#19 Edição/artes visuais/cinema

Arte, Coletividade e Infância

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PARTE 1: ARTE

A arte só existe porque não pode ser, simplesmente, a vida.

Quer dizer: a arte – tal como existe e está organizada em nossa civilização, perpassando sociedades e culturas – é o resultado regulado, contido, ou mesmo desviado, do impulso criativo vital e espontâneo que existe em todos os seres.

Poderíamos falar então de uma “pulsão de criação”, parte integrante da vida instintual de todo indivíduo humano antes do corte civilizatório da criatividade, que inventa então a “arte” como instância reservada para poucos. Essa “pulsão de criação”, deste ponto de vista, seria a expressão criadora/criativa da própria pulsão de vida, quando em toda a sua potência e vibração, liberada nos corpos, e na relação entre os corpos, e destes com a terra e com tudo o que compõe esta terra, o habitat.

O cosmos é criador, e nos criou: nós, humanos, nos tornamos conscientes da criação e da existência, e a expressão da vida livre seria, então, uma expressão de criação: exprimir, e celebrar através dessa expressão, o poder criador da vida tal como percebido por nós, ao nosso redor, em nós mesmos e em todo lugar. Pois a vida existe, pulsa, flui, e seria preciso permitir que ela se expresse também através de nós, que nossas obras de arte sejam as obras da vida que se expressa através da gente – que nós não sejamos um bloqueio. E o que se criaria artisticamente, então, seriam as múltiplas e possíveis formas da vida, ou formas de vida, sobre a superfície de um tão vasto planeta, em algum lugar num tão vasto e naturalmente generoso universo.

A arte, nesse caso, tornar-se-ia expressão profunda e ativa do mistério da vida – e de todos que participam da vida, e de seu mistério; atividade lúdica vital, em que pintar, fazer, criar e jogar teriam como única finalidade o próprio processo, isto é, a celebração em si da alegria, da intensidade de sensações diante da natureza; a expressão em si das emoções, das relações, a obra intensiva da existência.

A criação seria expressão, externalização expressiva espontânea, da vibração interna da energia da vida nos corpos (isto é, de sua e-moção, de seus incessantes movimentos endógenos) e seria investida diretamente na organização, na expansão e na transformação da existência individual e comum.

A “pulsão de criação”, então, vista como experimentação vital da vida e na própria vida: do que é possível fazer, material e espiritualmente, com essa existência que nos foi dada. O artista seria então o vivente, aquele que vive com sua vida inteira e que dedica toda a sua energia, integralmente, à criação de sua vida, das formas de vida, criadas, que possibilitarão a expressão do seu potencial vital máximo.

Este impulso, não fosse tão reprimido – desde a mais tenra e terna infância, quando a vida ainda se move espontaneamente, e assusta aos adultos apavorados com tudo aquilo que se move por conta própria, sem controle consciente – e, assim, se pudesse ganhar expressão direta no mundo, seria investido na existência e na construção cotidiana da vida individual e coletiva, independente de um reconhecimento celebrizante, de carreira aclamada, de premiação elitista: objetivos secundários, estes, do que temos e entendemos como arte, mas não da pulsão de criação, espontânea, vivida como processo e real experimentação (que é a experimentação do real).

Como é reprimido o impulso – e simultaneamente, como toda pulsão, não pode ser totalmente abafado e destruído, e continua pressionando de dentro para fora para vir à tona – precisa então ser organizado e contido pelos sistemas de interrupção de fluxos na paisagem sociocultural, e, para que o trabalho seja bem feito, fetichizado e mercantilizado, celebrizado, objetificado, mecanizado, tornando-se então um mero sistema referencial e inofensivo, glamouroso e cheio de status e hierarquizações, em galerias, museus, catálogos e feiras de arte assépticas, frias, higienizadas, em que obras são acompanhadas de um aviso: “por favor, não tocar”.

