#20 Edição/artes visuais/cinema

Arte, Coletividade e Infância

PARTE 2: COLETIVIDADE (continuação PARTE I)

Por um lado, é claro que a proliferação dos coletivos que vemos na última década é, ou pode ser, positiva em relação ao passado e mostra que mais e mais pessoas estão querendo criar juntas e entre si, colaborando. É claro, também, que muitos dos coletivos atuais podem compartilhar destes desejos (aqui apresentados) e até mesmo refleti-los em suas ações. Porém, uma questão que nos intriga nos últimos tempos é: como passar da “onda” dos coletivos, cabível em copos d’água, para o mar indomável da Coletividade em si? Os coletivos, nesse movimento potencialmente positivo, devem manter a todo o instante uma capacidade de autocrítica para escapar dos tentáculos da “pós-modernidade”, desse sistema tão produtivo, positivo, benevolente, e até “revolucionário”, que em sua autoteoria faz alguns acreditarem que vivemos na mais libertadoras das épocas, sem perceber o congelamento total da vida a que nos aproximamos… E, além disso, escapar da fragmentação exclusivista que geralmente provocam na briga pelos espaços, pois os coletivos discordam entre si e disputam o pouco lugar que há nos pódios, capas e áreas VIP do mainstream, mesmo que esse mainstream seja de nicho – mesmo no ativismo político, que deveria escapar com destreza destas armadilhas.

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Os coletivos de hoje podem representar um primeiro momento de desterritorialização da antiga individualidade do artista, do autor e do homem de cultura modernos; mas a tendência é que, em seguida, se reterritorializem (ou mesmo se encerrem, como é comum de se ver) em uma identidade de grupo bastante fechada e exclusivista, e que tenham, então, uma logomarca, um portfólio, uma página na rede social, não para abrir e receber, mas para serem adorados no que dão, rivalizar com outros coletivos e acumular prestígios.

O grupo constituinte do coletivo acaba funcionando como um grande indivíduo empresarial, uma só subjetividade-fantoche operada por diversas mãos, e muitas vezes com uma finalidade apenas de retorno de valores (financeiros, sociais, culturais, imagéticos, políticos etc.) para o grupo e para cada um do grupo, ou de grupos próximos, nas eventuais colaborações entre coletivos. Há todo um hype dos coletivos culturais de hoje em dia, um glamour de capa de revista descolada ou mesmo especializada, de relatórios da economia criativa, de reconhecimento midiático de nicho ou, ainda melhor, que possa vir a ser massivo, “viralizado”, de um projeto que se construiu com o suor e o talento de pequenos jovens empreendedores brilhantes e chega agora ao mainstream, pelas TVs ou pelas redes sociais, tanto faz. E isso não é exclusividade dos coletivos culturais, nem daqueles formados apenas por jovens… A mesma lógica se aplica, analogamente, a coletivos com atuações e formações de outras naturezas…

A ideia do coletivo pode ser, ou parecer, uma boa ideia: o embrião dela é, talvez, o mesmo da ideia da Coletividade em si (que, nesse caso, é necessariamente não em-si, mas sempre de-si-para-fora). Primeiramente, há uma abertura do indivíduo para criar e trabalhar em conjunto, jogar as suas ideias “na roda” para ser trabalhada por vários. Os trabalhos inevitavelmente se tornam mais múltiplos e multifacetados. Mas há ainda um imenso potencial inexplorado do coletivo, que é o de continuar a operar por aberturas, e nunca parar com estas: de deixar de ser “o” coletivo “X”, que é mais interessante que o coletivo “Y”, para vir a ser uma via para o Coletivo, para o próprio Coletivo irredutível, olhando não apenas para seus projetos, mas para o maravilhoso e intocado processo de construção de uma vida coletiva rica.

