poesia

Poemas para o nosso tempo XX

II

por Hilda Hilst

 

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um sol amarelo) assim te apreende brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

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Poemas para o nosso tempo XIX

A Piedade

por Roberto Piva

 

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?

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Poemas para o nosso tempo XVIII

O Cacto

por Manuel Bandeira

 

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.

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Poemas para o nosso tempo XVI

Tu místico

por Alberto Caeiro

 

Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.

Para mim graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
Ser uma coisa é não ser susceptível de interpretação.

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Poemas para o nosso tempo XIV

Estirpe

por Fabio Weintraub

 

as que enfunam o vestido
dizendo-se grávidas
os que mastigam sabão
até sangrar o nariz
os que queimam a pele
com pomadas
os que passam no corpo
esterco de cavalo
os que portam chocalhos
à maneira dos lázaros
os que entrevados fogem
com grande velocidade
os que amarram sobre os olhos
lenços ensanguentados
os que em frente às igrejas
espojam-se nus
os que afirmam ter sido roubados
os que pedem apenas o necessário
para inteirar a passagem

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Poemas para o nosso tempo XIII

mulher depressa

por Angélica Freitas

 

vamos lá, companheiro
vamos lá que eu tenho pressa, companheiro
o mundo inteiro está mudando, companheiro
e você trancado no banheiro
o dia inteiro, o que se passa, companheiro
está com medo da mudança, companheiro
você sabia que esse dia, companheiro
estava chegando e mesmo assim você se encontra
trancafiado no banheiro, companheiro
não tem revolução que aguente, companheiro
dor de barriga a gente entende, companheiro
mas já é tarde, está na hora, estou com pressa
vamos embora, a história não espera, companheiro
ah, já escuto sua descarga, companheiro
é o amanhecer da nova era, companheiro
então se limpe e lave as mãos e vamos todos
dar as mãos, viva a revolução, companheiro

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Poemas para nosso tempo XI

Abertura

por Mário Chamie

 

No espaço do campo, passa o homem e sua miragem.
No espaço da cidade, dorme o homem em sua passagem.
No espaço da consciência, gera o vírus a sua voragem.
Por todos esses espaços, de surda força indomável,
passa o espaço da palavra com sua selva sem margem.
Na selva dessa paisagem, no centro de sua arena,
age a força do poema, meu objeto selvagem.

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pensamento

Emmanuel Carneiro Leão

Emmanuel Carneiro Leão nasceu em 1929 na cidade de Olinda, em Pernambuco. Professor emérito da UFRJ, é um importante pensador filósofo brasileiro. Realizou seu mestrado em Friburgo, onde participou de seminários de Martin Heidegger. Doutorou-se em Roma, na Itália. Deu aula na Faculdade de Letras, na Escola de Comunicação e no Instituto de Filosofia e … Continue reading »

A revanche do sagrado: entrevista com Edimilson de Almeida Pereira
#26 Edição / entrevista / literatura / poesia / USINA impressa

A revanche do sagrado: entrevista com Edimilson de Almeida Pereira

“Esse dilema do processo de criação é uma outra maneira de ressaltarmos a tensão ‘enraizerrante’, que confere à experiência poética a possibilidade de dizer-nos que aquilo que nos fixa no tempo e no espaço, na vida pessoal e coletiva só o faz porque se move e se transfigura continuamente.” Continue reading »