Existem esforços demarcados nas estruturas sociais, culturais e políticas, no macro ou no micropoder, para que arte e vida sejam mantidas como duas instâncias muito bem separadas: a arte como uma “área” da vida, uma disciplina, um espetáculo disponível para o consumo, ou mesmo acontecimento nobre para a fruição e a contemplação, e para o domínio dos especialistas. “Uma área muito importante…”, “Devemos estimular a arte…”, diz o poder. E é nesse sentido que os maiores financiadores da arte podem ser, ao mesmo tempo, os maiores contenedores do impulso artístico, percebido como pulsão vital íntegra que ultrapassaria barreiras, ignoraria as falsas fronteiras entre arte e vida, natureza e sociedade, e que, potencialmente, tomaria todo o território do que é vivo. Em vez disso, é o poder (sempre falso) que ignora as fronteiras (mantendo-as onde é interessante e desejável para o controle) e tenta dominar toda a integridade do planeta, ocupando todo pequeno espaço com que, anteriormente, a verdadeira arte, ou seja, a vida, havia flertado.

Toda a história do poder, ou dos poderes, é a história da luta contra a potência: o que os sistemas políticos, todos, estão tentando evitar ao máximo é a expressão livre da potência do animal humano. (A vida, se deixada livre, lhes parece algo ameaçador, pois imprevisível). Ou são os animais humanos, em sua maioria, que querem evitar o contato com sua potência e passam a organizar sistemas de contenção em ampla escala, para que eles mesmo estejam seguros? Como disse Nietzsche: “Todas as regulações do humano estão organizadas para o fim de que a sensação intensa da vida seja perdida em constantes distrações”. Mesmo a arte se torna apenas mais um braço de um sistema de contenção de fluxos.

Fomentam, valorizam, financiam a arte e a cultura, sem parar. Ministérios, secretarias, programas de fomento, editais, incubadoras: ontem, a indústria cultural, hoje, também a indústria e a economia criativas. Mas o que financiam é, na verdade, uma determinada existência da arte: a arte como disciplina humana… para os que sonham em viver de criação… A arte que, em outro momento, em seu estado pulsional, teria gostado de não existir como disciplina para ser indiscernível do exercício da própria vida material, afetiva e espiritual na terra. Aos seres humanos, nesta civilização do fim, que culminou na civilização do pós, não se permite que participem plenamente dos seus presentes: suas vidas não são verdadeiramente suas. A tomada da vida pela vida, isto é, a tomada da vida pelos viventes, pelos que a vivem, e a criação expansiva e exuberante, livre, desta vida: é o que seria a arte, considerada como expressão criativa da pulsão de vida.

Para essa arte, não seria necessário o fomento e o financiamento: seria necessária, apenas, a liberdade para a vivência plena e espontânea da experiência. E a liberdade, principalmente, para a experimentação inteira daquilo que não pode ser controlado a não ser temporariamente e com muito esforço: a própria vida e sua energia, as emoções, a sexualidade… Como esta liberdade, no plano sociocultural, legislativo e moral, está impedida, é preciso que o poder financie e fomente a “arte”, isto é, a membrana rígida que os “poderosos” alimentam e mantêm, com seus programas, para conter ali dentro a energia criativa que ainda insiste em pulsar nos humanos, e que, fora dos humanos, ainda pulsa livremente no cosmos. E que o espetáculo impeça as emoções através do sentimentalismo, da estereotipia, da artificialidade mais engessada; que impeça a sexualidade através do moralismo, ou da pornografia, da caricatura e da banalização totais, entre outras coisas.

O interesse dos sistemas de poder parecer ser o de que a arte (assim como a sexualidade, a vida emocional etc.) continue existindo de uma determinada maneira e nunca passe, nunca se transmute em outra coisa, aberta ou indeterminada: outra coisa que eventualmente pudesse sair do seu controle.