Se o indivíduo se abriu para ir ao coletivo, o coletivo deve abrir-se logo em seguida para ir ao Mundo. O melhor coletivo seria aquele ao qual todo dia uma nova pessoa fosse incorporada, um grupo que crescesse até não ter mais tamanho, bordas, delimitações, respeitando ainda o contorno dos indivíduos, mas olhando para fora… E deveria comportar todo tipo de gente. Mais do que gente, poderia comportar pássaros, cães, gatos, outras espécies animais, ou mesmo plantas, flores, e também ambientes, objetos, que fariam parte do Coletivo, pois fazem parte do Mundo. Tudo e todos que passassem na rua poderiam ter uma participação contínua ou flutuante na grande Coletividade disseminada por todo o “corpo sem órgãos” do planeta. Estes coletivos, que formariam o Coletivo, passariam a ser coletivos de criação da vida, e não mais apenas de produtos, ideias e serviços identitários que gerassem um hype (e saíssem bem na foto), para fazer a mesma velha coisa com um pouco mais de glamour e cara de alternativo.

Os coletivos, todos, poderiam ser expansivos e, desta maneira, até que necessariamente ocupassem mais do que seus espaços, casas, ateliês, e que houvessem inevitavelmente grandes espaços de interseção entre coletivos – espaços que não poderiam mais ser denominados como sendo propriedade de tal ou qual coletivo, e nos quais, de repente, estariam as pessoas anteriormente chamadas de “comuns”, antes não consideradas “artistas”, mas cheias de energia criativa contida em seus corpos, pedindo para ganhar expressão. Como espalhar isso? Como desterritorializar esse fluxo dos coletivos para espalhá-lo para toda a Coletividade da vida, e então você terá 2, 3, 4, 5, dezenas, centenas, milhares, milhões de seres vivos juntos para recuperar e recriar funcionamentos radicalmente coletivos, de criações que envolvam todo mundo, todo mundo que estiver passando, com a única finalidade de criar coletivamente uma vida comum em que todos possam se expressar com liberdade, sem pressões contra as emoções?

Quando temos liberdade, precisamos ser responsáveis, isto é, desenvolver ou entrar em contato com nossa capacidade de responder: e precisamos encarar a vida e a necessidade de cria-la nós mesmos. Quando falamos de liberdade e natureza, não falamos de um estágio ideal, inalcançável, de um paraíso prévio projetado para o além, mas apenas de um estado de não-contenção dos fluxos espontâneos da vida, em que, sem autoridades e relações compulsórias, os indivíduos precisam se deparar com a necessidade, a responsabilidade e o prazer da criação contínua e incessante da vida, da sua própria e a de todos. É preciso criar a vida social, isto é, as condições materiais e relacionais apropriadas para que a Vida possa se expressar integralmente também na vida humana. Pois a expressão livre das emoções e da sexualidade (ou seja, das pulsões, quando acolhidas pelo mundo) dá forma e força aos corpos, forma, força e flexibilidade, e essa expressão ativa tem consequências, reverberações, ressonâncias no mundo externo, então será preciso reorganizar todo o corpo social de modo que este possa receber, possibilitar e cuidar das expressões da vida livre – poucos falaram tão bem sobre isso como o médico e cientista Wilhelm Reich, e muito se aprende sobre o que é a vida livre (algo que vemos pouco em nossa paisagem social) em seus livros e pesquisas, entre a clínica analítica-terapêutica, as análises sócio-políticas, e os laboratórios científicos…

Reich também acreditava que a “arte”, tal como existe em nossa sociedade, não bastava: na maioria das vezes, é apenas um paliativo que nos ajuda a suportar e embelezar a “vida na prisão”. Por outro lado, fazer arte num sentido mais amplo, como processo, como expressão potente da “pulsão de criação”, é querer viver sua vida inteira, não a meia-vida a que nos acostumamos, e permitir que os outros vivam as suas também inteiramente, concordando com uma flexibilidade comum que possa permitir, valorizar e proteger múltiplas formas e forças de vida. E todos que estão pelo mundo a fora querendo, ainda, viver, independente do sistema disseminador da não-vida generalizada, estão fazendo arte e criatividade, independente da ocupação, da classe social ou de qualquer outra condição. Todos aqueles que estão remodelando seu envoltório para que este, com uma nova forma, seja capaz de receber a vida livre, estão fazendo arte.

