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Emmanuel Carneiro Leão

Emmanuel Carneiro Leão nasceu em 1929 na cidade de Olinda, em Pernambuco. Professor emérito da UFRJ, é o mais importante pensador filósofo brasileiro. Realizou seu mestrado em Friburgo, onde participou de seminários de Martin Heidegger. Doutorou-se em Roma, na Itália. Deu aula na Faculdade de Letras, na Escola de Comunicação e no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


O Pensamento Originário*

“Toda historiografia já é sempre uma filosofia da história, quer o saiba ou não. Uma investigação de pensamento, que não pretende negar-se a si mesma como pensamento, tem necessariamente de ser uma restauração da mesma empresa. ‘Mesma’, no entanto, não diz aqui igual. Diz idêntica nas vicissitudes de mundos diferentes. Quem na interpretação de um pensamento se ativer exclusivamente aos textos e se limitar apenas ao sentido objetivo, destruirá precisamente o que constitui o vigor de seu esforço de pensar. As palavras e os textos são função do pensamento, como este é função do que, provocando a pensar, o torna possível como pensamento. Não há outra maneira de se interpretar um pensamento do que pensá-lo nas relações de identidade e diferença com a coisa de suas próprias virtualidades. Apreender-lhe o vigor Histórico será sempre um esforço de abrir, através do diálogo, horizontes diferentes para um novo principiar do mesmo mistério (…)”

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A vigência do Poético na regência do Virtual

“Hoje em dia somos todos pós-modernos. Pós-modernos, vivemos na e da baixa modernidade. Baixa modernidade é a conjugação de três ordens de transformação em detrimento da criatividade na história: a financeira, a genética, a virtual. Nesta baixa, impõe-se, cada vez mais, uma divinização do homem e uma humanização do sentido. Trata-se de uma imposição negativa: a desordem prevalece sobre a ordem. Desordem é o império da violência transformada em solução universal para qualquer problema, em satisfação universal de qualquer interesse. A força do direito já não é a justiça. Restou apenas o direito da força. A vida perdeu todos os acentos transcendentes e vai sendo sacrificada aos poderes da morte. Chega-se ao cúmulo de se reconhecer na teoria e na prática que a vida é um direito relativo, em contraste com a personalidade, direito absoluto, como se fosse possível vida humana, tanto em ato como em potência, sem personalidade e vice-e-versa.”

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O que significa pensar?*

“A história da humanidade se tem movido em ciclos de 25 séculos. A cada dois milênios e meio, fecha-se um ciclo, atinge-se um clímax e instala-se um fim, mas fim no tríplice sentido de término, plenitude e transformação. É o instante propício para outra realização do real na história, quando poderemos vir a ser mais livremente tanto o que já fomos como o que ainda somos, na abertura de outro horizonte, no horizonte do que seremos. Tudo, então, se torna fluido e nada se fixa. Os velhos padrões se esboroaram e os novos ideais ainda não se instalaram. Aparecem os limites das pretensões e se fazem mais sensíveis as perdas das conquistas. O mundo todo entra em transe, sente o convite e vive o apelo para passar (…)”

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A questão do modelo democrático

“Na vida da Cidade, a boa organização é aquela que aprende com as próprias perturbações e por isso se torna capaz de funcionar suficientemente por erros e defeitos de seus cidadãos. O modelo democrático da Cidade requer um sistema político que trabalhe a contento com homens reais e não pressuponha homens ideais. Somente um sistema defeituoso necessita de cidadãos providenciais e seres geniais. Por isso qualquer dependência do bom funcionamento de uma Cidade da qualidade de seus líderes constitui uma ameaça à realidade do modelo democrático. As planificações centralizadas e uniformizantes não só restringem a criatividade das diferenças como excluem a possibilidade do sistema se autocorrigir.”

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O Esquecimento da Memória

“Jogar é evadir-se das imposições de um mundo de regras e deveres e encaminhar-se para o mundo do inesperado e da surpresa na criação da inventividade. De que o homem se diverte no jogo? Ele se diverte das restrições e constrições. Com que o homem se diverte no jogo? Ele se diverte com a liberdade. É o jogo da memória que nos faz esquecer e deixar cair as injunções e nos joga na diversão da liberdade e nas peripécias da criação.”

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Ócio e Negócio

“O significado depreciativo de ócio, ocioso e ociosidade é moderno e provém de uma inversão do princípio que, até a Idade Moderna, tinha regido o processo de realização humana. Em que consistiu essa inversão? Em latim, uma maneira de se dizer o contrário e de se negar é antepor, por prefixação, ao substantivo a partícula nec. O não ócio é, pois, nec-otium, o negócio. Ora, negócio dizia para um romano, como a-scholia para um grego, o trabalho e esforço de uma ação transitiva que, aplicada a uma coisa, produzia outra. (…) Com o mundo moderno é que se inverteu o princípio e, então, temos ócio para negociar.”

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A Criação

“O instante de invenção da obra não apenas não se repete, como nunca se aprende. Todo instante se improvisa num risco e se arrisca numa improvisação. O instante de risco e improvisação se propõe nas experiências, nas tensões, nos impulsos de um traço, de um movimento, de um som, de uma presença, com todas as inseguranças, hesitações e ansiedades, mas também com toda a ousadia, aventura e o fascínio da criação de uma obra.”