O ser humano é um bicho esquisito, porque está regulando para si uma vida social, cultural e política – assim como acadêmica, intelectual, comunicacional – que está toda voltada para o objetivo de esconder de todos os seres humanos (incluindo os agentes do controle) a verdade de que, caso abdicássemos de todo esse controle rígido, e vivêssemos em liberdade, nada de mal iria acontecer… Enquanto isso, a liberdade é temida como o próprio Diabo, e os seres humanos não hesitam em dedicar a própria vida à defesa das leis e dos limites mais rígidos, para não terem que enfrentar jamais a liberdade, e a responsabilidade que ela exige.

Sobre a criatividade, a fórmula dos sistemas de poder parece ser: como garantir a imobilidade milenar da pulsão artística e criativa vibrante do ser humano, fomentando mais um pequeno movimento inofensivo (tornado inofensivo pelo próprio financiamento) de parte dessa energia, e torná-lo belo, torná-lo nobre, fazê-lo ser catalogado, estudado, classificado, revisado, comparado, citado, referenciado, enfim, abraçado e sufocado no domínio do importantíssimo “consumo” de “cultura” e de “arte”, nas indústrias culturais, nas economias criativas do capitalismo dito pós-moderno, globalizado, isto é, na sociedade de controle?

Imaginemos um casal de pais controladores, que encontram uma forma de controlar através de uma permissividade estimulante, generosa, mas determinada, que dá dinheiro aos seus filhos, mas com a condição de que estes se mantenham por perto, de que não transitem para muito longe: o filho vai então distrair-se, aventurar-se no parque de diversões ou no shopping center ali perto, vai se sentir muito excitado com isso, enquanto os pais podem controlar seus verdadeiros fluxos desejantes com um olhar perverso, sabendo muito bem que os filhos retornarão por mais dinheiro e desejarão mais e mais a vivência espetacular do consumo.

Em que momento a pulsão criativa vai fazer coisas, e mais coisas, que os candidatos ou auto-eleitos ‘pais’ financiadores, capitalistas, patrocinadores, nem mesmo saibam o que está acontecendo, nem mesmo possam saber? A arte anônima, invisível, impassível de ser apreendida pelos juízes, compreendida, divulgada pelos cadernos culturais; que nem mesmo se individua como arte ou anti-arte, que resiste ao registro, à bajulação, à análise dos especialistas, à contratação? A arte do movimento infinito, que não caberá numa matéria do Jornal O Globo, nem mesmo numa revista especializada, e nem mesmo num blog jovial da nova era tecnológica da informação democratizada e generalizada, inflada – em que, como diz Baudrillard, vivemos um proporcional esvaziamento de sentido – em um post de rede social?

Quando haverá a “geração invisível” sonhada por Burroughs, aplicada e implicada na criação/recriação incessante da vida material, espiritual, corpórea, sensual, lúdica, cósmica, e não no planejamento e na divulgação da vida imobilizada e embelezada, aperfeiçoada, com filtros? A geração que resistirá uma última vez com radicalidade ao aniquilamento total da vida transformada em informação, em simulacros de existência plena para cafeinados hiperlinkados?… Que resistirá à perda final da experiência corpórea, à digitalização de toda a experiência? Que quererá ainda mais uma vez sentir a materialidade das coisas passageiras e eternas, cheias de espírito e mistério? Que viverá ainda mais uma vez uma experiência de revelação, ou, então, todas as experiências como revelação?

Seria preciso começar a tratar o sistema não mais como o pai financiador, mas como o bisavô ou o tio-avô distante que nos olha perdido, nem mesmo entendendo o que estamos fazendo, tamanho o abismo entre nós: ou talvez o contrário, olhar para esse sistema tão benevolente, inclusivo e pós-moderno nós mesmos como tios-avôs distantes (meio excluídos…) mas terrivelmente potentes, ainda ligados à primitividade sempre contemporânea, à contemporaneidade sempre primitiva e selvagem da vida, que resistimos a apenas entender e aderir ao tecido social das jovens crias da sociedade do controle apenas porque eles são bons em fazer tudo parecer – mas apenas parecer – muito novo…