E se a patologia é o que inspira um neurótico em algum canto do mundo a fazer arte, é que se trata de sua única forma de respirar, ainda, e sobreviver ao sufoco de uma vida não-artística, não-sonhadora, criando (e criar é sempre positivo) ao utilizar suas negatividades como matéria-prima, as negatividades que ele incorporou à sua não-experiência a partir de um sistema social negador da vida, da potência e da sexualidade. Com “vida não-artística” não queremos dizer que há pouco cinema, pouca literatura, pouco teatro etc., na sociedade, e que deveríamos então lutar por um governo que financiasse mais a arte e a cultura: mas que há pouco espaço, ainda, para que a própria vida seja artística, criativa. E, mais do que isso, que há pouco esforço da própria coletividade e dos indivíduos (a maior parte destes, imobilizada) para a criação de uma vida artística independente da autorização e do fomento de uma autoridade ou de um patrocinador.

Pois as autoridades permitem, é claro, que existam os artistas. Mas, para isso, os artistas devem ser os diferentes, os exóticos, os loucos, extravagantes, aqueles excluídos da lógica normalizada: e devem ser poucos, os loucos privilegiados, ou as celebridades intocáveis, fetichizadas pela massa. Podem existir mais mil artistas – pintores, escritores, cineastas, fotógrafos etc. – mas isso não quer dizer necessariamente que se permita mil vezes mais que a própria vida seja uma expressão livre e espontânea do impulso criativo, artístico e lúdico de brincar e criar, de fazer a si mesmo e à sua vida. Não se pode garantir nem mesmo que um artista consagrado em sua arte seja realmente um artista em sua vida – já vimos até mesmo artistas célebres com aspirações fascistas. Isso quer dizer também que pode haver um alfaiate, um dono de lavanderia, um jardineiro, um surfista e uma garçonete mais artistas – ou: mais artisticamente impulsionados para a invenção da sua vida e a reinvenção da experiência – do que um cineasta premiado em Cannes ou um pintor cuja obra foi leiloada por 15 milhões na Sotheby’s.

A arte é mesmo proibida na sociedade, da mesma forma que a vida é proibida, ou somente permitida a partir de moldes pré-estabelecidos, às vezes, inclusive, muito atraentes. Ela é muito estimulada e desejada na vida social cotidiana e na sociabilidade das pessoas, todos sabem e dizem como é importante saber sobre arte, como é importante fazer arte, “ah, você é artista, que legal”. Mas é desencorajada liminar ou subliminarmente nos sistemas sociais (de regulação compulsória da vida) existentes desde sempre. Existe a arte, existe incentivo para a arte, sabemos que sim. Existem muitos artistas, muitos deles bem remunerados e respeitados em todas as esferas sociais. Hoje, no chamado “capitalismo cognitivo”, do “trabalho imaterial”, o artista e o “trabalhador criativo” é mais do que nunca valorizado socialmente, e é como se ele realmente fosse a materialidade de uma nova vivência social mais voltada para a criação. Os designers, os publicitários… empilhados, emparelhados nos setores de “criação” das agências que nos vendem os nossos novos sonhos, adesivados com palavras-chave como sustentabilidade, colaboratividade, inclusão, consciência social, vida, e um monte de outras coisas das quais se retira a alma, deixando apenas a carcaça, para vender produtos/serviços. São os novos operários, os clichês ambulantes, que gozam do pequeno glamour, do status e do valor social de trabalhar no “setor de criação”. E a sociedade desde sempre encontrando maneiras de conter o perigoso fluxo da arte – que pode pulsar em todos os seres e ganhar expressão, se deixado sozinho – produzindo os clichês da arte, injetando clichês na arte e na vida, setorizando a criação.

