presente e ausente diferem a partir da identidade com a força de uma vigência histórica. O pré- de presente é o espaço aberto pelo jogo de ser a que chegou e em que perdura tudo que é e está sendo. O presente é o caráter de patência do vigente. Haver e conservar patenteada a vigência constitui a propriedade de seu acontecimento, a força de seu modo de dar-se nas realizações.

Ora, passado e futuro também têm força histórica, também são vigentes. Só que o modo de sua vigência não é a patência do presente é a latência do ausente. O au- de ausente, do latim, ab, não diz dentro, mas fora do espaço aberto pela patência. Pois sua vigência é latente, mas referida sempre à patência do presente. É tão profunda esta referência que constitui até o sentido da identidade e a fonte da diferença entre presente e ausente, no tempo, presente, passado e futuro.

 

 

 

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