Os sistemas de controle querem nos alimentar de um medo de romper com eles, de resistir e se voltar contra eles, pois, mais à frente – nos lembram eles – podemos precisar de um patrocinador, de um sistema que nos aprisionaria para em troca nos dar mais dinheiro, mais fama e reconhecimento, uma bela carreira cheia de status, glamour e bajulação. Assim, meias-vidas são meio-vividas, arte faz-se pela metade e sem pulsão, por medo de não se ter nenhuma vida, ou nenhuma arte, mais à frente. Não seria melhor correr os riscos vitais/mortais da vida e tê-la inteira? Ter a arte por inteiro, como pulsão de criação investida na própria construção da vida? Arte verdadeira disseminada na experiência vital? Parar de agir de acordo, mas também em reação a um sistema que estabelece os parâmetros, positivos e negativos? Redescobrir o planeta, reacessar o mundo, que ainda deve existir por debaixo deste simulacro doente de sociedade? Desta roupagem social artificial que se apresenta como a grande verdade, mantida diariamente pelos jornais e noticiários – e perceber que a arte na verdade sai do chão e vem do céu, e do cosmos, circula no ar e pulsa nas entranhas? E que, dessa forma, nem arte seria, mas seria a própria vida, a vida inteira e sua expressão?

Os livros, as academias, os mestres, controlam o conhecimento; as galerias e os museus, e também os seus especialistas, controlam a arte. Em que momento o conhecimento e a arte vão jorrar dos livros, das galerias e dos museus, das salas de cinema para a vida? Estão querendo transformar os mares da criação num copo d’água. Em seguida, elaboram um edital para que nós concorramos a tomar um gole desse copo. Todos sabemos que o mar se move sem parar e nem mesmo sabemos como, o que faz com que ele se mova assim: toda esta civilização vai acabar, um dia, e ao lado de suas ruínas e fósseis, as ondas do mar continuarão indo e voltando nas pedras e nas areias: até que todo o planeta acabe. O mar é o inconsciente, é a força involuntária da vida, e está disponível a todos, de graça! Um dia os milhares de perversos copos d’água dos sistemas que trabalham juntos para conter o mar em pequenas frações controladas vão quebrar, e não vai haver retorno. Nem que a própria terra tenha que engolir esta civilização.

Há uma grande batalha da morbidez social contra a vida natural pulsante, e, em quase toda a reflexão filosófica (e, principalmente, sociológica) que se faz sobre isso, parece que existem poucas saídas. Mas, será mesmo? Se não exatamente paramos para pensar, mas, em vez disso, sentirmos ainda um pouco em movimento, veremos e compreenderemos que a pulsação natural da vida já venceu esta batalha, a longo prazo. A morbidez dessa sociedade pode ser vencida. A vida natural pulsante não: pode ser apenas parcialmente contida, reprimida, e com muito esforço… Até que um dia virá à tona novamente, nem que seja preciso esperar o fim desta civilização humana e que o planeta retome a liberdade da vida sem obstáculos.

As maiores obras de “arte” até hoje realizadas são aquelas que tremulam, apontando para fora, que ultrapassam as (ou ameaçam ultrapassar, estimulam a ultrapassagem das) barreiras, que apontam para uma direção na qual vão deixar de ser “obras de arte” e tocarão diretamente a vida. O quadro mais arrebatador de um museu faz um movimento de ultrapassar o próprio museu, deseja ir para a rua, para a experiência: e o museu está ali para nos lembrar que isso ainda não foi possível.

O melhor dos filmes não é apenas um filme, não um entre outros: aponta numa direção de existência, ameaça vazar para fora do cinema, da História do Cinema, e inundar a própria vida com uma possibilidade de mundo, uma outra possibilidade de mundo. “O cinema revela ao espectador alerta um mundo pulsante de possibilidades que pedem por reconhecimento e resposta”, diz André Bazin.