Alguma tradição filosófica muito antiga acostumou-se a chamar de “humano”, propriamente “humano”, tudo o que era secundário e separado da natureza – tais coisas seriam humanas, e as outras coisas eram naturais, selvagens ou animais. A arte, ou melhor, a pulsão de arte, ela não é propriamente humana, ao contrário do que muita gente parece pensar a respeito. Podemos localizar a pulsão artística em todas as espécies animais, que expressam livremente a grande criação da qual fazem parte. A “arte” que é propriamente “humana”, que “nos” é uma especificidade, é aquela arte que é classificada, nomeada, estudada e criticada, fixada num sistema de referências. A arte que é “humana” propriamente, no mau sentido, é aquela da qual se faz a história, o lançamento, a vernissage etiquetada e civilizada, cheia de status, pose e pompa: a pompa do conhecer, do ser especialista, e também do poder. Mas a pulsão artística – criatividade da força de vida – esta é tão humana quanto animal, vegetal, selvagem, cósmica…

Daí que a Coletividade não pode ser apenas e exclusivamente humana e social. Deve abrir-se ao mundo, abrir-se ao cosmos, ao não-humano.

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PARTE 3: INFÂNCIA

Os primeiros seres humanos que existiram foram crianças. Foi em forma de criança que a natureza conheceu a nova espécie que havia criado, e suas potências. A criança nem mesmo sabe ou pensa sobre ser humana e não outra coisa, ela tem tudo em si: o humano, o animal e o natural, sem arrogância e com o desprendimento próprio da alegria.

Criança é a expressão potencializada, mergulhada em si mesma, da criação. O primeiro adulto só veio depois de alguns anos. Foi o homem adulto que inventou a arrogância. Inventou também a resistência aos fluxos, principalmente aos fluxos involuntários que fazem lembrar o fato natural e cósmico – a vida, o sexo, a transformação, o movimento, a morte – a conexão com o universo deste Ser tão estritamente social que o homem quer ser.

O homem não se separou da natureza realmente, ele apenas aprendeu a separar as coisas em sua cabeça, onde, então, passou a viver, para fingir que está em segurança, logo perdendo contato com seu corpo, ou com a parte de baixo do seu corpo, onde tenta sobreviver, sufocada, a natureza involuntária, vegetativa, tão ameaçadora ao controle consciente e mental do homem. Foi o homem adulto que olhou para a infância – a sua própria e a dos outros – e a determinou como um estágio a ser integralmente superado. Não mais ser criança, um ser em formação, um processo autocriador incessante, mas já totalmente constituído e finalizado… para ser já um adulto, um ser formado, um processo “concluído”, quer dizer, enrijecido para a vida, e logo nem mesmo um adulto, pois não poderá, com tanta rigidez, ser realmente responsável (isto é, ter a capacidade de responder por seus pensamentos e atos), mas um ser infantilizado, preso em seus narcisismos. Nesse sentido, a criança ainda não maculada pelas perversões e repressões adultas é muito mais, verdadeiramente, responsável

O artista é, em nossa sociedade, muitas vezes comparado à criança, como é dito dele que ainda possui em si, viva, uma infância. Mas, ao fazer isso, a sociedade separa tanto o artista quanto a criança, do que seria “normal” ou “desejável” ao adulto sério e disciplinado, quer dizer, neurótico. O problema está aí: todos deveriam ter o direito de ser criativos e crianças? O problema é que nem mesmo a criança, quase sempre, tem o direito pleno de ser criança, e livre. Na vida adulta falamos de maturidade e imaturidade. Por exemplo, nós mesmos poderíamos dizer que é uma imaturidade grave da sociedade ainda separar o artista típico e a criança de todos os outros indivíduos sérios e disciplinados. Mas existe o equívoco de comparar a imaturidade à infância, à duração estendida da infância, como se a maturidade fosse necessariamente uma superação completa do seu estado de criança. Essa imaturidade é geralmente notada nos impulsos antissociais e narcísicos de muitos adultos. Porém, estes impulsos só existem porque sua infância (ou sua vida, na infância) foi, de alguma maneira, reprimida, sua potência interrompida. A criança é o ser verdadeiramente social por excelência, quer amar e ser amada, e mesmo seus impulsos agressivos se resolveriam socialmente. “Verdadeiramente social” quer dizer que, este, não se separa do verdadeiramente natural… Não vê estes termos, social e natural, como mutuamente excludentes… A questão passa a ser: a sociedade que construímos para nós acolhe ou não – ou pelo contrário, repele, evita, reprime – a dimensão natural do mundo e dos seres, suas pulsões?

