#13 Edição/literatura

ANTI-SIG .48/7U

…………………………………………… o que dizer? o que dizer quando se quer apresentar dois personagens que não possuem nome?

dizer que eles não possuem nome / é um bom começo.

mas

não dizer nada seria um melhor começo.

e qualquer última tentativa de nomeá-los de maneira arbitrária para se ter referência de ambos dentro de uma narrativa seria um crime.

seria melhor não escrever absolutamente nada > até mesmo como uma forma de obter um texto inteiramente composto sem uma só palavra. IMAGINA.

eu os conheci pessoalmente certa vez, eles são cientistas, e enquanto cientista / não vejo porque colocar mais palavras nesse mundo quando este já as tem em grotesco excesso: o experimento é esse aqui: colocar palavras e ao mesmo tempo retirá-las: subtrair do mundo as próprias palavras que acabo de inserir. eu injeto FADE OUT em cada uma das palavras antes de usá-las para montar minhas frases. logo: isso tudo que você está lendo irá desaparecer / logo / e só continuará existindo na sua memória.

subtrair para não sobretrair. acustoma-se.

jamais os chamaremos por exemplo de irmão 1 e irmão 2: isso seria demasiado infantil perto da maturidade psicológica que eles possuem e pedem dos outros ao não possuírem nome. comprovadamente eles lidam com maior facilidade com as inseguranças básicas (que em alguns casos se tornam avançadas) implicadas na relação de um indivíduo com o seu senso de ego. tais inseguranças estão contidas na linguagem verbal para quem acredita fielmente nela e para quem quer definir e estruturar todo o seu mundo a partir dela: eles, os caras, não acreditam na linguagem, são PhD em Descrença na Linguagem, e isso aumenta a crença na vida: estão constantemente reestruturando e distorcendo linguagem verbal, abandonando pontos desnecessários da mesma, primeiro passo claro abolir radical e definitivamente uso do verbo ser: não acreditar no verbo ser. eles não deixam de ser nada, não perdem nenhuma de suas qualidades e propriedades: pelo contrário, se tornam mais próximos delas, de todas elas, ao abandonarem a mediação de um verbo. aprenderam a pensar de outra forma. o fato de não terem nome não machuca em nenhum momento a noção que eles possuem de si mesmos, identidade/personalidade, pelo contrário, é um empurrão suave na direção de uma mentalidade limpa e avançada, e de uma impressionante capacidade combinada de contato com o âmago e de transformação.

eles mantêm uma relação avançada com seu ego. não sentem ciúmes, não são possessivos. é preciso não ser possessivo com seu próprio ego, deixá-lo sair para passear por exemplo sem ficar ligando o tempo todo, rastreando, definindo.

eles não possuem nome de modo que possam ESCAPAR e eu os deixarei ESCAPAR aqui também – o fato de não terem nome impede que eu os fixe nas minhas frases com coordenadas exatas e facilmente localizáveis: eles ESCAPAM entre as minhas palavras, não se deixam codificar/apreender.

até porque quem de vocês pode garantir que é DELES que estou falando quando falo ELES, ELES. ELES podem ser quaisquer ELES.

ELES são irmãos gêmeos, nascidos em kyoto, no japão. foram concebidos no banheiro de um fliperama oscilante numa tarde chuvosa. os oscilantes são fliperamas que se inscrevem em uma diferente lógica espaço-temporal / sua existência é constantemente intercalada (de micro-segundo a micro-segundo) com instantes de não-existência, o que faz com que você esteja no lugar e ele pisque o tempo inteiro, como uma frenética lâmpada em on/off, resultando em um efeito estroboscópico constante de existência e não-existência vice-versa assim por diante e não por diante / a realidade do local é dividida em pedaços ínfimos e entre cada pedaço é enxertado um instante de vazio completo / TELA PRETA, ABISMO.

sua mãe se chamava tara. na época tratava-se apenas de uma menina de 14 anos diferente de todas as outras / extremamente à frente de seu tempo: ou seja, ela andava e seu tempo ia correndo atrás dela sem alcançá-la / e avançada para sua idade, très en avance pour son âge, possuidora de um dos cérebros matemáticos mais precisos e velozes que já esteve em vida neste planeta. seu cérebro era um verdadeiro tesão.

seu pai se chamava qwqong. foi dele a exigência de que os filhos não tivessem nomes. ele mesmo, pouco depois do nascimento dos gêmeos, com 15 anos de idade, conseguiu destruir todos os seus registros oficiais de pessoa física e abandonou o seu nome para sempre. em seguida montou uma organização informal com fundamentos de guerrilha para lutar contra a fixidez da linguagem = tendência fixadora da linguagem verbal no planeta terra. então recém-formado em ciência bélica digital, sua maior invenção (para sempre clandestina) foi sem qualquer dúvida a arma de laser bege que retira o(s) significado(s) dos objetos do mundo, incluindo seres vivos. cada tiro retira 1,04 significado.