Nesse sentido, é positivo pensar numa dissolução do espectador (ou seja, daquele que contempla separado da obra) para que o indivíduo entre numa relação de corpo com a obra, esta vivida como um objeto vivo, estranho, ameaçador – pois traz consigo o novo e o desconhecido, ou talvez a possibilidade de que vejamos, no tecido material da vida, o novo e o desconhecido que atravessa e vive em tudo o que existe… A obra, então, enquanto vibração expressiva de vida, torna-se indiferenciável da vida que vibra no corpo daquele que a experimenta; um potencializa o outro: há um ganho de vida na relação.

Um grande filme não é aquele feito para aparecer em listas e ser reverenciado como uma referência cultural indispensável para homens cultos ou pequenos narcisistas encerrados nos sistemas colecionáveis e fechados, autorreferenciais, que criam para si. Um grande filme é um grande não-filme, é um pedaço de vida (em filme) apontando para outra vida, emitindo um sinal vital de potencialização das emoções e das expressões, dos sonhos e das experiências, e do contato com os mistérios insondáveis deste mundo, que não pode ser totalmente conhecido pelo homem mecanicista. É um grande arrebatamento total, filme e não-filme. O bom filme, nesse sentido, o filme que funciona, dá fortes resultados não-fílmicos.

O melhor dos livros não é só um título a ser estudado, comparado, referenciado: é um portal, passaporte para outra coisa que vai além da literatura, assim como o que dá origem aos livros e aos filmes não é a literatura e o cinema, mas o que vem de fora. O mesmo valendo para qualquer veículo artístico ou meio de expressão: quer sempre ultrapassar a si mesmo para chegar na experiência, pois veio da experiência e quer reencontrá-la mais fortemente adiante. Não é para reencontrarmos a vida que lemos, que vemos filmes, que vamos a exposições? Por outro lado, quantas vezes, ao lermos livros, vermos filmes e visitarmos exposições, não encontramos apenas a morte ou a morbidez dessa civilização imobilizada no espetáculo, e nos encontramos ainda mais distantes da vida, do mundo, da rua, do acaso, do real, da natureza espontânea?

Boa parte do trabalho, nesse sentido, está do lado da recepção, do público, da crítica e da teoria. Isto é: o público e os críticos podem já estar absolutamente insensíveis à vida, e não adiantaria colocar diante deles uma obra que vibrasse; eles não saberiam ver, sentir, pelo contrário, não o quereriam, e fariam de tudo para conter o perigo ali oferecido através de estratégias (conscientes ou não) de neutralização intelectuais e textuais. Por outro lado, é necessário que o público e a crítica que ainda são capazes de sentir, possam não apenas perceber, mas, através das ressonâncias da obra em seus próprios corpos, possam potencializar a vida que há na obra via respostas igualmente, às vezes até mais, potentes. Enxergar não a obra, mecanicamente, mas a vida que a obra fez passar, e intensificar isso.

Quando se trata da obra de arte apenas dentro de um contexto “artístico”, encerrado em si mesmo; da literatura fechada e empoeirada na biblioteca, de um autor relacionado a outros, por especialistas; do cinema, da arte, presos em sua própria história, em sua crítica, em seu fetiche… Quando se faz isso, e apenas isso, devemos começar a questionar a existência e a relevância dessa tal arte da qual tanto se gosta: ou melhor, questionar a existência e a relevância desse tal gosto pela arte. Como diziam os situacionistas e Guy Debord: destruir a arte; desmoralizar seus fãs.

Destruir a arte como identidade, aquela dos livros de História, dos cursos de História da Arte para madames entediadas ou das oficinas pós-modernas para alternativos bem vestidos, das glamourosas galerias e vernissages para uma certa elite, das capas dos respeitadíssimos cadernos culturais dos jornais fascistas sofisticados, dos sites e blogs estilizados ou artificialmente descolados na Web, das colunas sociais, do reconhecimento global e massivo (ou regional e de nicho) que leva à tão desejada fama, graus de fama, dos invejados privilégios de backstage e de área VIP, dos cachês milionários de alguns poucos célebres adorados, endeusados, premiados, luxuosos, leiloados, da imobilidade do conhecimento dos grandes especialistas do mercado, das grandes obras-primas catalogadas em grandes volumes e com que conceitos e com que outras obras se relacionam, a quem e a quê se referem. Destruir a arte como fetiche, como o contrário da vida. Desmoralizar seus fãs.