Qualquer impulso antissocial ou odioso em uma criança é um desvio, sinal de uma imposição adulta que está sendo feita contra a sua felicidade espontânea de criança amorosa. As crianças realmente precisam ser protegidas de uma sociedade tão secularmente doente e cheia de ódio, e ensinadas a protegerem-se, quando necessário: mas quantas vezes os próprios pais não desprotegem, não expõem as crianças às suas piores neuroses, a seus mais duros enrijecimentos?

Estes artistas que relacionam seus talentos criativos com uma estrutura psicológica neurótica, problemática, melancólica, estes antissociais que glamourizam neles mesmos um psiquismo de criança – algo como, “eu não sou como os outros, é assim que eu me expresso”, “sou um excluído e sobrevivo na minha arte” – que adoram identificar sua arte com uma infância preservada, muitas vezes são pequenas crianças perversas, narcísicas, ainda vivendo a situação de sua repressão original: presos em seu passado de repressão, nostálgicos de um passado longínquo onde sua vida foi perdida e se tornou inacessível, como todo “bom” adulto neurótico. Provavelmente, não conversam com as infâncias dos outros, brincam sozinhos com seus bonecos e não sabem se expressar no mundo fora-de-si, muito menos entrar em relação com a infância do cosmos. E parece haver um interesse social na manutenção dessa imagem do artista… ou de um certo tipo de artista…

Quem pode manter de fato uma infância viva e livre dentro de si é aquele que saberá, inclusive, ser adulto, sem ter que reprimir uma infância, um estado de criança, dentro de si: sem querer reprimir também as infâncias, os estados de criança, dos outros, e sabendo a seriedade, a responsabilidade que pede a defesa da vida livre. Toda a questão do Ser, o antigo conceito da filosofia clássica, está aí: como ser um homem sem ter que, por isso ou para isso, reprimir a feminilidade que existe ou pode existir em você? Como ser social sem ter que reprimir a natureza que pulsa em você, e vice-versa? Como ser voluntário, sem reprimir o involuntário? Ser consciente sem evitar a todo custo a percepção e a fala intuitivas do inconsciente? Estes elementos são como peças que apenas juntas e bem encaixadas, quer dizer, integradas, com a articulação livre, movimentos espontâneos e alternados de contração e expansão, e de troca de fluxos, possibilitam bom funcionamento da vida nos organismos… E a expressão de sua total potência.

Considera-se a infância como se não fosse séria, como um estado a ser superado. “Agora, enfim, tornou-se um adulto”. O antissocial adulto não é exatamente quem não superou a infância em seu estado livre, como se tivesse que reprimi-la necessariamente para passar a um estado “superior”: é apenas um desviado do seu próprio fluxo de criança livre. Ele chegou a um estado no qual não pode mais ser nada: foi impedido de ser criança, e logo também de ser adulto. Ele se ressente de sua infância interrompida e não consegue mais vivê-la (nem superá-la) plenamente. Um adulto que ainda viva sua infância plenamente, é muito desejável, pois é alguém que saberá e poderá também viver plenamente a sua vida adulta responsável. Responsável no sentido daquele que sabe e pode responder por seus atos e pensamentos, e tem a capacidade de responder aos estímulos do mundo, às coisas que vê, presencia e recebe da vida: e, assim, vai direta e agressivamente na direção do que quer para si e para o mundo, e pode responder por isso.