a partir da invenção da arma ele dedicou sua vida à liderança de uma organização anti-significado, ela própria sem nome, que continua em atividade mesmo após a sua morte. chega ele, acompanhado de alguns capangas, todos portando uma ANTI-SIG .48/7U diante de um objeto qualquer repleto de significados. o laser bege retira um por um todos os significados do objeto e este permanece onde estava, porém completamente esvaziado de sentido, de modo que a próxima pessoa que o vê se surpreende vertiginosamente com a incapacidade de compreender agora o objeto cujo formato lhe é tão familiar / porém ela não consegue jamais se recordar do que ele queria DIZER no passado nem mesmo vislumbrar o que ele quer DIZER no momento pois ele parece não querer DIZER mais nada / logo esta pessoa enxerta no interior do objeto esvaziado um novo sentido ou alguns novos sentidos = a ANTI-SIG .48/7U possibilita a renovação do escopo/espírito de um objeto ou pessoa no mundo, destruindo para sempre associações fixadas que impõem um caminho e/ou impedem outros. a ANTI-SIG .48/7U devolve a mobilidade às coisas;

a arma deve ser usada com cuidado, pois existe um risco grave na superexposição de um alvo ao laser bege / quando todos os significados de um objeto ou pessoa são retirados, tiros adicionais desnecessários podem bloquear para sempre a capacidade do objeto ou pessoa de receber em si um (novo) sentido ou, muito pior, um (novo) uso, permanecendo eternamente vazio(a) > imobilizado(a). tal efeito colateral já foi solicitado/utilizado propositalmente por ele, o líder da organização, ao encontrar-se diante de um inimigo. inúmeros agentes da fixação foram esvaziados e bloqueados.

tara, a mãe dos gêmeos, ajudou muito no desenvolvimento da ANTI-SIG. seu cérebro era tão veloz que a sua percepção da realidade era constantemente um deja vu: e o que ela estranhava era quando o deja vu parava. depois o casal se separou / ela abriu um sexshop no décimo sétimo andar de um edifício arquitetonicamente revolucionário projetado por um graphic designer asteca = o edifício não é uma forma fálica erguida para cima como por muito tempo foram os prédios da era tradicional: o edifício nomeado PERSEPHONE em homenagem à deusa grega do telefone era na verdade um furo no chão, deste para baixo, em profundidade, da superfície para o centro do planeta. como uma boceta.

sua sexshop como o nome indicava vendia sexo > relações sexuais já prontas, já realizadas. sexo para viagem. mas isso não era como uma boceta, havia algo de errado então.

os gêmeos de kyoto tornaram-se cientistas. desenvolveram recentemente duas caixas de metal oceânico que possuem um ânus mecânico em uma de suas extremidades laterais e reproduziram no interior das caixas todo o sistema intestinal humano com material não-orgânico. as caixas foram nomeadas MAB (MECHANIC ANUS BOX). tratam-se de caixas de 40 x 60 cm, com a superfície inteiramente estriada / sendo o ânus mecânico a única abertura. não há qualquer função definida para a existência das caixas.

no interior da caixa, conectado ao ânus mecânico, há um tubo de plástico flexível cuja outra extremidade está conectada a um reservatório auto-repositor de lubrificante, que é liberado em pequenas doses sempre que um sensor detecta e informa que o ânus mecânico está demasiadamente seco. o que o ânus mecânico faz? ele defeca (como uma catapulta) bolas de goma de mascar que se materializam no intestino mecânico da caixa conforme um sensor eletromagnético capta OU captura ondas de radioatividade.

um certo número de ondas radioativas materializam uma goma de mascar em bola (que possui diâmetro aproximado de alguns cm) simultaneamente em ambas as caixas. os ânus mecânicos defecam suas bolas de goma de mascar ao mesmo tempo – as caixas ficam dispostas/fixadas em uma mesa de zinco, os ânus estão virados um para o outro e a distância entre as caixas é de outros cm. muitas vezes a defecação das gomas acontece com tanta pressão que ambas se chocam no ar e saem quicando sideradas pelo espaço. algumas são capturadas pelos cientistas e queimadas em fogueiras digitais. outras, não capturadas, ganham mais altura a cada segundo até entrarem em órbita ao redor do planeta terra e desenvolverem espontaneamente capacidades de registro imagético, transmitindo imagens pornô-planetárias para websites escolhidos randomicamente. boas bolas de goma de mascar produzidas pelas MAB vão cair diretamente na boca de políticos e diplomatas, que seguem o dia mascando a goma enquanto existem e necessitam não mais existir. as bolas, depois de mascadas algumas vezes, se transformam em monstros que saem da boca dos políticos, crescem e engolem estes últimos, mascando-os feito chiclê.

muita gente tende a achar que existe um significado para que a cor das bolas de goma de mascar seja respectivamente azul e vermelho. mas não existe. as cores foram escolhidas aleatoriamente / até mesmo como uma provocação dos cientistas, que previam o desejo de interpretação do público.

o experimento mais radical dos gêmeos que não possuem nome / eles NÃO SE CHAMAM / será uma técnica de reprodução artificial em ambientes oscilantes, a energia sexual de um casal que transa nesse ambiente sendo digitalizada/capturada por uma máquina que a transforma em informação binária no interior de um HD e envia o embrião humano em formato .ser para um determinado website.

o embrião fica em gestação online – liberando a mulher do fardo de carregar um bebê tradicionalmente por 9 meses em sua barriga. em mais ou menos um mês o bebê está pronto e disponível para download.

mas isso tudo não é nada, sabe?

a história é uma fantasia. ainda estamos na pré-história, é tudo que há e o que sempre houve. criamos EM CIMA (e não depois) da pré-história uma fantasia tão secundária quanto ridícula que faz todo o mundo esquecer que é mundo.

e também a história do casal que transou tão bem e tão DE VERDADE que fez todo o mundo tecnológico explodir por não aguentar tanta VERDADE assim, tanta CENA PRIMÁRIA! casal que transou de verdade demais para o gosto contemporâneo refundando, assim, uma nova e gloriosa pré-história.

eu derreti e todo o mundo derreteu junto.
tudo derrete, de verdade – tudo desaba para baixo.

e, então, a história seria um problema:

que tesão eu tenho na pré-história, é só o que deveria haver.
a pré-história está esperando um filho meu.
e meu filho vai matar a história.
fim da história? maravilha.
triste mesmo seria o fim definitivo
da pré-história.

orgasmos pré-históricos.

fim do conto.
fim de todos os contos.

 

Romulo Cyríaco, dezembro 2014.

 

…………………….

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