A arte poderia ser anônima, invisível, molecular – a arte e o seu antigo encontro marcado com o desejo – para espalhar-se indeterminadamente como combustível orgânico, espiritual e fluido da vida, nos corpos, nos encontros, nas comunidades, nas ruas das cidades, nos gramados e nos campos. Criação individual e/ou coletiva contínua e espontânea da vida, para a vida. Criar e recriar a sua vida material, para que suas formas e caminhos recebam com maior acolhimento a força indomável do teu espírito: é isto arte. Anônima porque conhecida de todos, por todos. Invisível porque visível em tudo o que se vê. Molecular porque constitutiva de todas as individuações, com suas qualidades e potências, e sua força transformadora própria, que se agita a cada movimento.

Da vida, para a vida. Esta que muitos já não conhecem mais.

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PARTE 2: COLETIVIDADE

Todos devem ter o direito de ser artistas.

À sua maneira, mesmo sem, necessariamente, o uso de técnicas/linguagens específicas como o cinema, a literatura, a pintura etc. Apenas com o livre fluir do impulso primário de criar e recriar, inventar e reinventar a si mesmo e à sua própria existência, e à paisagem exterior onde esta se dá.

Não mais a arte individual e a arte coletiva, mas a individualidade e a coletividade e seus agenciamentos de criação e transformação, suas trocas incessantes, um passear contínuo entre uma e outra. Indivíduos potencializados, fascinados pelo coletivo expansivo; coletivos potentes, abrigadores do indivíduo em expressão.

A arte, esta disciplina tão “humana” que, por um lado, é a última defensora da liberdade vital e poética que resta no mundo e, por outro, justamente o que delimita e dimensiona esta mesma “liberdade” e as possíveis (mas ainda não realizadas) expansões radicais das correntes pulsionais criativas de todos, viria a acabar como “área” de expressão e conhecimento, para que seu impulso de base pudesse ser pulverizado e generalizado em todas as experiências humanas possíveis: que tudo, absolutamente tudo na vida fosse dado à expressão e ao conhecimento, ao amor e ao trabalho espontâneo investido na construção de uma vida livre em que todos pudessem satisfazer suas necessidades básicas, brincar e crescer.

Todos devem ter o direito de ser artistas e criativos? Não! Mentira. Este seria apenas mais um slogan – a ser explorado por um projeto das indústrias. A criatividade não espera por nenhum direito, ela funciona desde sempre, sem projeto, e ignora qualquer direito ou não-direito de ser: ela é, porque ela pulsa como a vida. Um direito teria de ser dado por outro. Por quem? Um não-direito teria de ser imposto por outro. Por quem? Ninguém! Não há ninguém na frente da pulsão de criação, da arte de todos, que pode ser de todos. Basta retomar a construção das nossas próprias vidas e a criação das situações que queremos viver, falando uma vez mais como os situacionistas e Guy Debord, quer dizer, falando mais uma vez da própria vida material, espiritual e afetiva e de suas formas, de suas possibilidades no tecido social e urbano, e nas dinâmicas relacionais etc., de suas potencialidades cada vez mais inexploradas.