A arte, tal como é aceita pela nossa sociedade, é vista da seguinte forma: “então alguns ainda são crianças”… A nossa percepção, então, é a de que existem formas de “aceitar” algumas coisas que são, na verdade, reconfigurações castradoras dessas próprias coisas: aplica-se uma existência controlada a algo que não poderia apenas deixar de existir completamente. Se existe algo que é ameaçador, e que não se pode eliminar por completo – pois se trata de uma pulsão da vida – deve-se controlar tal coisa. Então, em vez de se criar um real conflito frente à verdadeira coisa e sua expressão concreta, e assim correr o risco de ser derrotado eventualmente, aceita-se a coisa (que, em si mesma, é indeterminada, molecular, em perene movimento) de uma determinada e rígida maneira. Logo, imediatamente, opera-se uma reconfiguração e, no fim, a coisa já não é mais tão ameaçadora quanto seria em seu estado pleno, e passamos a conhecer apenas, no tecido social, manifestações secundárias, “pervertidas”, da pulsão que a animava. Isto é a arte.

O grande esforço e desafio dos sistemas capitalistas é de como trazer estas “crianças” da arte para dentro do sistema, como abraçá-las e inclusive fazer delas e com elas uma economia e uma cultura, um sistema de referências estético e também financeiro, monetário, mercantil, que além disso tudo ainda alimente o sistema, renda dinheiro aos grandes e pequenos capitalistas. Mas sabemos que não é isso o impulso artístico, nem o estado de criança: ambas as coisas, que são também uma só, elas ignoram a existência de um sistema: elas, aliás, existem mesmo na inexistência de um sistema político que pressione para determinar seu destino, regulá-las, e impor a elas um princípio, um meio e uma finalidade.

Quando um sistema consegue entrar para regular os fluxos, é quando se tem a Arte como disciplina – e todo o sistema de referências e redundâncias, a História da Arte, os críticos das obras, a avaliação da boa ou da má arte, todos os museus etc. – e não mais o impulso artístico e o estado de criança. Já se tem, então, uma arte regulada por um poder, uma arte neurótica, separada da vida.

Um ponto importante dessa história, é claro, é o fato de que existem muitos artistas – alguns vistos inclusive nos museus e galerias mais célebres desta sociedade – que fogem, escapam ou tentam escapar da grande lagosta sistemática cujas garras apreendem uma expressão e iniciam uma bateria de classificações, reduções e assimilações estereotipadas. Se é arte ou não é arte… Se é boa arte ou má arte… Que tipo de arte é, etc… E, é claro, não foi para isso que muitas daquelas obras foram criadas. Estas, muitas vezes, nem mesmo são exatamente “obras de arte”: foram expressões espontâneas, viscerais, de grandes seres viventes, capazes de entrar em contato com a sensação intensa da vida, com suas “sensações de órgão”, suas “correntes vegetativas” profundas (Reich), e de expressar isso com alguma força, de causar mais uma vez tal sensação num “espectador” de arte que ainda fosse capaz de captar uma ressonância da espontaneidade vital, que, como tal, é sempre um reflexo da força criadora/criativa da vida…

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Outros, por mais que iniciem seus processos com a espontaneidade do impulso criativo vital, logo se interessam demais pelas garras da lagosta e as vantagens sociais de uma prisão benevolente e patrocinadora. Seria preciso destruir, desmembrar e degustar de uma vez por todas essa lagosta, comê-la inteira até que não sobrasse mais um só pedaço, e restasse apenas a vida para ser vivida.

