poesia

Poemas para o nosso tempo VI

(começando com um verso de Jodorowsky)

por Sergio Cohn

 

se estamos perdidos,
melhor não andarmos com tanta pressa
para não sermos presas
dos próprios passos
melhor o silêncio, escutar
a estratégia de quem já
conhece esses espaços:
pássaros onças outros
olhares de soslaio
sabendo que alimento e que veneno
nos espera na beira deste descaminho
não há mais nenhum Virgílio
para nos guiar

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Poemas para o nosso tempo V

Tecendo a manhã

por João Cabral de Melo Neto

 

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

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Poemas para o nosso tempo IV

O BICHO

por Edimilson de Almeida Pereira

 

Rastreio a palavra para não cair do cavalo.
Não estou entre os que se refugiaram
em ítaca, curvelo ou tombuctu: há muito
a floresta de signos foi incendiada
e se abriu à escrita do corpo. O passado
está salvo, mas não salva a hora presente.
O bicho, Bandeira, quer dizer, o homem
que alimentou seu poema, ainda nutre
o meu com a sua fome. A poesia se repete
ou a mão que ajuda não cresce? Rastreio
para não trair a palavra do meu tempo.

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Poemas para o nosso tempo III

XX

por Hilda Hilst

 

De grossos muros, de folhas machucadas
É que caminham as gentes pelas ruas.
De dolorido sumo e de duras frentes
É que são feitas as caras. Ai, Tempo

Entardecido de sons que não compreendo.
Olhares que se fazem bofetadas, passos
Cavados, fundos, vindos de um alto poço
De um sinistro Nada. E bocas tortuosas

Sem palavras.

E o que há de ser da minha boca de inventos
Neste entardecer. E do ouro que sai
Da garganta dos loucos, o que há de ser?

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