É claro que isso vai parecer apenas “utópico” a muitos leitores, pois, de fato, para um tal movimento acontecer, seria necessário (primeiro, ou ao mesmo tempo) a superação de uma formação subjetiva massiva que injeta o desejo contrário nos indivíduos; seria preciso superar uma quantidade imensa de egoísmos, de inveja, de raiva, de medo, principalmente de descrença, em suma, toneladas de sentimentos secundários incutidos nos indivíduos (em algumas regiões do planeta mais do que em outras) há muitos séculos, e que mantêm acontecendo o joguinho sem sentido do poder, mesmo no âmbito das artes. Mas mesmo estes leitores podem seguir lendo, pois não se trata aqui de um projeto, mas também de um processo. E o processo não é “utópico”, o processo apenas é – assim como texto pode ser experiência, e produzir algo em vida antes que qualquer palavra se torne um projeto.

Através destas ideias, chegamos no questionamento da experiência atual da coletividade, e na proposta de uma outra noção da mesma.

A coletividade, a nosso ver, seria a criação comum e coletiva – isto é, envolvendo a todos, ou a todos que queiram se envolver – da vida em comunidade. Como as pessoas, todas e cada uma, sentem e desejam que a vida deva ser e, em seguida, o trabalho conjunto na construção livre da mesma. Uma vida que seria colaborativa, sim: mas uma colaboração cujo objeto de trabalho seria a própria vida comum, e o respeito aos espaços e caminhos individuais.

A imensa profusão atual, tendência geral, da criação em coletivos – e da criação de coletivos – rompe inicialmente com as células fechadas nas individualidades separadas do passado, como no modernismo e sua obsessão pela identidade. Isto, a princípio, parece um movimento positivo, de abertura. Mas observamos como muitos coletivos atuais promovem esta abertura do indivíduo para fecharem-se, mais à frente, em uma nova individualidade de grupo, apegando-se muitas vezes ainda mais à identidade e à imagem de si como projeto.

Os coletivos, muitos deles, acabam sendo apenas uma união de forças – e, principalmente, de contatos sociais, de networking concentrado e expandido, em rede – para impulsionar a trajetória de um trabalho e de diversas carreiras, e conseguir notas e matérias em jornais mais facilmente, ou seja, para chamar mais atenção. Inauguram e celebram uma nova forma de viver, ser e criar, mas visam ao mesmo velho reconhecimento, fama, impulsionamento de carreira, valorização de imagem, concentração de status e privilégio. Mas tudo isso aplicando sobre si uma imagem (um simulacro) uma dos “novos tempos”, de “coletividade”, de “pós-modernidade”, na verdade imagem plastificada de cool e de hype.

Começam em reuniões sonhadoras com uma nova vida, terminam em uma capa de jornal cultural no Jornal O Globo, e assim está fechado o ciclo. Encontra-se uma nova maneira de viver para, dessa maneira, facilitar o alcance de tudo o que é velho e tão, ainda, desejado e cobiçado. Encontramos muito, nos dias de hoje, os mesmos velhos caminhos e estruturas escondidos por debaixo de novíssimas imagens, roupagens ou mesmo evidentes disfarces.

(É um pouco do que vemos no nicho que se chama atualmente de “hipster”: não são formas realmente alternativas de vida – que aconteçam fora do âmbito do poder – mas apenas imagens de formas alternativas de vida, imagens que estão totalmente dentro do espetáculo do controle, mais um nicho de mercado e consumo do que uma proposta radical de mudança dos parâmetros do sistema: e, o que é pior, imagens que se julgam superiores, mais inteligentes e livres do que outras imagens, igualmente produzidas pelo espetáculo. É essa talvez a diferença fundamental entre os hippies e os hipsters: os hippies surgiram como um movimento autêntico e espontâneo de resistência aos padrões da vida imposta pela sociedade capitalista, consumista e moralista de sua época, ainda se ligavam à natureza e ao cosmos num movimento de negação radical daquela sociedade e da criação de uma nova forma de vida fora do poder – apenas num segundo momento é que sofreram, é claro, de uma apropriação midiática, a mídia que entra em ação para transformar tudo em clichê e trazer o que ameaça para dentro do seu espetáculo; quanto aos hipsters, nunca resistiram a nada, nunca ameaçaram a ninguém, são uma produção direta da sociedade do controle, os filhos do capitalismo contemporâneo, que vê neles, com orgulho, a sua vitória, a sua consolidação – pois ditou, com sua astúcia, o que é que vai ser alternativo, e incluiu no seu projeto seus próprios momentos de negação, de questionamento, as “novas propostas” – e, para os hipsters, a própria natureza e o cosmos não existem mais senão como imagens, que ficam boas no seu mural, pois são indivíduos produzidos em série pelas máquinas alternativas do artifício e do social. E, se este processo de hipsterização não é generalizado, pois nem todos os jovens de hoje são hipsters, sua estrutura talvez aponte, ao menos, algumas tendências gerais do momento atual da sociedade, como veremos adiante).