Certa vez, alguém nos disse – aliás, enquanto escrevíamos a primeira versão deste texto: “não se pode impor a um artista um cronograma”, um tempo e um espaço determinados de trabalho; a criatividade não se encaixa, não obedece a estas determinações. É preciso que o trabalho (para um artista) seja a realização do momento, da hora, do presente. Não uma escala já dizendo o que terá de ser feito amanhã, e depois de amanhã, e a que horas, mas apenas as feituras espontâneas cujos tempo e espaço sejam livremente (in)determinados, fluidos, maleáveis, ainda que em algum momento muito concentrados e aprofundados, imersos.

Perfeito. Mas, a partir disso, nós respondemos aqui: é preciso parar de dar esse privilégio a poucos excêntricos, aos nobres artistas. É preciso restituir a todos o direito dessa arte, a cada um a sua excentricidade, o seu exotismo. Não estou falando apenas em formar mais cineastas, mais pintores ou escritores – isso já acontece cada vez mais nessa mesma civilização negadora da vida e da verdadeira criatividade. Estou falando de pensar, criar e alimentar formas de vida que possam libertar as pessoas (ou pelo menos as que querem se libertar) de um estado de miserabilidade, ou de um estado de sobrevivência, de descrença crônica, e que possibilite que recuperem a radicalidade de seus caminhos para, ao renascerem para si mesmas, utilizarem sua energia diretamente na (re)criação e na (re)invenção da suas próprias vidas e também da vida comum, (re)criação e (re)invenção do espaço onde acontece a vida, e que, recriado, esse espaço possibilite a experiência. “Se vamos morrer com a totalidade de nossas vidas, por que não viver com essa totalidade?” – diz o índio Don Juan a Carlos Castañeda.

A forma que esta civilização encontrou de conter o fluxo involuntário geral da pulsão vital (em si criadora, criativa, “artística”) que quer expressar-se em formas externas, foi criar o nome Arte como uma disciplina entre outras e separada destas, e em seguida categorizar os fluxos artísticos e fixá-los num sistema de redundâncias e referências. Quando um “Cubismo” se forma, por exemplo, toda a pulsação vital “artística”, espontânea, que gerou a primeira onda cubista viva já começava a ser aprisionada, domada… O modernismo, nesse sentido, foi a grande máquina de aprisionamento de fluxos artísticos em células identitárias: todos os “movimentos”, que em grande parte são paralizações, membranas rígidas paralisadoras de ondas imensas, de uma quantidade extraordinária de vida… sujeita, então, a regras, ditames, “sociedades”, normas, estilos que possibilitavam a identificação. O surrealismo, o minimalismo, qualquer-coisa-ismo.

E a sociedade do estágio globalizado de nossa civilização, que alguns chamam de pós-moderna, encontra diferentes formas, maneiras e mecanismos de conter (ou afastar) a pulsão e a pulsação vital e verdadeira, profundamente criativa, na vida humana: seus mecanismos, inclusive, implicam numa aparente libertação das barreiras modernistas, que resultam numa total difusão (e neutralização) das potências. Isso nos mostra que as membranas são importantes… Acabar com os contornos e membranas para superar a rigidez, não dá certo, pois ambas as dinâmicas são prejudiciais: numa, as potências estão presas; noutra, as potências escorrem… Além disso, os mecanismos pós-modernos nem mesmo parecem mecanismos: são ainda mais positivos, inclusivos, benevolentes, patrocinadores. Produzem mais desejos, saberes, vivências e recompensas, acesso à informação, comunicação e tecnologia, e invertem o jogo: hoje, são os próprios viventes que desejam estar dentro do sistema e de seus círculos e formas, e que, além disso, alimentam as ferramentas do sistema com muito conteúdo…

Pois este é o maravilhoso sistema das economias criativas, das redes de coletivos, dos designers e publicitários, que ganham muito dinheiro para exercer o seu talento e alimentar a multidão de arte e cultura – os operários da era do trabalho imaterial, aparentemente livres, adorando trabalhar para os seus patrões invisíveis e aplicando sobre si uma imagem, um simulacro, de artistas. O sistema das redes sociais que implodem o social, do contato levado ao extremo até a impossibilidade do contato, assim como da invisibilidade e da indisponibilidade temporárias, da impossibilidade mesma da relação, e da implosão total do sentido através da inflação da informação, como já apontava Baudrillard…

