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Emmanuel Carneiro Leão – O Esquecimento da Memória

Na vida humana e no curso da sua história operam muitas memórias: uma memória individual, engramática, que grava conteúdos de percepções; uma memória coletiva-social que aciona possibilidades comunitárias e convoca experiências de participação; uma memória histórica, monumental, que celebra a continuidade das transformações e as consagra para o futuro.

Essas memórias se contentam com reter fatos, conservar dados e repetir padrões de combinação e derivação. Ora, toda derivada é sempre dependente. Por isso, todas elas não passam, no fundo, de uma memória de computador, que tem sempre de receber de outro as virtualidades de seu próprio desempenho. Trata-se de reproduzir o já produzido. É uma consolidação que não deixa o passado passar. Aqui, todo esquecimento é somente negativo, uma perda ou falha no funcionamento dos processos de reter, combinar, repetir. Neste esquecimento negativo, o que realmente se esquece, o que se deixa cair fora, ex-cadescere, e se perde, é a memória criativa, a memória de conquistar novas possibilidades no tempo biográfico e histórico dos homens, de viagem pelas paisagens da linguagem.

Na origem e para a origem da condição humana, é preciso, é indispensável até esquecer a memória engramática, esquecer o já produzido, as possibilidades instaladas, para se produzir o novo, acolhendo as possibilidades por vir. Todas as memórias de fatos supõem, pois, uma outra memória, a memória originária, aquela fonte de criação que doa na medida que retira potencialidades. Temos, assim, operando na presença de toda realização humana dois mecanismos e duas memórias: a memória de um passado que não passa, com o mecanismo de produção do novo, em cuja falta reina a compulsão da repetição. O esquecimento da memória é tanto negativo quanto positivo. O esquecimento negativo impede a reprodução iterativa da mesma coisa. O esquecimento positivo desencadeia a produção inaugural das transformações.

A memória dos fatos, a memória do passado, se restringe a desempenhar atividades constituídas e habituais. É sempre absorvente e comprometida com uniformidades e, por isso, recusa-se a aceitar qualquer pluralidade ou diferença. Sua dificuldade é radical e consiste em rejeitar conviver com diferenças. Pois toda diferenciação lhe é destruição. É o que presenciamos hoje no conflito do Oriente Médio. Ninguém quer esquecer nada. Todos só têm a memória do poder.

Ora, os modos de agir e operar se plantam nos modos de ser e realizar-se. É o impulso que desperta em nós a memória criativa de um princípio aristotélico, o princípio da integração recíproca-mente constitutiva de ser e agir: operari sequitur esse, os modos de operar seguem os modos de ser. Nestes termos, a memória operativa de fatos é uma função empírica, ôntica, que supõe uma memória ontológica, de possibilidades e sentido.

Mas que é isso, memória ontológica?

A experiência de pensamento, narrativa no mito, criativa na poesia e reflexiva na filosofia, no-lo poderá responder, ao apro-fundar até as raízes a recordação e o esquecimento da memória. Dois exemplos apenas de pensamento criativo na poesia.

No esboço para um hino dedicado à Mnemósina, Hölderlin nos diz da memória ontológica que somos, mas não temos em nosso poder:

“Somos um sinal sem sentido.

Insensíveis à dor, quase perdemos

A linguagem no estrangeiro.”

Mnemósine é para um grego palavra e realização criativa. Traz consigo o nome de uma titânida que o mito imemorial, recolhido por Hesíodo, assevera ser filha do céu e da terra. Que é um mito imemorial? – É uma experiência narrativa de pensamento que se encamou e consolidou em nosso modo de ser e de estar na linguagem. A linguagem arrasta consigo a experiência inaugural de todo relacionamento criador, que deixar ser, que faz aparecer o real em sua epifania. O mito inaugural é, assim, o vigor de todo vigente no espetáculo de sua vigência. Por isso, todo mito se toma um apelo que nos chega e nos atravessa com a força de um princípio de transformação.

Mnemósina, filha do céu e da terra, tornou-se, em nove noite de amor com Zeus, a mãe de todas as musas. Jogo e música, dança e poesia, representação e movimento nasceram e pertencem ao seio de Mnemósina. Esta palavra diz a concentração da linguagem, a condensação do pensamento. O seu radical émen, donde provêm, em várias derivações indo-européias, as experiências primigênias de pensar, refletir, meditar. E que, para um grego, toda realização humana vive do fogo e se origina no furor do pensamento. Todavia, pensar e pensamento, como memória ontológica, não são representações da consciência na consciência, que respondessem ao real com uma imagem. Como memória ontológica, pensar e pensamento são o poder de reunião e recolhimento de todo sendo na dinâmica de ser, aparecer e vir-a-ser, uma dinâmica que se dá enquanto se retrai. É por isso constitutiva de toda memória em todos os seus níveis e desempenhos, em todas as suas omissões e comissões, a presença inaugural do esquecimento.