Há, ainda, nas ações de muitos coletivos culturais e artísticos, uma dependêndia da visibilidade, do desejo de reconhecimento amplo, de estar nos destaques, nos Segundos Cadernos, nas listas dos especialistas da cultura, como desejavam antigamente os artistas e produtores da promoção da individualidade. Em vez de expandirem-se na direção de uma (mesmo que, por enquanto, utópica) Coletividade Total e Aberta, pulverizada, que visaria a um novo estado (ou devir) revolucionário da vida e da criatividade humana sem outra finalidade que não elas mesmas… ainda ligam-se às questões mais antigas e aprisionadoras, do Ego do artista, do status do produtor cultural brilhante que será adorado e bajulado em situações sociais, mesmo que agora esse artista ou produtor seja totalmente “colaborativo” e ligado em rede com seus 5 mil amigos.

Que desejo mobiliza esta crítica aqui feita? Este: o de passar da realidade de poucos artistas reconhecidos e recompensados por seus trabalhos, admirados por um público que não é (que não pode ser, e não se permite que seja) diretamente criativo, para: a realidade da criatividade expandida para toda a vida, em que todos podem participar – até o momento em que apenas participem sem sequer perguntar se podem participar ou não – até a dissolução da arte como disciplina social e cultural, transformada em vibração/expressão criativa da vida mundana e cósmica. A arte identificada com tudo o que é vivo, naturo-social ou sócio-natural, desvinculada de qualquer nome, marca ou logomarca.

Seriam tantos nomes, que nenhum mais importaria. Todos importariam, e logo, nenhum. Artistas anônimos da vida, viventes reconhecidos imediatamente em suas potências e singularidades, em seus corpos, emoções e espíritos, em suas expressões singulares brilhantes – pois tudo o que libera uma vida é brilhante – livrados de qualquer pressão aprisionadora por reconhecimento midiático e adoração egóica.

A coletividade propriamente dita só pode ser expansiva e fluida: é tão qualitativa quanto quantitativa. O Coletivo, como potencialização inicial da coletividade aberta, é aquele que quer que todo o mundo participe, e mais do que isso: não será o Coletivo enquanto não se abrir a todos – mesmo que muitos ainda não queiram, não estejam prontos para entrar – enquanto não tornar inútil qualquer tentativa de estabelecer um líder ou um seleto grupo de líderes, de comportamento exclusivo, que falarão em palestras sobre seus brilhantes projetos culturais revolucionários dentro da lógica pós-moderna. Não seria possível entrevistar o Coletivo para uma matéria de jornal porque ninguém o representaria: o próprio jornalista poderia ser parte do Coletivo: entraria só para fazer a matéria, e então ele poderia entrevistar a si mesmo. Os coletivos da pós-modernidade, entrevistam-se aos montes. Mas não é possível entrevistar a própria coletividade. O que é possível é dar a voz a uma singularidade que abriu-se à potência do coletivo, sem que esta represente, de maneira alguma, o coletivo como projeto, pois ele é somente processo.

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CONTINUA… A segunda e última parte do artigo será publicada na próxima edição, dia 15 de Julho.

Rômulo Cyríaco, junho 2015

 

…………………….

Um pensamento sobre “Arte, Coletividade e Infância

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