Hoje, todos, ou tantos, adoram a sociedade: acreditam tanto no social, que apostam nele. Mesmo filósofos políticos de linhagem revolucionária, questionadores da ordem, gostam de dizer que hoje não se pode pensar em mais nada que não seja da ordem do social – e, dizendo isso, reiteram, reforçam a retirada total do MUNDO, querem nos impedir de pensar na natureza como se isso fosse “coisa de hippie”, pensar no MUNDO, este que já não temos mais, do qual fomos despossados, como dizia Deleuze. Esquecem a comunidade, a terra, o mundo e, muito mais, ainda, a existência de um cosmos infinito, insondável: nesse sentido, estão exclusivamente jogando o jogo da sociedade, e assim não vão muito longe…

Na publicidade, quando falam do mundo, falam do aquecimento global, de sustentabilidade, de projetos que valorizam o meio-ambiente, e não percebem que falam ainda da sociedade: a sociedade capitalista encontrando ainda uma forma de sugar para si o mundo e usá-lo ao seu favor. E, assim, os coletivos de hoje, em sua grande maioria, são os coletivos do social: mesmo os mais aparentemente revolucionários podem estar apenas reiterando a ordem global de controle, ou sendo inofensivos a ela.

Onde estão os coletivos do Mundo? Que vão tocar a Coletividade? Que vão mundificar o globo, e não globalizar o mundo?

Não globalizar o mundo. Mundificar o globo.

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PARTE 4: ARTE, COLETIVIDADE E ESTADO DE CRIANÇA

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Enquanto isso, a “pulsão de criação”, a “pulsão de arte” é aquela que nos leva a um processo intenso e espontâneo de criar, inventar e reinventar – um processo expressivo e contemplativo ao mesmo tempo, de uma percepção que não é passiva, e de uma ação que comporta tanto a reflexão quanto o amor, a entrega e a agressividade. O impulso criativo/artístico vem (e estava no homem) antes mesmo da razão – antes do nome Arte ser dito pela primeira vez, antes de qualquer nome ser dito pela primeira vez. É o momento em que, crianças, vivemos plenamente qualquer que seja a forma e a expressão recém-descobertas ou inventadas para celebrar a natureza e o fato de que fazemos parte dela, de que estamos conscientizados dela, e nela, de que a temos em nós: celebrar o fato de que a natureza é inteligente, organizadora, criadora e transformadora, e se expressa também através de nós. O suficiente para criar a tudo e a nós mesmos, e nos manter vivos independente do nosso esforço consciente de controle. Daí que o improviso, na arte e na vida, é uma forma de deixar alguma força involuntária, inconsciente e viva falar em nós, e através de nós, em vez de apenas executar um planejamento consciente e prévio. Acolher a fluidez dos movimentos criativos e expressivos da vida, e deixar acontecer… para ver, no processo, no que isso se transforma, o que isso vai dizer, ou mostrar… para nós mesmos, tanto quanto para os outros.

A vida deve ser nossa criança. A vida poderia ser aquilo que nós fazemos o tempo todo, que se cria em nós e que criamos no mundo, e que tem a nossa marca, a nossa singularidade, e que temos não para possuir e controlar a todo custo, mas para deixar existir plenamente e ir para onde quiser, de fato e profundamente, ir. Para deixar transformar-se, seguir novos rumos. Nós estamos aqui para estarmos aqui, de verdade e profundamente, em nós mesmos, com o outro, em movimento, e no momento. E nós estamos aqui também para ir, quando desejarmos. Participar totalmente do presente de nossas vidas é fazer das nossas vidas as nossas crianças.

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Rômulo Cyríaco, julho 2015

 

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