A lição do mito primordial de Mnemósina, a memória criadora, é, pois, a entrega de uma experiência primigênia, a experiência arcaica dos primórdios. Um grego vive e experimento no mito da memória uma densidade inaugural em que a realidade lhe chega nas realizações históricas de sua convivência, nos cultos, no poder, na ciência, na técnica, na arte, na produção e etc… Toda a cultura e toda a civilização se recolhe, então, na dinâmica de articulação da pólis. A palavra pólis tem a ver com o verbo pelo/pelomai, que diz e fala dos processos de criação, os movimentos de ser, não ser e vir-a-ser, tanto no aparecer, como no desaparecer de tudo que vige e opera, de tudo que surge e cresce, que se ergue e se impõe por si mesmo com a força de seu próprio vigor. É a lição que nos passa o primeiro versículo do famoso coro de Antígona: “polla ta deina: muitas são as coisas extraordinárias – k’oyden anthropoy deinoteron peleí: mas nada se ergue e impõe com mais vigor extraordinário do que o homem”. Assim, pólis diz o polo, em que a realidade faz girar o real em suas realizações, diz a estância em que a realidade estancia e distancia, diz o lugar onde a realidade centra; concentra e descentra tanto as realizações quanto as desrealizações de tudo que é e está sendo, de tudo que não é nem está sendo.  É no sentido desta experiência primordial que Mnemósina, a memória geradora, se tomou no jogo do amor, a mãe de todas as forças criadoras da condição humana, as musas.

Mas que jogo é esse de gerar e criar potências de realização? – É o jogo do tempo no ser, criando condições de humanização. O fragmento 52 de Heráclito nos agita o esquecimento inaugural da memória com palavras de criação: “aíon, o tempo criador, pais esti paizoh pesseuonz, é uma criança jogando dados, paidos he basileie: o reino da criação”.

É que, com dados e crianças, Mnemósina nos concede o jogo do modo de ser e nos presenteia com o envio da diversão. Jogo não é necessidade, é criação. Diversão não é dever, é escolha. Por que será que existe no universo uma criatura que gosta tanto de jogar, que adora divertir-se? – É a pergunta que mobiliza e encanta todo desafio histórico. E a resposta nos trazem as musas de Mnemósina.

Porque divertir-se é separar-se do que se deve ser, porque diversão troca a necessidade pela liberdade. Jogar é evadir-se das imposições de um mundo de regras e deveres e encaminhar-se para o mundo do inesperado e da surpresa na criação da inventividade. De que o homem se diverte no jogo? Ele se diverte das restrições e constrições. Com que o homem se diverte no jogo? Ele se diverte com a liberdade. É o jogo da memória que nos faz esquecer e deixar cair as injunções e nos joga na diversão da liberdade e nas peripécias da criação.

Como esquecimento positivo, a diversão perde o caráter passivo e frívolo e se converte no mais elevado patamar de ação e atividade: a invenção de ser,  inventividade de criar-se. O mais ativo que o homem pode ser não é, portanto, no trabalho, quando faz alguma coisa, e sim no empenho com que se dedica a criar seu modo de ser e a inventar o perfil de sua fisionomia. Os demais seres vivos vivem a sua vida e nada mais. Só o homem vive com o Nada, isto é, sobrevive à vida em sua vida. O homem é, assim, o único ser vivo que, para viver, não lhe basta viver, tem de empenhar-se por criar vida. É convidado constantemente a assumir a responsabilidade de cuidar da vida, de dedicar-se a viver.

Eis o sentido ontológico do jogo, da diversão, do esporte, tal como nos consignou um dos maiores filhos das musas, Píndaro, o poeta das perdas e vitórias do viver, na quinta ode pítica de seu Epinikion, celebrando a criação inaugural da diversão e do esporte no jogo da vida humana, um jogo jogado pelo esquecimento criativo de Mnemósina:”epameroi, seres efêmeros de um dia, Ti de tis? que é ser alguém?, Ti d ‘ou tis?, que é não ser ninguém?, lethes onar anthropos! o homem, sonho do esquecimento”!

 

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