#17 Edição / literatura / poesia

TSUNAMI

ao Leo

I
Quando o tsunami chegou como sempre sem ser anunciado
eu levava na mochila o Óleo das horas dormidas
do Leo, livro que aliás o Leo tinha me mostrado logo após uma onda estranha
que também havia levado alguns de seus       pertences
(penso que talvez fosse aquela mesma onda querendo levar agora o seu livro)
mas ventava e voltei com as páginas endurecidas
à mesma enseada, agora com máxima de 42º e água propícia para o banho.

II
Estávamos então de novo ali eu       o Leo
à revelia do seu próprio desejo ou desejando talvez
que a sua grande onda tivesse levado os poemas e as minhas havaianas pretas
para o fundo onde quase tudo é        concha
mas havíamos sobrevivido quase intactos
com alguns arranhões e páginas soltando, em primeiro lugar
porque um livro do Leo nunca é pensado para resistir
……………………….a uma catástrofe
tão patética e em segundo porque um poema do Leo nunca é pensado at all
é escrito apenas como as letras que escrevemos
na água, uma caligrafia que precisa não mais do que o seu próprio peso
para afundar e sumir entre as algas
ou algo já sem a espessura de um livro
e nunca sabemos ao certo a quantidade de páginas,
mesmo que no início cada palavra pareça cair como óleo
em água.

III
Antes de abri-lo entrei no mar e as crianças queriam que eu ficasse ali como um bom pai que eu ainda não sou completamente ou ajudando-as a construir um castelo ou enterrando-as na areia, mas habilmente consegui driblar as anãs que logo se distraíram com o coco o guaravita o algodão doce o céu a ferida no joelho a voz de cotovia do vendedor de picolé e pude voltar tranquilamente para o livro, tendo apenas o cuidado de secar as mãos.

IV
Antes de abri-lo lembrei por um instante ainda dos cabelos encaracolados do Leo e daquele corpanzil de lutador de wrestling e do seu jeito neurótico de falar que seduz as garotas e os homens que se deixam seduzir por homens neuróticos, lembrei de quando me mostrou a tatuagem nova que lhe rendeu exílio no hospício e um livro, lembrei do olhar meio doce e meio egoísta cuja segunda metade é sempre a tônica das minhas críticas quando quero foder com a imagem do Leo diante de alguém, principalmente diante de alguma garota idiota que acha que o Leo é um quindim, lembrei de quando ele me encontrou na fossa e me disse como um grande canalha beberrão que era lindo ver um homem chorando e que de todas as coisas valiosas que tínhamos perdido a mais valiosa era a capacidade de chorar em público e de sofrer como sofrem as verdadeiras mulheres superficiais, por amor.

V
O sono leve começava, claro, com escombros
e uma perturbadora falta de aspas.
Logo percebi que apesar daquela onda errada do Leo
o livro continuava e descontinuava a sua Conversa com Leões
porque estavam ali as mulheres e os criminosos e     não,
estava ali o crime e a tentativa de um crime contra uma mulher
– um crime que começa com uma faca desafiada e um cabo de vassoura
na válvula do gás – um crime que gostaria de cometer
enquanto vende livros ruins para cidadãos de bem
com rastros de x-salada nos dentes e catchup no paletó
como se fosse sangue, um crime
que gostaria de cometer contra mim por lhe dar presentes
e aparecer na livraria pedindo dicas de poetas vivos,
logo eu que teria tempo e possivelmente dinheiro para jamais ler um autor vivo,
insisto e peço para separar para mim o Óleo das horas dormidas.

VI
Eu sou o que o Leo chamaria de um poeta que dá presentes,
um bebezão razoavelmente adaptado e inserido entre universitários que grifam frases de
Deleuze e tentam parecer inteligentes durante as conversas de bar, conversas tais que
[podem
versar sobre a perna quebrada do Anderson Silva ou sobre a Teologia da Libertação,

entre os poetas ateus que, como Buda, desviam de formigas e baratas,

entre os parasitas burgueses que entremeiam a bunda dos pobres com KY para que sintam
menos dor e se tornem ainda mais vulneráveis,

um poeta, enfim, que dá presentes.

VII
Não concordo, obviamente, com essa leitura mesquinha que o Leo faz de mim
e sinto-me absolutamente confiante na minha inteligência real, numa não-insignificante generosidade e capacidade de articulação crítica,

do contrário não escreveria e muito menos escreveria críticas e muito menos ainda escreveria críticas sobre os seus livros.

VIII
Óleo das horas dormidas é um livro de poemas apesar de ser de novo um livro novo do Leo sobre o Leo, só que – eis aí o pulo do gato – trata-se também de um não-Leo ou Leo-partido entre o que poderia ser e não é, o que poderia ter sido e não foi, o que poderia vir-a-ser e não será: uma pequena autobiografia não-autorizada.

IX
Foram estes os poemas que mais me impressionaram:

1. quinta de mahler – finale
2. assalto à livraria
3. a comédia soturna
4. bravata
5. jantar num restaurante chique
6. a frente polar
7. por uma vida artística e cool
8. uma discussão crucial
9. sobre a meditação laica
10. chopin

X
O seu Óleo das horas dormidas é um pequeno “cat in the rain / fallin’ like a knife over skin” e já não se trata, como você escreveu no primeiro poema de L’amore no de “uma coragem literária que murcha na fila do banco”, mas de uma coragem contra a própria literatura que brota desses pulsos remendados – remendados pulsos como os de um velho poeta romântico e não como os de um maníaco-depressivo qualquer – de qualquer forma alguém que se ama o suficiente para desejar alguma coisa além de si próprio, alguém cujos contornos são suficientemente borrados para que o mundo não lhe pareça uma outra pele e é assim que me parecem ser seus livros: não-livros ou algo que eu poderia a qualquer momento atirar no Atlântico (mas jamais numa gaveta, percebe?) e finalmente seu livro me diz o quanto é errado consultar a previsão do tempo antes de sair de casa, o quanto é desnecessário tentar salvar livros de catástrofes naturais, mas, principalmente, o quanto é estúpido continuar aqui e não aceitar – ainda que tardiamente – o convite das crianças para construir um tão delicado quanto monstruoso castelo de areia.

(Niterói, janeiro de 2015)

Marcelo Reis de Mello, abril 2015

 

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